14.7.07

Ele me ensinou a gostar de português

“Estou velho, já estudei tudo o que seria possível estudar na língua portuguesa, já lecionei em faculdades, e ainda estou aqui dando aulas! Sabem por quê? Porque acredito que tenho algo a passar... sinto que posso colaborar de algumas formas com vocês, jovens!” Foram as palavras do Rosa, professor do cursinho pré-vestibular em que estive antes de ingressar no curso de Direito.

Eu nunca havia me sentido muito à vontade nas aulas escolares, menos ainda nas aulas de português. Elas sempre foram, para mim, uma tortura; a análises sintática, a pontuação, e as redações sempre foram motivo para eu desejar conversar ao invés de prestar atenção, colar à estudar, sair da sala sempre antes da aula acabar, ainda que em pensamento!

Com o Rosa foi diferente, ele era contagiante. Já idoso, mas com um comportamento vívido, palavras cômicas e, o mais marcante, um linguajar culto porém sem pedantismo, e notório grau de humor, cativava até mesmo os alunos interessados apenas nas exatas ou biológicas. Foi ouvindo este professor simples, ex-seminarista, piadista irreversível que comecei a tomar gosto pelo português.

Quando ele referiu as palavras que transcrevi acima, entendi o porquê do sucesso que tinha ao lecionar. Inda que velho, certamente mantinha em seu coração a compreensão de um chamado para servir ensinando. Uma vocação que, talvez, tenha transitado entre a vontade inicial de ser sacerdote ao desejo de lecionar, com jeito primoroso de um excelente educador.

Poucos professores marcaram tanto minha vida escolar e acadêmica quanto este. Na faculdade pude perceber que o status de professor de nível superior é um poderoso chamariz que suplanta a real vocação e o senso do ridículo, no caso de alguns professores. Nitidamente, pode-se notar que alguns indivíduos não possuem a menor vocação para a coisa. E quando digo vocação, refiro-me ao significado mais remoto e essencial que esta palavra pode ter.

Vocação vem do latim vox, refere-se à voz que chama. Então, vocação aqui deve ser entendida como um chamado que convoca uma pessoa! Este chamado é quase que irresistível!

Se um professor não possui tal chama queimando em seu interior, este, sem dúvida, não irá desempenhar o seu papel com excelência. Será deficitário, ou seja, ficará sempre em dívida com seus alunos, sempre faltará algo; o seu ensino poderá chegar a ser frio e “des-atraente”! De maneira que os alunos preferirão estar fora de sala a continuar em suplício dentro desta.

Passei a compreender o que o Rosa quis dizer naquela noite, quando li “Conversas com quem gosta de ensinar” do Rubem Alves. Neste livreto, Alves fala que o educador é um alguém apaixonado, e como um apaixonado não se cansa da paixão, ela se mantém acesa em seu interior não importando o tempo; assim, o educador também não se cansa de ensinar, não sente necessidade de se aposentar, ainda que oficialmente aposentado, como o Rosa o era.

Como o professor mesmo disse, ela não precisava mais estar ali lecionando. Ele poderia estar curtindo a velhice numa boa, esperando o tempo passar; mas não, ele tinha um fogo queimando em seu interior, um fogo que o impulsionava à sala, para que ali apresentasse mais uma vez o seu bom, velho e não cansativo “show-aula”.

Assim, fico a lembrar com saudade deste bom homem que me ensinou a gostar de português. Que ele esteja bem, e que outros como ele possam surgir no caminho dos estudantes desse nosso Brasilzão sofrido, onde falar de educação ainda é coisa quase que restrita às épocas de campanhas eleitorais!

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