6.11.06

A questão da Onipotência

Se Deus é Todo-Poderoso e, por conseguinte, pode todas as coisas, nada lhe é impossível; ele pode criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não possa carregar?

Quem de nós, cristãos, nunca foi defrontado com este questionamento ou algo parecido? Creio que a maioria de nós já foi posto na parede por meio de tais questões. Eu me recordo muito bem quando, no segundo ano do ensino médio, o professor de Sociologia virou-se para a sala e fez esta aterradora pergunta. Na época, com meus 16 anos de idade, me esforcei num contorcionismo intelectual para tentar dar uma resposta plausível. No entanto, minha falta de conhecimento teológico, aceitável pela minha idade, minha dificuldade de me expressar em público e de ser coerente em minhas palavras não me permitiram apresentar uma resposta satisfatória.

A resposta que consegui formular, com muita dificuldade foi: “Deus é o Deus do Impossível, e Ele é tão Poderoso que pode criar uma Pedra tão pesada que, Ele mesmo, ao mesmo tempo em que pode carregá-la não o pode fazê-lo”. Sem dúvida alguma a minha resposta não serviu de outra coisa a não ser confundir, mais ainda, a mente daqueles estudantes que ali se encontravam. E não somente a dos alunos que ali se encontrava, mas a minha própria mente tornou-se confusa quanto a Onipotência Divina. Anos mais tarde, me deparei com um escritor que, com uma profunda simplicidade, respondeu-me esta questão e o fez sem sombra de dúvidas. Sei que ninguém se espantará com o fato de eu mencionar que este escritor é o célebre filósofo e teólogo cristão C.S.Lewis. Sim, ele exterminou toda a confusão que pairava sobre minha mente e possibilitou que eu pudesse refletir com clareza sobre tais assuntos. A resposta do Lewis, como todas as suas respostas às questões de grande polêmica, foi muito clara e simples: “Atribuímos a Deus milagres e não estupidez” [O Problema do sofrimento. São Paulo: Editora Vida, 2006. p.13]. Chega a ser cômica a maneira com a qual Lewis trata determinadas questões que, para a maioria de nós cristãos, são extremamente pavorosas.

Sim, está claro. Como eu ainda não havia pensado nisto? É assim que ficamos quando lemos as obras apologéticas de gente como C.S.Lewis. Só que ele diz muito mais: “A Deus é possível todas as coisas intrinsecamente possíveis” [O Problema do sofrimento. São Paulo: Editora Vida, 2006. p.13]. Ou seja, o que ele está afirmando é que para Deus não há impossíveis, simplesmente, porque todas as coisas lhe são possíveis, e todas as coisas lhe são possíveis justamente porque não existe o que lhe seja impossível. Como pode ser isto? Como entender melhor esta questão?

O que, segundo eu imagino, mais incomoda os cristãos é o fato de que pensamos Deus realizando algo que seja impossível. Algo que até para ele mesmo seja difícil. Mas isto obviamente não existe e é exatamente isto que o próprio Jesus quis dizer quando proclamou “para Deus não há impossíveis”. Ele estava proclamando que tudo que para o homem é impossível para Deus não é. Logo, sendo ele o criador de todo o universo não poderia haver algum impossível para ele neste universo. Por tanto, os impossíveis que Deus realiza não são na realidade impossibilidades para ele mesmo, mas sim para nós seres humanos.

Ainda dentro desta questão alguém poderia argumentar: “Deus não pode mentir, não pode pecar. Se Deus não pode mentir e pecar ele não pode todas as coisas. A esta afirmativa o insigne ministro anglicano e expositor bíblico John Stott tem outra afirmação: “Todas as coisas que Deus não pode realizar dizem respeito à Regra Geral de que ele não pode negar-se a si mesmo ou não pode contradizer-se”[Por que sou cristão, Viçosa:Ultimato, 2004. p.99]. Ou seja, realizar tais coisas seria o mesmo que deixar de ser quem Ele é; seria o mesmo que abandonar sua natureza. Por tanto, não há nenhuma contradição em dizer que o Deus Todo-Poderoso da bíblia não pode mentir, não pode pecar nem mesmo teria interesse em construir uma pedra que ele mesmo não pudesse carregar. O que seria algo estúpido.

Refletindo seriamente sobre estas questões, podemos perceber que o assunto da Onipotência Divina é tratado pelas pessoas leigas com um terrível simplismo que não chega a lugar nenhum senão a uma confusão mental. Finalizando, a questão da Onipotência Divina deve ser observada do ponto de vista de que não há no universo todo força alguma que possa se opor a Deus. Sendo assim impossível alguém ou alguma força poder colocar-se à sua frente de maneira que possa impedi-lo de realizar seus propósitos.

Espero que a minha dissertação seja útil para dirimir possíveis dúvidas existentes.

2 comentários:

Beta - BH disse...

Interessante como são colocadas as questões de "contradição" da onipotência divina. Nunca tinha desenvolvido nenhuma idéia a respeito. Um destaque a C.S.Lewis que é meu autor favorito!!
Um abraço.

Humberto Ramos disse...

Oi Beta,

O Lewis realmente é demais...pena que não tenho tido tanto tempo e paciência para ler mais coisas dele. As provinhas de final de ano estão "pegando". Mas este momento vai passar.

Sobre o texto. Acho que este foi um dos textos mais confusos que eu já escrevi rsrsr. Mas resolvi me arriscar e não me calar sobre o assunto. Espero que minhas idéias se tornem mais coerentes com o passar do tempo.

Abraços fraternos

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