13.10.06

Projeto Misericórdia - apenas o começo de um sonho...



“Amamos os homens não porque gostamos deles, nem porque os seus modos nos atraem, nem mesmo porque eles possuem algum tipo de fagulha divina. Amamos todos os homens porque Deus os ama”


Martin Luther King Jr


Já faz algum tempo que estou para postar um texto sobre algo muito especial que tem ocorrido em Pouso Alegre. A rotina é que tem me impedido de escrever. Mas eis me aqui, na frente do computador. Então, vamos lá.

Toda semana, geralmente, às sextas-feiras, tenho saído com uma galera de jovens da 1º Igreja Presbiteriana de Pouso Alegre (igreja que estou freqüentando agora) para um trabalho muito especial voltado à assistência de moradores de rua. O trabalho, denominado de Projeto Misericórdia, é apenas o início de um grande sonho que está no coração de alguns jovens e líderes da Igreja. Inicialmente, ele tem consistido na entrega de alimento aos moradores de rua, com a finalidade de criar aproximação para depois procurar ajudá-los de alguma forma. Logicamente, a palavra de Deus tem sido pregada a estes pobres homens.

O trabalho ocorre sempre a noite, por motivos óbvios: primeiro, porque durante o dia todos os voluntários estão trabalhando ou estudando. Segundo, porque durante o dia os mendigos estão dispersos pela cidade a procura de comida e a pedir esmolas. Na maioria das vezes voltamos para nossas casas de madruga. Entretanto, isto não nos tem sido motivo de desânimo, mas de alegria. Quanto mais tempo gastamos na rua, mais oportunidade temos para ouvir e falar a estas pessoas.

As experiências que Deus nos tem proporcionado são maravilhosas. Além de podermos materializar a mensagem do Evangelho com nossas ações, temos aprendido muito. Nos deparamos com pessoas as quais, muitas delas, tiveram um lar, emprego e família como nós temos, mas que, por algum motivo, foram acometidas de forte depressão ou outro tipo de choque que as derrubaram. Estes homens e mulheres, jovens e adultos, estão vagando diariamente pelas ruas de nossas cidades. Sem rumo, sem esperança, sem dignidade, e, muitas vezes, sem quem os trate como seres humanos.

Participando de ministérios como este é que começamos a compreender qual a diferença do Evangelho pregado e vivido por Jesus e o "evangelho" pregado e vivido por nós. O Jesus que a Bíblia mostra é um Deus-homem que toca em quem ninguém mais quer tocar, fala com quem ninguém mais quer falar, e respeita quem nem mesmo a sí próprio respeita.

Em determinado momento, Jesus fala aos seus discípulos sobre dar frutos que permaneçam. Frutos eternos. Que frutos temos produzido em favor do Reino? Deveríamos nos perguntar isso todos os dias. Sim, todos os dias, pois quem sabe, constrangidos por tal pergunta, não passaríamos a orar a Deus para que nos faça mover. Mover em direção à sua vontade, em direção ao próximo, em direção à nos mesmos. Porque quando nos movemos em direção à vontade de Deus nos movemos em direção ao nosso próximo, e quando estamos servindo ao próximo estamos servindo à nós mesmos.

Lembro-me de que na minha adolescência eu imaginava o dia do Juízo. Jesus em um trono branco e glorioso, cheio de poder a questionar a humanidade sobre seus feitos. Um Jesus tão teológico e filosófico que todos temeriam em responder aos seus questionamentos. Como seremos inquiridos, quais as respostas certas, quanto tempo durará? Penso que todos nós já pensamos nisto, ou talvez pensemos ainda. Só que, para nossa surpresa, o Evangelho nos revela outro tipo de julgamento no qual o Cristo não estará tão preocupado com doutrinas teológicas que defendemos aqui na terra nem com nossos belos sermões.

O Jesus que a Bíblia nos mostra é o Senhor Justo que dirá:

Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me. então os justos lhe responderão, dizendo: senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? e quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes.

Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;sendo estrangeiro, não me recolhestes; estando nu, não me vestistes; e enfermo, e na prisão, não me visitastes. Então eles também lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou estrangeiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos? Então lhes responderá, dizendo: Em verdade vos digo que, quando a um destes pequeninos o não fizestes, não o fizestes a mim. (Mateus 25.34-45)

Daí alguém pode me acusar de estar rompendo com a tradição reformada que prega a salvação pela fé e graça. Não, não estou rompendo com a tradição reformada, muito menos com o evangelho. Posso fundamentar minhas palavras pelo que Paulo disse aos efésios:

Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie; porque somos feitura sua, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus preparou para que andássemos nelas. (Efésios 2,8-10)

Como se pode ver, nada mais comum do que o crente possuir boas obras. Estas são evidências de seu estado, são o sinal de sua salvação. Outro dia ouvi um pregador dizer que o “religioso possui boas obras para se sentir salvo, já o crente verdadeiro obedece porque se sente foi salvo”.

Enfim, espero em Deus que minhas obras venham um dia a sobrepujar minhas palavras. Espero em Deus que o fervor de viver uma vida semelhante a Jesus seja real e incomode a cada cristão deste país, para que possamos ver uma sociedade transformada. Afinal, cristãos nominais com belos discursos e sem prática são como entes divorciados de si mesmos, uma vez que suas palavras não se parecem em nada com suas práticas.

Deus seja conosco!

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