29.10.14

DESPEDIDA (solicitação de desfiliação à REDE Sustentabilidade)


Por Célio Turino



"Rio, rio, me carregue
Rio vivo, me carregue

Rio, rio, me carregue
Para o lugar de onde eu vim"

(Tradução livre de "Washing of the water" de Peter Gabriel)



A sensação é a de ter atravessado um rio tormentoso, cheio de correntezas e, ao estar perto da margem, descobrir que é necessário voltar para começar tudo de novo. Voltarei e recomeçarei. Foi bom nadar junto com todos da REDE, mas entre uma correnteza e outra, percebi que não era exatamente para esta margem que desejava ir. Mais honesto deixar que a correnteza me carregue de volta e, ao chegar na margem de partida, tomar fôlego, refletir e me atirar novamente ao rio, por mais difícil que seja.

As alianças políticas iniciais, muitas por imposição da realidade e que por isso mesmo devem ser compreendidas nestas circunstâncias, mesmo quando contraditórias, foram necessárias para seguir a travessia do rio. Mais para o meio do rio, o programa, principalmente na parte econômica; neste caso, os galhos arrastados feriram por demais, como não me atirei (não nos atiramos) em um rio tormentoso para defender propostas que iam em sentido oposto aos princípios de toda uma vida dedicada à emancipação social e aos direitos do povo, já naquele momento foi necessário começar a pensar na volta. A lógica das finanças não pode prevalecer sobre a lógica da vida, nos jogamos no rio para defender os ideais da sustentabilidade, os direitos das águas, dos animais, das plantas, das pessoas, da terra..., não para defender a Independência do Banco Central; nem a revisão do conceito do trabalho escravo, tão duramente conquistado após dez anos de protelação no Congresso (por mais que houvesse boa intenção, esta proposta, assim como a revisão da CLT, era totalmente inapropriada); nem a diminuição do papel dos Bancos Públicos ou dos créditos direcionados para o financiamento rural ou moradia popular (enquanto houver famílias sem casa, há que ter financiamento direcionado e subsidiado para assegurar-lhes um teto); ou a redução da Justiça Trabalhista para uma mera função arbitral (pois se assim fosse, os trabalhadores e categorias menos organizados seriam ainda mais desprotegidos). Mas ainda assim seguimos enfrentando os galhos na correnteza, não era possível retornar naquele momento pois a campanha eleitoral, assim como a travessia de uma correnteza, não podia parar. E talvez fossem apenas galhos inadvertidamente arrastados em meio ao turbilhão do rio; afinal, havia muito mais coisa boa no programa, como meta para energias renováveis, a diversidade cultural, a reforma agrária, o respeito aos índios e quilombolas, a defesa das florestas... Mas que pelas circunstâncias, pelos ataques sofridos, pelo pouco tempo de televisão, pela tragédia da morte de Eduardo Campos e todos os atropelos daí advindos, praticamente não puderam ser destacados como mereciam. Também houve os atropelos no funcionamento interno da REDE, antes mesmo da campanha eleitoral ou da filiação solidária ao PSB, na tomada de decisões e no hermetismo com que eram tomadas, na distância entre o que se fala e o que se faz. 

Ainda assim seguimos juntos na travessia do rio, sempre na esperança em encontrar algum banco de areia ou tronco de árvore mais forte, que nos permitisse retornar fôlego e redefinir rumos, como poderia acontecer no segundo turno das eleições presidenciais. Porém, o povo não decidiu assim.

Naquele momento nos cabia decidir entre seguir a travessia, mesmo sem encontrar um tronco em que nos apoiar (ou um tronco a apoiar) ou se agarrar a algumas toras que passassem por ali, mesmo sem saber para onde nos levariam, ainda mais quando este caminho não era o inicialmente traçado (ou sonhado). O Brasil se dividiu nestas eleições, e de uma forma ruim, exacerbando todo um conjunto de maus sentimentos, posturas e imposturas. Resultado de erros recentes, muitos do atual governo, mas também de erros do passado, seculares, de um pais que foi se fazendo na desigualdade e ganância. Não se tratava de uma simples e saudável alternância de poder, mas de retrocessos conceituais, da retomada de valores que tão mal fizeram e fazem aos povos, seja no Brasil ou em qualquer outro lugar. Para mim e creio que para todos que acreditam em uma vida com mais justiça e menos desigualdade, o salário mínimo praticado no Brasil não é alto (a propósito, na América do Sul, apenas a Bolívia tem salário mínimo com valor inferior) e as riquezas naturais, quando exploradas com parcimônia e respeito ao ambiente, devem servir ao bem estar do povo, jamais a empresas coloniais, ávidas de lucro (um bom exemplo é o que acontece com a SABESP, distribuindo metade de seus lucros - R$ 6,7 bilhões em seis anos- a acionistas em Nova York enquanto o povo de São Paulo está ameaçado com o colapso no abastecimento da água). Também não seria possível apoiar políticas econômicas ortodoxas que voltassem a praticar taxas de juro público em níveis de agiota (como quando a SELIC chegou a 45% ao ano!), nem que desemprego voltasse a ser considerado uma mera externalidade necessária ao bom funcionamento da macroeconomia (como quando o desemprego chegou a 12% no. Brasil e a incríveis 20% na grande São Paulo). Afinal, a política e a economia tem que servir à qualidade de vida, à felicidade do povo, não aos rentistas.

Mesmo apoiando e confiando nos princípios e valores originais da REDE e mesmo em sabendo que muitos daqueles que seguirão na REDE estarão honestamente empenhados na defesa destes princípios, entendo que meu tempo como filiado se encerra por aqui. Sinceramente, desejo sorte a todos que permanecem, deixo amigos por e quero reencontra-los em jornadas futuras. Registro, em especial (e apenas não cito mais nomes para não cometer o erro de esquecer algum), o carinho e respeito à Marina Silva, pessoa que, por sua origem, posturas e trajetória de vida, ainda tem muito a contribuir com o povo brasileiro, sobretudo nestes tempos incertos, em que o diálogo, a paz e a tolerância se farão ainda mais necessários. E foi exatamente por esta compreensão sobre o papel de Marina que a defendi com firmeza, contra as infâmias e covardias de que foi vítima durante esta campanha, incluindo as mais terríveis insinuações a respeito do trágico acidente com Eduardo Campos.

Sei que a REDE está quase alcançando a outra margem do rio (afinal, faltam menos de 40 mil assinaturas certificadas pelos cartórios para obter a legalização), tenho igual consciência da minha dedicação e esforço para que chegássemos onde chegamos, mas prefiro regressar, desejando sucesso aos que seguem. Vou enfrentar a mesma correnteza na volta e assim que chegar lá (sinto que já estou chegando), novamente vou me atirar no tormentoso rio da busca por uma nova cultura política em um Brasil que se reinventará de baixo para cima, com potência e afeto.

Em paz. E avante!

Célio Turino é historiador, escritor e gestor de políticas públicas. Servidor Público há mais de 30 anos, exerceu funções como Secretário de Cultura e Turismo em Campinas,SP (1990/92), Diretor de Promoções Esportivas e Lazer em São Paulo, SP (2001/04) e Secretário da Cidadania Cultural no Ministério da Cultura (2004/10). Idealizador e gestor de diversas políticas públicas inovadoras, entre elas o programa Cultura Viva e os Pontos de Cultura, atualmente em processo de implantação em diversos países. Autor e organizador de inúmeros livros e ensaios, entre os quais: NA TRILHA DE MACUNAÍMA – ócio e trabalho na cidade (Ed. SENAC, 2005) e PONTO DE CULTURA, o Brasil de baixo para cima (Ed. Anita Garibaldi, 2009).

25.10.14

Nova Política: da esperança à frustração















Considero profundamente rica a experiência que tive no processo de formação da #Rede Sustentabilidade, iniciativa que buscava a criação de um partido político, tendo Marina Silva como sua principal fonte de inspiração. As reuniões das quais participei, as atividades elaboradas em prol da formação política, as pessoas que conheci, tudo foi bastante proveitoso. Naquele tempo, até escrevi um texto no qual me referia à #Rede como uma via mantenedora de esperança. Essa era uma das frases prediletas de Marina Silva àquele tempo.

Não obstante, o tempo passou. E com ele muitas coisas ficaram para trás. A #Rede, que havia sido pensada tendo em vista os questionamentos sobre a relevância dos partidos existentes, aos poucos passaria a não se diferenciar tanto desses. Como se sabe, o indeferimento do registro do partido pelo TSE resultou na aliança entre #Rede e PSB (Campos e Marina). Saída que, para muitos dentre os fundadores da legenda, não condizia com os valores preconizados pelo Estatuto nem com o histórico percorrido por todos nós naquele processo.

Ainda assim, Marina Silva era o nó catalizador de todas as conexões da #Rede. Sua decisão arrastou consigo quase que a totalidade dos militantes, embora tenha havido significativas baixas. De lá para a cá, os rumos tomados por Marina Silva sinalizavam para lugares cada vez mais obscuros. Porém, mantinha-se o discurso de que deveríamos transcender às categorias de “direita” e “esquerda”. Hoje vemos o quanto esse discurso se tornou furada e o quanto, na prática, nunca foi realizado. Gerando apenas confusão e deseducação política.

As coisas pioraram após o falecimento do então candidato Eduardo Campos. Marina Silva deveria agora levar adiante a candidatura à presidência abandonando a confortável posição de vice. Foi aí que a candidatura pela Nova Política foi se convertendo em uma candidatura claramente à direita com discurso sofrível de superação daquilo que fora convencionado como sendo de velha política.

Propostas medonhas, como a independência do Banco Central, foram constantes no discurso da candidata. Embora essas e outras falas não condissessem com a trajetória da morena magrinha que veio dos seringais, a boa pontuação nas pesquisas eleitorais (que lhe lançavam no segundo turno), fez com que Marina e a #Rede se sustentassem por mais tempo, ainda que sob uma postura alienígena diante de tudo o que se havia decidido, vivido e praticado durante o processo de formação do movimento que pretendia ser um partido.

Em pouco tempo, Marina e sua candidatura pelo PSB foram do céu ao inferno. Conferidas as urnas Brasil afora, Marina Silva não havia tido os resultados esperados. A tão questionada polarização PT-PSDB protagonizaria mais uma vez o pálio eleitoral.  Ora, como se posicionaria então a candidata que se intitulava como terceira via? Depois de protelar a decisão, Marina e seu staff declaram em entrevista que ofereceriam apoio a Aécio Neves, do PSDB. Nada mais estranho. A ex-militante do Partido dos Trabalhadores, advinda das Comunidades Eclesiais de Base, da CUT, e de tantas outras lutas se rendia agora à alternativa (grupo político) que nunca, nem de longe, sinalizou para as pautas que durante toda a sua jornada ela sustentou. Mágoa com o PT e sua dura contestação e desconstrução da imagem de Marina Silva durante a campanha? Ela se apequenaria tanto assim ao ponto de deixar que sentimentos tão privados se sobrepusessem à sobriedade política? Não sabemos, não importa mais agora.

A insustentabilidade da aliança gerou mais baixas e também cindiu a #Rede que já não se apresentava mais como tal, mas sim como uma colcha de retalhos formada pelo que restou de um grupo profundamente engajado, vívido e esperançoso. Valores tão relevantes como consenso progressivo e horizontalidade pareceram naufragar diante das decisões autocentradas da líder ambientalista, obviamente sustentada por um grupo importante de articuladores políticos (profissionais) e mantenedores financeiros.

O discurso de Marina Silva vinha se tornando cada vez mais solúvel. A ideia de sustentabilidade abriu espaço para discussões acerca de economia e um discurso moralizador que, mesmo na #Rede, só teria sentido se fosse aplicado apenas à própria candidata e a alguns poucos. Ao que tudo indica, a #Rede se afundou e não se sabe ainda se alguém poderá fazê-la emergir outra vez. Foi com ela a esperança plantada por Marina Silva na alma de cada militante que já não suporta mais seguir nesse processo.

O bom-senso e a sobriedade nos convidam, então, a pensar sobre tudo isso, revisitar essa experiência e tirar algumas conclusões a fim de encontrar algum alento. Faz-se necessário então lembrar que o grupo reunido e cativado por Marina constituía-se de pessoas de todos os cantos, lutas e formação política distintas. Um grupo demasiado plural.  Algo muito interessante, se se tratasse de uma ONG ou coletivo, como uma vez alguém já disse. Mas em se tratando de um pretenso partido, em algum momento o caldo iria entornar. Como sustentar as mesmas posições em um grupo tão heterogêneo? Se entre partidos consolidados, como, por exemplo, o PT, que se declara socialista, há uma série de tendências políticas, imagine em um movimento que se constituiu sobre uma base tão insólita?

A despeito de toda a pluralidade, o que se assistiu foi o estreitamento dos laços de Marina com algumas figuras da #Rede advindas da direita. Isso talvez explique a debandada da ambientalista em direção ao PSDB no segundo turno. Se outrora havia gente de diversos habitats sociais ao seu lado, seu grupo de influencia fora se restringindo mais e mais. A diversidade na unidade parece que também ficou só no discurso. Marina Silva foi engolida pelo processo que ela mesma deu início ao sustentar um discurso tão líquido (como diria Baumann).

Hoje, quem é Marina Silva? O que sobrou da #Rede sustentabilidade? Essa iniciativa política tem ainda força moral para realizar internamente as reformas que gostariam de contribuir para que se realizasse no Brasil? Não são agoureiros nem pessimistas os que sustentarem que não. Afinal, se outrora a #Rede se apresentava heterogênea demais, agora talvez se mostre lamentavelmente amorfa demais.

Revendo esse processo, recordo-me que estava dentre os que achavam que o Movimento pela Nova Política não deveria se converter em partido. Éramos muitos os que achavam que deveríamos militar, como a própria Marina gostava de dizer, pelas bordas. Advindos da periferia da política, teríamos mais força moral para influenciar o centro de poder do que inseridos no sistema. Hoje se vê que não haverá de fato mudança significativa sem que ocorra uma profunda reforma política em nossas estruturas. Reforma esta que deverá ser a base para uma série de outras que ainda seguem pendentes, como a Reforma Agrária e a Tributária.

Marina Silva, que pretendia ser mantenedora de esperanças, infelizmente sairá dessas eleições com um capital político bem menor do que já tivera. Talvez já não consiga mais preconizar os clamores por um novo jeito de fazer política. Aliás, o que vem a ser essa nova política? Acho que nunca ninguém entendeu muito bem. Apesar dos pesares, foi bom enquanto durou. Só não durou muito. Aos que ficaram viúvos desse discurso, resta levantar a cabeça e buscar outros caminhos para voltar a alimentar seus sonhos. 

20.7.14

Adeus, Pássaro Encantado

Gosto de caquis. É certamente minha fruta preferida. Não esqueço a primeira vez que a experimentei. Estávamos no fundo do quintal, enquanto nosso vizinho cortava algumas árvores a fim de construir um muro. Meu pai pegou a fruta e me deu. Embora doce, ainda estava um tanto verde. Amarrou meus lábios (algumas frutas, quando verdes, deixam nossa boca como que ressecada, é difícil de explicar).

Depois, muito depois, tive contato com os escritos de Rubem Alves. Dentre as várias estórias que contava, minhas preferidas são as relacionadas com o paladar. A experimentação dos sabores da culinária, as delícias da comida mineira, as frutas, e, por fim, os caquis.

Rubem sempre repetia, onde quer que fosse, que a maçã não teria sido de modo algum a fruta proibida do Éden. Não faria sentido, era pudica demais. Difícil de ser desnudada e, quando sem a casca, ao ser mordiscada liberava um som doído, quase de resistência. Já um caqui maduro – ah, nada mais convidativo! – nele abunda sensualidade. Sua aparência parece nos convidar: “Me come!”.

Caqui é fruta que se come lambuzando-se. É como sexo. Não dá pra ser pudico demais. Não é bom quando se tem receio de se impregnar do outro. De ficar com cheiro e sabor da fruta que se saboreia.

Nunca mais comerei caquis sem me recordar desse mineiro. Jamais me esquecerei de quantas coisas floresceram em meu coração e, consequentemente, em minha vida depois do contato com a beleza dos versos doces desse contador de estórias.

Rubem Alves se foi. Mas já havia nos avisado. Afirmando que o amor deixa partir. Sugerindo que o Pássaro Encantado um dia comeria do fruto vermelho que incendeia os que lhe experimentam e suas cinzas se espalhariam pelo vento. Foi mas fica! Porque “aquilo que o coração amou fica eterno”.

Por isso, sinto que ele está sempre presente. Pois na relação de amor que se deu pelas letras, pelo processo antropofágico, degustei de sua obra de carne e sangue, de modo que agora já faz parte de mim. Assim como faz parte de tantas outras pessoas que se inspiram em seus versos poéticos.

O nosso Rubem era um mineiro de uma Minas mítica, que só existe em nossos corações... Uma Minas tão ampla que havia também em São Paulo, no Rio Grande do Sul, no Nordeste, em cada canto onde a simplicidade reinasse... O que permitiu a cada leitor experimentar um pouquinho do que ele viveu e contou. Não nos dizia tantas coisas novas, dizia-nos coisas que já sabíamos em nossos corações e algumas vezes havíamos esquecido. Confluência!

Como rios que se encontram e se misturam, e já não são mais os mesmos - assim foi meu contato com esse querido autor. Parafraseando Guimarães Rosa, Rubem não morreu, ficou encantado.

Até breve, Pássaro encantado!... 

19.7.14

A morte do pássaro encantado

O pássaro encantado já estava velho. Em sua vida longa, voara por todas as partes do mundo. Voava para sentir saudade, porque sabia que é na saudade que o amor cresce. Mas voltava sempre para contar estórias para uma menina que ficara à sua espera. Agora estava cansado. Suas asas já não eram as asas da mocidade. Lembrou-se de quando era criança. Lembrou-se do seu deslumbramento ao ver os céus cheios de estrelas. Diziam que era entre as estrelas que moravam os deuses. Abriu suas asas e voo para chegar à morada dos deuses. Ele queria chegar aos deuses para pedir-lhes que descessem à terra para enxugar as lágrimas dos que sofriam. Mas chegando lá, nada encontrou, apenas o vazio. Os deuses haviam emigrado, abandonando-nos órfãos.

Lembrou-se então dos seus voos em busca dos heróis, que haveriam de transformar o mundo. Mas, quando os conheceu, achou-os pequenos, mesquinhos e cheios de ódio. Não amavam nem música nem poesia. Só falavam sobre lanças e espadas.

Lembrou-se da sua passagem pela casa da ciência, morada dos homens da verdade. Mas percebeu que ali os homens não tinham asa. Andavam cuidadosos olhando para o chão, com medo de tropeçar e cair. E os diplomas que distribuíam eram fetos mortos fechados em tubos de ensaio.

Lembrou-se então do seu encontro com a poesia e as crianças. Foi aí que encontrou alegria. Foi aí que começou a contar estórias. Para as crianças. Porque elas são leves, sabem rir e sabem chorar.

Aconteceu, então, que uma menina se apaixonou pelo Pássaro e lhe disse que viveria com ele até o fim da sua vida. O Pássaro também a amou e disse que viveria com ela até o fim da sua vida.

E, como em As mil e uma noites, contou-lhe muitas estórias. Contou-lhe sobre um mercado onde namorados se encontravam e andavam de mãos dadas. Contou-lhe outra sobre trens que levavam a lugares de ternura. E estórias sobre gargantas cortadas nas rochas e montanhas sob a chuva que caía, de pontes cobertas com tristes finais de amor, de bosques de árvores brancas, de serras tão altas que encostavam nas estrelas, de geleiras frias de gelos brancos e azuis, de lagos límpidos onde sereias nadavam nuas, de cachoeiras encantadas onde moravam elfos e guinomos, de lobos e falcões que se amavam sem poder se tocar, de uma pedra encantada à beira da cascata onde namorados se amavam.

A menina se sentia iluminada pelo canto do Pássaro e lhe cantarolava, sorridente: “You are my Sunshine...” Sim, o Pássaro encantado iluminava o rosto da menina como o sol. E o rosto da menina iluminava o rosto do pássaro como a Lua. E assim foi, por muito tempo. O Pássaro voava. A menina sentia saudades. Ele voltava, e eles se amavam.

Aconteceu, entretanto, que ao voltar de uma viagem (o pássaro lhe trouxera um presente de amor), ele notou que algo acontecera com a menina. Ela o recebeu com rosto sério e lhe disse: - Alguma coisa aconteceu dentro de mim. Meu coração mudou. Preciso partir porque suas asas duras não podem me levar aos lugares suaves onde quero estar...

Foi só então que o Pássaro notou que levíssimas asas de beija-flor haviam crescido nas costas da menina. Ela se preparava para partir.

A menina partiu. O pássaro ficou.

Ele sentiu então um grande cansaço. Quando o amor parte, o cansaço vem. Olhou para a montanha encantada que se erguia longe, no horizonte. Ali crescia a árvore do fruto mágico vermelho que incendiava àqueles que o comiam. Era o fruto do amor. Amor incendeia.

Diziam que a Fênix o comia para incendiar-se, transformar-se em cinzas, para renascer cem anos depois.

Sentiu que a montanha encantada o chamava. Abriu então as suas asas e voou sem parar e sem se cansar, até que chegou. O fruto mágico, vermelho como fogo, pendia de um galho.

Tudo correu mansamente. O pássaro comeu o fruto vermelho do amor e seu corpo se incendiou, suas penas se desprenderam do corpo e voaram para longe, levadas pelo vento. Em cada uma delas, estava escrita uma das estórias que ele contara para a menina. E elas voaram por todo o mundo.

Lembra-se do filme Forest Gump? Ao final uma pequena pluma flutuava no ar, nela estava escrito a estória que você acabou de ler...


Rubem Alves, Cantos do pássaro encantado, Verus Editora, p. 108-110. 

15.6.14

Ebolições democráticas

Nos últimos dias, da parte de alguns, tem-se criticado a polarização PT x PSDB na disputa presidencial e, obviamente, em determinados Estados da Federação. A essa circunstância, há quem se apresente como terceira via, como Eduardo Campos e Marina Silva (PSB-REDE), há também quem alce críticas à falta de uma outra opção, como é o caso de São Paulo. A questão é que o problema está dado, como então resolver essa equação?

Ora, as constantes nessa equação, petistas e tucanos, somente o são por conta da inabilidade de setores oposicionistas (especialmente os da esquerda) em alinhavar forças e elaborar juntos um projeto de país criativo o bastante para dar sequência às conquistas dos últimos anos.

Essa inabilidade, por sua vez, sinaliza para a decadência do sistema político vigente. Ele foi interessante, porém necessita ser atualizado. Torna-se a cada dia mais estagnado. As jornadas de junho de 2013 apontam para um diagnóstico de insatisfação da população em relação a esse formato. Os representantes eleitos não são vistos como tais já faz um bom tempo.

Assim sendo, se por um lado assistimos à crise de credibilidade das instituições políticas do país, por outro lado notamos sinais do amadurecimento da consciência política de nosso povo. Ao que tudo indica, estamos mais exigentes. Já não se vive mais de resmungos apenas, as pessoas vão às ruas, fazem greves, protestam pacífica e até agressivamente. São sinais do tempo...

Tempo de mudar a marcha, de desenvolver-nos na estrada que conduz a uma democracia madura, forte e estável. Como um carro que, devido à sua potência, dá claros sinais de que precisa avançar as marchas e deixar o velocímetro girar. Esse é o Brasil de hoje.

Toda essa energia, entretanto, precisa ser catalisada. Embora os agoureiros de plantão digam o contrário, o momento é bom. É hora de buscar sobriedade política, não se deslumbrar com propostas aventureiras e pleitear pela democratização da democracia. Para tanto, não me parece que as eleições sejam mais importantes que toda a movimentação popular vista nos últimos dias.

Os protestos, as greves, as múltiplas bandeiras levantadas nas ruas requerendo transformações incomodam alguns, que chegam a dizer que lugar de protesto é na urna. Apesar desses “alguns”, uma boa parcela da população, mais consciente de que democracia é sinônimo de população atuante (em todo tempo, não só durante as eleições), compreende que não é hora de se aquietar. Ao contrário, notamos que o povo nas ruas movimenta as pesadas estruturas do poder.

Povo nas ruas, povo diante das urnas, povo em debate por meio de agrupamentos e movimentos sociais, pensando a cada dia como desenvolver a nossa jovem (e talvez ainda frágil) democracia. Em breve teremos o Plebiscito Popular por uma Constituinte Exclusiva, com a proposta de alteração de nosso sistema político. Valer-nos-emos de um mecanismo constitucional a fim de alçar ao cenário nacional um debate oportuno. Aliás, um debate necessário. Um debate oportunamente necessário!

Num ano de Copa do Mundo, protestos e eleições, o Brasil segue avante. Entre ufanismos infantis e mórbidos pessimismos, nossa locomotiva não para e dá sinais de que pode aumentar ainda mais sua velocidade.
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