9.8.07

A música da Zélia e a corrente idéia de pecado


Carne e osso
Zélia Duncan

A alegria do pecado às vezes toma conta de mim
E é tão bom não ser divina
Me cobrir de humanidade me fascina
E me aproxima do céu
E eu gosto de estar na terra cada vez mais
Minha boca se abre e espera
O direito ainda que profano
Do mundo ser sempre mais humano
Perfeição demais me agita os instintos
Quem se diz muito perfeito
Na certa encontrou um jeito, insosso
Pra não ser de carne e osso
Pra não ser carne e osso

Não pude ouvir esta música, que toca em uma das novelas da Globo, sem deixar que meus dedos coçassem com o desejo de escrever algo aqui. Sossegue-se, tentarei, ao máximo, não enveredar-me pelos caminhos dos religiosos de plantão e muito menos entregar-me aos clichês “evangélicos”. Quero apenas conversar sobre o assunto em questão: o pecado!

Antes de falar sobre a letra da música, é interessante transcrever aqui minha idéia de pecado. Ora, muito se fala de pecado e das suas conseqüências. Aliás, fala-se dele de forma que começamos a questionar se Deus realmente é bondoso e justo para conosco.

No filme Advogado do Diabo, a título de exemplo, há uma cena na qual o diabo, estrelado pelo Al Pacino, diz mais ou menos isto: “Deus cria coisas belas, proveitosas e desejosas, e diz: ‘Olhe, mas não toque; deseje, mas não tome para você; admire, mas não prove’”.

Confesso que tive dificuldade em contrapor tais argumentações na época em que assisti a tal filme. Contudo, hoje, mais maduro e mais experimentado na fé (talvez não o bastante), vejo com tranqüilidade todas estas questões.

Por isso, passo a tratar agora do meu entendimento do que é o pecado.

Pois bem, vamos lá.

- O Pecado

Cresci aprendendo que pecado é errar o alvo. Ou seja, temos um alvo, uma meta a ser atingida. Quando não atingimos a meta, pecamos! Ok. Parece-me razoável. No entanto, esta explicação ainda permite que os questionamentos do diabo do filme citado permaneçam em pé. Por quê? Simples. Pelo único fato de que as leis divinas nos parecem ser ensimesmadas. Ou seja, Deus, pelo seu bel-prazer e vontade soberana, decidiu impor a nós, seres humanos, algumas regras, mandamentos, enfim, normas de comportamento a fim de que as cumpramos, nada além disso.

Desta maneira, as leis divinas assemelham-se as de um pai que, pelo simples desejo de mandar, impõem algo aos seus filhos. Ora, não há sentido nisto tudo. Para que cumprir? Para que obedecer a um pai tão autoritário e mandão assim, se suas instruções não fazem o menor sentido, se são apenas sinal de seu gosto pela autoridade?

Acontece que a coisa não é bem assim. A realidade é que o pecado é tratado, na maioria das vezes, com moralismo e religiosidade farisaica. Líderes limitados em seus entendimentos, e outros até mesmo inescrupulosos, criam uma série de regras que nada tem a ver com a vontade de Deus. Em nome de Deus fazem-se muitas bobagens por aí, e mesmo crimes são cometidos em Seu nome.

Certa vez, Jesus falou aos fariseus: “As cargas que vocês criam são tão pesadas que nem mesmo vocês conseguem carregá-las”[1] . Veja bem, Jesus falava com um dos grupos de religiosos mais zelosos da sua época. Muitos destes foram rabinos renomados que imprimiram na cultura judaica seu pensamento e práticas. Não obstante, era mais religiosos do que vivenciadores da verdade de Deus. Eis aí o grande problema!

A religião é uma das maiores causas de neuroses em indivíduos sinceros e desavisados. Os tabus criados por determinados “líderes” possuem um potencial destrutivo imensurável. Perceba, não disse que o Evangelho é tabu, ou que ele é causador de qualquer tipo de problema de ordem psíquica ou física.

Sendo assim, como seria uma idéia saudável de pecado? Ora, o Evangelho de Jesus nos responde a esta questão.

Eu resumiria este problema em uma frase: pecado é toda forma de agir que despreza os presentes de Deus. Pois bem, este conceito está claro para mim, mas para outros podem não estar; por isso, irei explicar melhor. Nada melhor que exemplos, vejamos então questão da bebida e comida. A bíblia contém versos e mais versos que taxam a bebedice e glutonaria como sendo atitudes pecaminosas. Sim, na verdade o são. Por quê? Pelo simples fato de que Deus quis zombar de nós, quando desejamos nos deliciar à mesa?

Obviamente que não. Fale-me de alguém que comia desenfreadamente e não teve que arcar com duras conseqüências desta conduta. Ou mesmo alguém que não se controlava com o copo nas mãos e não passou por apuros, ou até mesmo sofreu danos irreversíveis no seu organismo. Há alguém? Creio não precisar responder a esta pergunta.

Sendo assim, é bem simples. Como já dito, entendo o pecado como práticas maléficas ao nosso organismo ou alma. Todo “não faças” está ligado a uma oportunidade de fazer o contrário e se beneficiar, e também de se livrar de uma enrascada.

Veja, fomos criados à imagem e semelhança de Deus. As instruções que ele nos dá são benéficas e amorosas, desde que olhemos por este ângulo. E mais: geralmente, o pecado está ligado a alguma forma de descontrole; o indivíduo não sabe controlar seus instintos, seus desejos, sonhos e vontades.

Uma vida equilibrada não traz transtornos, melhor ainda, é certeza de estar livre deles. É isso que está proposto nas escrituras, são elas um belo convite a uma vida em harmonia com Deus, o homem e a natureza criada. Harmonia esta que já houve durante o tempo da inocência.

- A música

Agora que conversamos sobre o pecado, podemos falar da música.

Primeiro, gostaria de frisar que é bem interessante a proposta da letra dela: a humanização do ser humano. Crendo ou não na queda do homem (pecado original), todos temos uma vaga idéia de que o homem não tem agido com humanidade e muito menos usufruído plenamente dela.

A questão é que a música “peca” na forma pela qual se pode chegar a essa humanização da nossa raça. Dentro do contexto da explicação do pecado, podemos entender o seguinte: quanto mais estamos entregues indiscriminadamente aos nossos instintos, desejos, e sonhos, mais “des-humanos nos tornamos. Não é difícil compreender o porquê disto.

Exemplo novamente: um cara que se entrega descontroladamente à sua vida sexual – o que podemos chamar de promiscuidade – dificilmente alcançará satisfação e realização no ato sexual. Quem é ser humano sabe do que falo. E todos sabemos que o “estar-apaixonado” é muito mais satisfatório do que capitular-se ao sexo desenfreadamente. Quem assim o faz age semelhantemente a animal irracional. Foi basicamente isto que alguns dos grandes filósofos puderam constatar em suas reflexões.

Outro exemplo: aqueles que se deixam dominar pela ganância de ganhar mais e mais, pela glória de ter e ter, sem dúvida, nada os satisfará também. E mais: eles passarão por cima de qualquer um para poder chegar ao que desejam. Podemos assumir que, em certas coisas, não conseguimos chegar nem perto dos animais de tão terríveis os nossos atos.

Assim sendo, quanto mais nos entregamos sem limites a nós mesmos, menos perto chegamos de ser quem nós na verdade deveríamos ser. Paradoxo? Exatamente, a vida está cheia deles.

Veja, devemos contar com o fato de que o homem decaiu de seu estado original; desta maneira, todas as nossas inclinações, em toda as áreas da vida, estão voltadas para o descontrole, a perversão e deturpação dos nossos dons e talentos naturais. De forma que quanto mais eu me controlar, mais estarei próximo de ser quem eu fui criado para ser.

Com isso, ao invés de nos tornarmos menos humanos, nos humanizamos. E quanto mais humanos, mais divinos. Sim, mais divinos! Não podemos esquecer da original filiação humana. Se fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, é natural que as boas direções da vida nos encaminhem ao seu encontro e a nos parecermos mais com Ele.

Esta é uma das razões do Evangelho. Já disseram uma vez: “em Cristo vemos Deus como ele é, e o homem como deve ser”. Paulo menciona, algumas vezes, sobre buscarmos a estatura de homem perfeito em Jesus, nos convida a parecermos com Cristo e diz que ele mesmo procurava se parecer com ele. “Sede meus imitadores, assim como sou de Cristo”, disse Paulo [2].

Desta maneira, está claro que a Zélia Duncan se esforçou, mas não chegou muito perto da verdade. Ah, claro, é só uma música. Tudo bem, este é só mais um texto também. Contudo, espero que seja útil de alguma forma para um entendimento sadio da idéia de pecado e também da mensagem do Evangelho.

Outras questões interessantes a respeito deste tema poderiam ser abordadas aqui; não obstante, prefiro deixar para uma próxima vez.

_____________________

1- Mateus 23.4
2- I Coríntios 11.1

2 comentários:

Erika Ramos disse...

Excelente texto,sábia explicação.

Valery disse...

Olá..
Gostei do texto..Sempre penso sobre essa questão de ainda ouvir muito sobre o pecado de uma forma a parecer com um simples capricho de alguém autoritário, o que a meu ver não é a intenção de Deus para nós, e sim de cuidado...
Deus te abençoe..
Valéria

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