30.5.07

Crente de meia tigela

Cresci e vivi durante a maior parte de minha vida em um bairro da periferia na cidade em que sou domiciliado. Recordo-me perfeitamente que era muito comum se utilizar de expressões como “crente da bunda quente” ou “crente de meia tigela” para aqueles evangélicos que não viviam em acordo com a fé que professavam. Era comum ouvir: “Esse não é crente coisa nenhuma, é na verdade um crente de meia tigela”.

Ainda hoje, vivendo em uma outra localização na minha cidade, às vezes ouço alguém repetir estas expressões, que, a título de exemplificação, seria o equivalente a dizer que alguém é um “santo do pau oco”. Andei recordando-me destas expressões devido algumas situações ocorridas nestes últimos dias.

Estive a visitar um centro de reabilitação de presos aqui em Pouso Alegre, a APAC – Associação de Proteção e Assistência ao Condenado (1). Instituição idealizada por um piedoso católico que acreditava na possibilidade de regeneração do ser humano. Pelo que pude ouvir lá, ao longo da existência do projeto ele foi se desenvolvendo de modo a adquirir uma visão integral do ser humano, concedendo a este não apenas uma educação de cunho religioso (cristã), mas também oferecendo condições para que este exerça papel de suma importância em sua própria recuperação através do trabalho, disciplina, comunhão com outros detentos e prestação de serviços à sociedade.

Ao sair do local estava extremamente empolgado com a visão do projeto, principalmente por notar que possui sólida base cristã. Como a visita fora contada como atividade complementar para as aulas de Estágio Penal, o professor pediu-me, em sala de aula, que comentasse em poucas palavras o que tínhamos visto e ouvido na APAC.

Após a minha explanação toda a sala saiu para o intervalo e alguns amigos continuaram a dialogar comigo a respeito da possibilidade de recuperação do ser humano. Infelizmente, a maioria dos que comigo tiveram esta conversa não se mostraram nenhum pouco empolgados com o projeto e muito menos tinham na regeneração dos detentos que se rendem ao projeto de reabilitação. Alguns argumentavam que o principal empecilho era a sociedade e seus preconceitos; outros afirmavam que os que optam por passar pelo projeto são apenas aqueles que, na prisão, não conseguiram alcançar o “seu lugar” e buscam refúgio; outros ainda nem mesmo deram um argumento que fosse. Contudo, todos foram bem genéricos e (os que argumentaram) fundamentalmente fracos em seus argumentos. Para minha loucura, um destes amigos é um crente.

Aí entra a minha recordação das expressões que mencionei no início da conversa. No entanto, sempre que as ouvi, elas eram cunhadas a alguém por este ter cometido algum tipo de desvio comportamental, que na maioria das vezes era sexual. Desta vez, penso que a expressão “crente de meia tigela” ou, uma mais atualizada, “crente meia boca” poderia ser utilizada para a maioria de nós, evangélicos, protestantes ou seja lá o que for – terminações é que não falta para nós, e cada um escolhe aquela que melhor apraz, segundo seus próprios preconceitos e devaneios.

Quando digo que a esdrúxula expressão poderia ser utilizada para taxar a maioria de nós, não estou me referindo ao fato de que estamos tendo desvios de comportamento, quais sejam eles, mas que na verdade nossa omissão e inércia fazem de nós coisa bem diferente daquilo que dizemos ser. Quando indaguei aos meus amigos sobre uma alternativa que não o método utilizado pela APAC para a reabilitação dos detentos nenhum deles sugeriu coisa melhor, isto é, não houve sugestão. Quando um dos crentes ali mencionou que a sociedade, eivada de preconceitos, é que impossibilita a recuperação total destes homens, eu lhe perguntei o que poderia ser feito; contudo, não obtive, de início, respostas alguma. Só quando falei da possibilidade de lutarmos para mudar o quadro é que este veio a concordar comigo, não enfaticamente, diga-se de passagem.

É incrível, mas, pelas minhas conversas aqui e ali, estou começando a me convencer de que os crentes já não acreditam mais na regeneração humana. Ora, se assim for, já não acreditam mais no Evangelho – pelo menos não integralmente. A história da humanidade, a meu ver, é uma história de regeneração, de restauração. Paulo diz que em Deus existimos, vivemos e nos movemos (2), certo? Sim. Agora podemos refletir sobre este fato da seguinte maneira: se Deus é Santo e Justo, como podemos nós, pecadores, existir em Deus? Entenda bem, o mundo caído e destruído pelo mal existe em Deus. Na verdade deveríamos ter sido lançados para a não existência no momento em que pecamos; só que isso não ocorreu. Ai vem a reposta, isso não ocorreu porque a Graça produzida pela morte do cordeiro antes da fundação do mundo produz uma espécie de remédio divino, que não permite que sejamos lançados para fora da existência, ou seja, aniquilados.

Sendo assim, todos nós somos resultado da Graça de Deus. Todos nós somos sinal da misericórdia divina. Todos nós somos sinal de que Deus optou por acreditar na regeneração dos assassinos, estupradores, adúlteros, prostitutos, mentirosos e toda forma de pecadores que nós, seres humanos, decidimos nos tornar.

A partir do momento em que não acreditarmos mais na restauração do próximo estaremos deixando de acreditar na nossa própria restauração – estávamos destinados à condenação eterna e fomos redimidos, simplesmente pela Graça. E mais, ao dizer que alguém não tem solução desprezamos a Graça de Deus em nossas vidas, pois isso seria o mesmo que dizer “eu tinha condições de ser salvo, mas ele não”, ou seja, a ação do Graça de Deus não foi a causa única da nossa salvação.

Sejamos crentes na profissão da fé, na pratica da fé e ao crer na fé que professamos crer.

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1- O nome originalmente dado ao projeto era "Amando ao Próximo, Amarás a Cristo"

2 - Atos 17. 28

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