10.2.07

Nós, evangélicos, e os nossos (pré) conceitos teológicos

Não me recordo onde exatamente, mas li em algum lugar alguém dizer que teologia sempre fala muito mais de homens do que de Deus. Eu concordo, e digo por quê. Entendemos que a bíblia é a palavra de Deus, ou seja, o próprio Deus pregando à humanidade. Para tanto, pode-se concluir que ela fala de Deus e que Deus fala por meio dela. Ela é a Revelação de Deus aos homens. Já a teologia é tentativa racional de interpretar, sistematizar e organizar o conteúdo bíblico de forma a expô-lo por meio do ensino e pregação. Porém o homem é falho e limitado em seu discernimento, e isso reflete no resultado de qualquer trabalho seu, inclusive nos de cunho teológico.

Por isso, discutir teologia partindo-se do pressuposto de ser privilegiado com a posse da verdade absoluta é um grande risco. É claro, alguns pontos são indiscutíveis e inamovíveis; não podemos abrir mão deles, e no geral, em relação a eles, todos os evangélicos concordam entre si. Podem ser chamados de pontos fundamentais, eles estão explícitos nas escrituras. Por exemplo, todos cristãos de linha protestante-evangélica crêem na salvação por meio da graça em Cristo Jesus, está claro na bíblia que somente por meio de Cristo alcançamos a salvação e que ele é o único mediador entre Deus e os homens. Existem muitos outros pontos que poderiam ser mencionados aqui e que são extremamente claros (mas esta não é a intensão primordial desta reflexão).

Porém nem todos os pontos da bíblia estão claramente explicados. Podemos mencionar duas das principais questões que causam dissensão entre pentecostais e tradicionais históricos: contemporaneidade dos dons e batismo com o Espírito Santo. Esta ultima, até mesmo entre os tradicionais históricos há divergência: uns acreditam que o batismo com o Espírito Santo é uma benção entregue no momento da conversão, já outros crêem que este batismo é uma experiência subseqüente à conversão e deve ser buscada pelo crente, sendo algo experienciável, não apenas inteligível; diferindo-se dos pentecostais clássicos apenas no sentido de que não restringem a evidência do batismo com o Espírito Santo à manifestação de línguas ou qualquer outro dom espiritual.

Outro ponto de grande discussão é a questão da Soberania de Deus x Liberdade e Responsabilidade Humana. Daí existe duas correntes principais: de um lado, os calvinistas; do outro, os arminianos. Os primeiros, dando ênfase na Soberania e Todo-Poder de Deus; os segundos, supervalorizando a liberdade humana.

Embora eu tenha meus próprios posicionamentos em relação a cada um destes pontos e outros mais que também são polêmicos, penso que não seria nada mal se tivéssemos mais respeito por pessoas que possuem posicionamentos contrários. Afinal, somos um corpo, ou melhor, o corpo de Cristo, e, como corpo de Cristo, deveríamos nos unir sempre para lutar pelo mesmo ideal: que neste caso será sempre a propagação do reino de Deus na terra.

Cresci e me criei em uma igreja pentecostal de ensinos pentecostais clássicos. Durante quase todos os anos de sua existência, esta igreja manteve esta linha teológica, sendo que nos últimos anos (antes de minha saída) começou a absorver um pouco do que comumente é chamado de neopentecostalismo. Já havia um bom tempo que eu discordava de alguns posicionamentos tomados pela denominação, que acabavam por influenciar a vida da igreja local. Por isso, e por uma questão de visão ministerial divergente, decidi desvencilhar-me dela. Após analisar algumas igrejas, decidi-me por uma igreja tradicional de teologia reformada. Embora eu mesmo não me veja como reformado ou tradicional (nem mesmo pentecostal), tenho me identificado com o sistema de governo e funcionamento da comunidade da qual faço parte agora.

Onde quero chegar com tudo isso? Não muito longe, acredite. Apenas quero expressar meu sentimento de tristeza por alguns fatos que ocorrem nos arraiais evangélicos. Por exemplo, muitos dos que me conhecem e agora sabem que estou em uma igreja tradicional histórica, ainda que evitem transparecer, acabam revelando certo preconceito e sentimento de estranheza pela minha decisão.

Tenho ouvido nestes últimos dias coisas do tipo: “você acredita na predestinação? Você não acha que as línguas são a evidência do batismo com o Espírito Santo?” Eles não estão a perguntar no interesse de analisar um posicionamento diferente do seus, afim de aprenderem com as diferenças ou até mesmo solidificar seus próprios posicionamentos, a maioria indaga com mero interesse de provar sua verdade, que já se tornou absoluta, ou apenas pelo amor ao litígio. Para matar a curiosidade de alguns, posso até dizer que acredito na Soberania Divina e também na Liberdade e Responsabilidade Humana; outra coisa, quanto ao batismo com o Espírito Santo, tenho acreditado que os crentes convertidos ao Senhor Jesus recebem, sem exceção, o Dom do Espírito.

Em minha opinião, os ensinos bíblicos nas igrejas deveriam ser o quanto mais interconfessionais possível. Sim, interconfessionais. Sei que isto não agrada a alguns, mas, desta maneira, as pessoas poderiam orar a Deus e escolher (pessoalmente) a linha teológica que acharem que mais perto se aproxima daquilo que o texto sagrado revela. O grande problema das igrejas é que, ao ministrar os estudos, cada professor imprime na mente de seus alunos sua visão teológica. Claro, isto até certo ponto é comum, mas é justo para com os estudantes mostrar que existem outros posicionamentos, e que, mesmo sendo divergentes dos ensinados em sua denominação, não são nenhuma heresia maldita.

Outro dia alguém me disse que a igreja da qual faço parte hoje não acredita no Espírito Santo. Imagine só, uma igreja protestante evangélica, que possui como símbolo a sarça ardente com uma pomba no meio dela: o que será que isto significa? Está claro que nela é ensinado, pregado e adorado o Espírito Santo como terceira pessoa da Trindade. Mas isto não foi a maior besteira que já ouvi; quando ainda freqüentava a denominação pentecostal que mencionei, alguém de uma igreja tradicional veio me perguntar se era verdade que os membros que não orassem em línguas eram excluídos da igreja. Pura balela!

Isso tudo parece brincadeira, mas não é! Pelo contrário, é sério. Estas histórias são resultados do ensino de lideres preconceituosos, pessoas que preferem viver como cavalos tapados em charretes doutrinárias narcisistas a olhar para a fé de seu irmão com respeito e amor. Logicamente, sempre haverá divergências em relação a diversos pontos, porém devemos nos apoiar naquela velha máxima: “Unidade nas coisas essenciais, liberdade nas não essenciais, mas amor em todas as coisas”.

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