9.5.06

Provações e seus significados

Lewis lamenta a morte de sua esposa, Joy.

A que ponto cheguei? Penso que ao mesmo ponto a que qualquer outro viúvo chegaria se parasse [de cavar] para reclinar-se sobre sua pá, respondendo à pergunta: "Obrigado. Chega de murmurar. Sinto falta dela de forma incrível. Mas dizem que todos temos que passar por coisas assim para sermos provados". Nós chegamos ao mesmo ponto; ele com sua pá e eu, que já não sou tão bom em cavar, com outros instrumentos. É claro que temos de aceitar a necessidade de "passar por isso para nos provar" como a forma certa. Deus certamente não está fazendo experiência com a minha fé ou com meu amor só para colocar a qualidade deles à prova. Ele já os conhecia muito bem antes disso. Eu é que não os conhecia. Nesse tipo de provação Deus nos faz ocupar o banco dos réus e assumir o papel de testemunhas e júri ao mesmo tempo. Ele sempre soube que o meu castelo era de areia. A única maneira de fazer com que eu me conscientizasse disso era pisoteando-o.[1]

Durante a maior parte de minha vida cristã entedia as lutas, dificuldades e toda forma de tribulação pelas quais os homens passam como sendo Deus provando o homem a fim de verificar sua fé, seu amor e sua disponibilidade em cumprir suas promessas a Ele, enfim, pensava (hoje vejo isto) que era a forma pela qual Deus satisfazia sua vontade de saber até onde podemos ir, em amor do seu Nome.

Os pregadores diziam que Deus havia pedido Isacc a Abraão com o intuito de experimentar a sua fé e observar se Abraão era mesmo capaz de amá-Lo acima de seu próprio filho. Porém, sempre que ouvia este tipo de mensagem alguns questionamentos vinham a minha mente: se Deus sabe todos as coisas, é Onisciente, e em conseqüência disto desfruta da presciência; por que ele precisa provar a nossa fé e o nosso amor por Ele? Ele já não conhecia os mais profundos sentimentos de Abraão? Não é Ele que nos conhece antes do nascimento?

Estas perguntas tornavam as mensagens um tanto quanto superficiais e, por mais que fossem animadoras, não eram tão convincentes. Com o passar do tempo, com o amadurecimento na fé (que ainda considero pequeno), com um melhor entendimento das escrituras, pude perceber que na realidade estes momentos de desconforto e sofrimento não surgem para que o Senhor "mate sua vontade" de saber se iremos ou não continuar a segui-Lo, mas sim para provar a nós mesmo quem somos e/ou o que devemos ser diante do que Ele espera de nós. C.S.Lewis diz no texto acima que Deus já conhecia tanto sua fé quanto o seu amor, porém, confessa que ele mesmo não os conhecia. E se ele passou a entender que não os conhecia é porque através de todos os fatos que lhe sobrevieram ele veio a conhecê-los.

No caso do Lewis, não sei exatamente o que Deus queria lhe mostrar com todo o ocorrido. O fato é que de uma forma ou de outra, dentro de situações específicas, levando em conta as peculiaridades, Deus prova o homem para benefício do próprio homem. A uns, como ocorreu com Abraão, elevando-os a um nível de fé e confiança inabalável, pois, imagine só a vida de Abraão depois da experiência de dispor-se a entregar seu próprio filho em sacrifício a Deus! Ele passara a enxergar Deus de outra maneira, sua fé foi ampliada e sua comunhão com o Senhor alcançou um nível de amizade, amizade entre Deus e um homem. Agora, observando o relato de C.S.Lewis, quem sabe, podemos nos arriscar e dizer que Deus queria revelar-lhe o quão fraco, necessitado e dependente Dele ele era.

Deixo este estímulo a uma reflexão sobre os nossos momentos de provações, que não são raros. "Provações" que na verdade devem ser entendidas como dificuldades e problemas que surgem para moldar nossas vidas, mas nunca como um teste divino para saber se iremos ou não ser aprovados. Afinal nosso Deus é o Deus do passado, presente e futuro, e nada lhe está oculto. Ele sabe tudo!

[1]Texto extraído do livro A Grief Observed de C.S.Lewis, escrito após a morte de Joy Gresham, sua esposa.

Humberto Ramos O. Júnior

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