7.7.07

Quase cinco anos depois...

Lembro-me perfeitamente do primeiro ano na faculdade de Direito. Em especial, recordo-me de algo que ocorreu logo nos primeiros dias de aula. Eu estava a conversar com um grupo de alunos que certamente eram ou quartanistas ou quintanistas; e estes, devido a determinado assunto que estávamos a discutir, resolveram dar-me alguns “bons conselhos” acerca do curso de direito e da vida de um profissional da área. As instruções consistiam mais ou menos no seguinte:

"Meu caro, saiba que no primeiro ano você entra com muito vigor e idéias, acredita na justiça e na possibilidade de agir honestamente na vida profissional, tem a idéia de que vai conseguir fazer algo para mudar o quadro da realidade em que vivemos; contudo, quando estiver no segundo ano, você irá perdendo isso... e no terceiro um pouco mais... e daí, quando estiver no quarto ou quinto ano, estará como todo mundo, inclusive com as mesmas atitudes...".

Posto isto, entendo hoje que, aos olhos destes meus colegas de curso, eu era um iludido, um visionário e ingênuo que não sabia o que me esperava e que, com certeza, se conformaria com as mazelas existentes em nossa sociedade; não só isso, mas também me deixaria capitular pelas formas corruptas de agir, muito comuns no meio jurídico (na sociedade brasileira em geral).

A despeito de todas as instruções, ou melhor, vaticinações destes camaradas, estou agora no quinto ano do curso de Direito e posso dizer que não me deixei levar pelas possibilidades de encaminhar-me por veredas da corrupção e da mentira, ainda que parte da ingenuidade existente antes tenha se perdido.Ora, claro que isso ocorreria. Depois de cinco anos de faculdade, principalmente no curso de direito, nossos olhos não são mais os mesmos em muitos dos aspectos. Contudo, ainda existe em minha alma aquele vigor que me diz que podemos lutar pelo bom, pelo justo, pela eqüidade e paz. Ainda há em mim um sentimento que me diz “apesar de tudo, existe gente honesta e você pode ser uma delas, apesar dos seus defeitos e mazelas pessoais”.

Alegro-me por saber que os “bons conselheiros” estavam errados (talvez falassem deles mesmos). Os que estão próximos a mim sabem que não tenho interesse em seguir a carreira jurídica, muito menos de advogar (quem sabe um dia...); mas, ainda assim, acredito que todos estes anos de faculdade, às vezes aos trancos e barrancos, ser-me-ão úteis. Espero ainda que não sejam úteis somente a mim. Que sejam úteis também àqueles menos favorecidos que infelizmente não puderam freqüentar um curso de nível superior e não têm pleno conhecimento dos seus direitos e, por isso, vivem como cego em meio a um tiroteio.

É isso que tenho aprendido desde muito novo com minha formação cristã, e ainda de linha protestante, que não devemos nos conformar com as corrupções, com os grandes problemas da vida, por maior que sejam...

Certa vez, Martin Luther King disse: “Se soubesse que o mundo se desintegraria amanhã, ainda assim plantaria a minha macieira. O que me assusta não é a violência de poucos, mas a omissão de muitos... O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.

Está aí alguém que não teve apenas um bom discurso, mas prática eficaz. Se estes anos todos não se reverterem ao bem do próximo, de que valerá o conhecimento adquirido? Ainda que eu conseguisse com ele toda sorte de bens e sucesso material ímpar; que valor teria? Ora, somos todos poeira rala, orvalho que desvanece logo que o sol brilha, vapor que logo desaparece... Somos nada, sozinhos! Então, quero dar vazão aos sentimentos do meu coração que me guiam em direção ao meu próximo, e que isto me seja uma motivação existencial, isto é, um sentido para viver, existir, ser!...

Afinal, os verdadeiros e bons frutos são aqueles que não perecem, e os frutos que não perecem são resultado do amor que existe no coração de cada um de nós. Sim, do amor; e ele é como uma árvore valiosíssima, que devemos regar com toda dedicação a fim de que seus frutos venham e permaneçam!

Um comentário:

Luciana *ü* disse...

Oi Amigo!

Amei esse post!
Acho que suas palavras resumem o meu pensamento.

Talvez não tenhamos mais a ingênuidade do primeiro ano, mas penso que temos ainda mais certeza do que queremos, não somos mais ludibriados em discursos retóricos e hipócritas.

Confesso que muitas vezes (muitas mesmo) me desalento em pensar que a senda da profissão pode me corromper, mas "acho eu" que a corrupção já esta intrínseca àquele que se priva em fazer o bem e ajudar o próximo.

Por essas e outras, penso que estamos plantando nossas sementes e passando a nossa mensagem e que em breve colheremos.

Não posso prever o futuro e nem o faria se pudesse, mas tenho absoluta convicção que estamos no caminho certo.

Abraços!

Luciana

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