4.2.07

Meu senso de justiça x misericórdia de Deus

Neste ultimo fim de semana eu estava em um trailer de lanches juntamente com alguns amigos. Tínhamos acabado de sair do culto de uma igreja que fomos visitar. Após encontrarmos com outros irmãos, decidimos aproveitar a noite fresca e não chuvosa (o que tem sido bem raro) para comer um lanche e desfrutarmos da comunhão uns dos outros. Escolhemos o local e nos dirigimos a ele, nos acomodamos, fizemos os pedidos e nos satisfizemos com uma boa conversa. Tudo estava muito bem, até que de repente o clima de calmaria se foi; surgiu naquele local um grupo de jovens com um rapaz que aparentava estar descontrolado, ele estava furioso. A sua mãe tentava aplacar sua fúria. Pelo que percebi, ela estava ali para garantir que o seu filho não cometesse nenhuma loucura. A noite que estava tranqüila deixou de ser naquele mesmo instante.

Aquele rapaz havia arrumado algumas confusões e a fora vitima de uma vingança na qual, além de ter levado uma surra, haviam levado o seu celular. Ele, irado, foi atrás de um jovem, na lanchonete em que nos encontrávamos, para tirar informações e resgatar seu tão precioso celular (ou talvez o que ele poderia chamar de honra perdida). O rapaz que ele passou, com toda violência verbal, a inquirir, notadamente não era alguém dado à briga, ou pelo menos não estava a fim de reagir à agressão que, ao longo da conversa, se tornou física.

Foi um momento constrangedor. Eu me recordo que estava a ouvir uma jovem amiga sobre os seus planos de se envolver na obra missionária depois de se formar no curso de medicina. De súbito, aquele rapaz exageradamente descontrolado tomara para si a atenção de todos ali. Eu confesso que fui tomado por um turbilhão de sentimentos naquela hora. Conheço-me muito bem, a ponto de reconhecer meus defeitos. Sou explosivo e reacionário. Imaginei mil coisas. “Se ele agredir alguém nesta mesa, se ele virar-se para indagar-nos por que estamos olhando seu showzinho. O que fazer?”. Desejei ter poder para punir aquele rapaz. Porém, ao mesmo tempo compadeci-me de sua mãe e de seu pequeno irmãozinho que ficara no carro, chorando por ver de longe tal situação.

Ao chegar em casa, não me contive. Na primeira oportunidade comecei a contar à minha família o que ocorrera e como eu reagira dentro. O meu desejo era de fazer justiça. Meu discurso era uma mistura esquisita de ira e graça (será possível está mistura?). Mencionei à minha mãe que, caso não fosse um cristão e não compreendesse a verdade do evangelho, eu desejaria dar uma lição naquele rapaz por infligir aquele adolescente tal humilhação.

Interessante. No outro dia parei para analisar a questão e me surpreendi. Pude notar, agora com calma, que o velho homem estava dando sinais de vida. O meu lado caído se mostrara a mim e aos meus parentes quando comecei a soltar em palavras todo o meu desejo de justiça (vingança, esta é a palavra). Desde os dois anos de idade tenho freqüentado à igreja, estou envolvido com trabalhos evangelísticos e sempre procuro agir de maneira a servir a Deus. Reconheço-me como um crente, um convertido ao Evangelho de Cristo. Mas o que era aquilo e de onde vieram aqueles desejos tão repulsivos?

Um exímio pregador do evangelho, tratando sobre a Graça de Deus, mencionou que nossa humanidade em determinados momentos possui características semelhantes ao modo Default* dos nossos computadores, ou seja, nós não desejamos agir ou nos sentir de determinada maneira, porém, quando nos damos por conta, aquilo já ocorreu. Daí nós temos que nos reprogramar para agir novamente em acordo com a Graça de Deus. É basicamente aquilo que Paulo se refere em RM 7:15 : “Porque o que faço não o aprovo; pois o que quero isso não faço, mas o que aborreço isso faço. ”.

Ao refletir sobre tudo isto pude ver o quanto somos falhos, fracos e desejosos por vingança. Eu deveria ter amado aquelas vidas, me compadecido pela situação e pedido a Deus para que tudo se acertasse e eles pudessem provar da salvação em Cristo, mas não, não foi assim. O meu desejo mais profundo era de agredir aquele rapaz da mesma maneira que ele agredia seu inquirido. Eu queria era uma oportunidade, uma justificativa para dar uma boa lição nele, embora eu mesmo não percebesse isto naquele momento. A minha aparência serena e tranqüila era apenas aparência. No âmago do meu ser eu estava agitado e cheio de ira.

Agradeço a Deus por ter me levado, pela sua palavra, a esta reflexão. Sou grato por reconhecer isto, e por entender que, se não fora o Evangelho de Cristo, eu estaria como aquele rapaz: perdido em minhas próprias paixões, lutando comigo mesmo, tentando preencher, de alguma forma, o vazio do tamanho de Deus que há em todo o ser humano. Agora, posso olhar para aquela cena com graça e misericórdia.

O evangelho nos convida a isto todos os dias. Convida-nos a olharmos o nosso semelhante confuso e perdido em seus dilemas como se fôssemos nós mesmos. Não diz que devemos isentar as pessoas de suas responsabilidades e de sua culpa, no entanto, leva-nos a enxergar com graça, com amor e certeza de que qualquer pessoa, independente de quem ela é e quais sejam suas atitudes, pode provar da experiência do perdão e restauração por meio de Jesus.

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* Valor (de uma variável, ou de um campo de entrada de dados) assumido automaticamente por programa (9), quando o usuário não o determina explicitamente.

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