4.9.07

Coragem para ser

Ser quem nós realmente somos talvez seja o nosso maior desafio na caminhada da vida. Isso porque esta decisão pode implicar em desagradar outras pessoas (ou pelo menos não agradar a todas), desapontar aqueles que criam certas expectativas em relação a nós, decepcionar os que nos admiram tendo apenas uma visão parcial daquilo que somos ou até mesmo nos conhecendo somente pela aparência.

Assim sendo, não são todos que possuem coragem para assumir sua própria e verdadeira personalidade. Alguns escolhem esconder-se atrás de uma personagem, uma fantasia pública que oculta uma série de aspectos intrínsecos à identidade pessoal. São estes os hipócritas, os mentirosos, os artistas da vida real.

Conheço muitos mentirosos, até mesmo tenho alguns amigos que, eu bem sei, mentem muito a respeito de si mesmos. São o tipo de gente que chamamos de “contadores de vantagem”, em tudo se dão bem, sempre possuem uma faceta extraordinária para contar; existem também os que se anulam totalmente para esconder características e fatos, em suas opiniões, vergonhosos ou desapontadores. Não raras pessoas vivem disso, enganando aos outros e a si mesmas. Porque é isso que a mentira é: a ilusão da auto-enganação.

O grande problema não percebido pelos mentirosos de carteirinha é que uma das pistas para a felicidade é justamente ser que nós somos na essência. Não importa a situação financeira, o status quo, ou qualquer outra coisa. Ainda que queiramos modificar algo em nós mesmos – não há problema nisso –, a melhor trilha a percorrer é a que reconhece e dá a conhecer aos outros quem somos no momento em que o somos.

Representar uma personagem por muito tempo sufoca. É um fardo inútil e castigador, e isso qualquer um que já abandonou suas máscaras pode confirmar. Isto se deve ao fato que, quando deixamos a essência e vivemos pela superficialidade das máscaras, deixamos a liberdade do “eu” para servirmos ao um outro “eu” – avassalador, exigente e cruel.

Infelizmente, ao longo dos meus dias, tenho podido conhecer a vida de muitos amigos e irmãos, muitos deles sufocados em suas fantasias públicas, mentirosas. Posso atestar que sofrem, e sofrem porque, no caso deles, muitas das vezes é realmente duro ter que assumir quem são. Mesmo assim, sempre procuro encorajar para que vivam em honestidade para com eles mesmos e para com os seus chegados.

Particularmente, a cada dia encontro mais liberdade, ao passo que vou me libertando de máscaras simplórias, que nada dizem de verdade ao meu respeito. Encontro-me cada vez mais livre, ao passo que deixo de lado minhas próprias defesas e o peso do desejo de ter que agradar sempre, ou convencer sempre, ou não decepcionar sempre...

Assumir-se a si mesmo é tarefa custosa, é desafio perene, é nadar quase sempre contra a maré, e só toma tal decisão quem já se tornou maduro em sua humanidade. Estamos em processo de constante evolução pessoal, a maturidade é nosso alvo! Só quem caminha ao seu encontro (da maturidade) caminha ao encontro de si próprio, confirmando sua consciência e adquirindo forças para voar mais alto.

Os imaturos, esses, sim, estão perdidos na multidão, visto que estão perdidos em relação a si próprios, alienaram-se a ponto de não saber mais quem são.

É preciso coragem para ser, contudo quem já a possui está na via certa, e, sem dúvidas, está próximo de encontrar a liberdade e satisfação pessoal.

“Ser ou não ser, eis aí a questão...” Só consegue ser quem na verdade é o que é!

8 comentários:

FChagas disse...

"ser o que nós somos na essência." Beto, dileto amigo, aconselho a não cogitar espelhar um "eu" despido.

jesse dias disse...

Beto, ha diferenca entre reconhecer o que somos de verdade, e querer ser o que somos de verdade. O primeiro eh essencial a uma vida crista autentica e para a felicidade e maturidade espiritual. Ja o segundo eh a ruina de qualquer homem, pois devemos lutar contra a nossa propria natureza, as vezes ate pretendermos q nao somos maus, agindo como se fossemos realmente bons em essencia. Ate q um dia nos tornemos akilo q pretendiamos ser em nossos atos.

Otimo texto. Abraco Corujao!

Eriquinha disse...

Oi Humberto,tudo bem?
Passei para fazer uma visita e dizer que gostei do texto.

Abraços!!

Roger disse...

Oi Humberto,
interessante que acabei de postar um artigo que tem muito a ver com isso que se passa em sua alma, sobre a essência, a autenticidade, o cair de máscaras.
Parece-me que esse é o único caminho.
Descordo do Jesse Dias (só para polemizar): enquanto estamos aqui somos eternamente miseráveis dependentes da graça divina. Então assumamos logo nosso mal caráter para obtermos misericórdia.

Humberto Ramos disse...

Olá Roger,

Fico grato pela sua visita ao meu humilde blog. Também me alegro em saber que há confluência entre o que você pensa e o que eu penso. Sobre polêmicas, também gosto muito delas.

Quanto à questão do “ser”, essa é uma questão extremamente séria!

Em todos os grupos de convívio corremos o risco de não sermos quem somos devido às pressões externas. Se tratarmos da questão voltando-a especificamente para a temática da religião, mais ainda! Isso porque o sinônimo de religião deveria ser repressão (talvez Rubem Alves assim o sugerisse).

O outro ponto está relacionado com as expectativas alheias. Quando não nos alienamos de nós mesmos por medo, falta de coragem, ou simples falta de personalidade (talvez esteja em processo retardado de formação), o fazemos para satisfazer as expectativas. Acontecem assim na família, no namoro, casamento, etc.

O grande lance de ter consciência de quem somos e confirmar nossa identidade diante das pessoas é que este processo é responsável pelo nosso desenvolvimento enquanto humanos, seja no âmbito espiritual ou não.

Infelizmente, nós não sabemos lidar com diferenças, por isso aniquilamos o “eu” dos outros, o nosso eu (quando nós é que somos os diferentes) e tudo o que significa ser diferente – ainda que esta diferença seja momentânea e transformável.

Não proponho que nos conformemos com nossas limitações e deficiências, porém está reprimido qualquer um que tenha se aniquilado ao ponto de não poder assumir a si mesmo como o é, e esta repressão pode provocar neurose. Até para haver transformação é necessário à confirmação da sua identidade, ou seja, uma prévia aceitação daquilo que se deseja rejeitar (e que seja por bons motivos essa rejeição), para depois tratar de execrar aquilo, pois não há como se rejeitar algo que não se reconhece ter.

E mais: se pensamos que estar no Caminho do Evangelho é aniquilar nosso “eu”, temos que interpretar isto com mais calma e dedicação. Alguém escreveu no msn e eu concordei: “Para Jesus o negar a si mesmo não implicou em morte de nada que é vida, mas apenas na morte de tudo o que mata.”

Em Cristo não somos obrigados a deixar de “ser”, Nele somos chamados para ser quem realmente fomos criados para ser. Passamos a peregrinar numa estrada na qual deixamos muito daquilo que somos, mas também reafirmamos e recebemos muito daquilo que devemos continuar a ser e também passar a ser.

Agora, quer ser você mesmo em Cristo? Aí sim há de se tomar cuidado, e bem sei que é a isso que o Chagas se referiu no comentário dele. Radicalizar e passar a levar a sério as palavras de Cristo pode trazer muitos inconvenientes, muitos dos quais eu já citei no texto.

Caro Roger, não encontrei seu blog, por favor, quando visitar outra vez meu espaço, deixe-me o endereço do seu.

Abraços fraternos

Roger disse...

Humberto,
há vários anos que implico com a expressão "crucificar o eu" (ou ego), tão batida nas igrejas, porque o que a Bíblia diz é sobre a crucificação da carne. Claro que na cruz a pessoa está ali como um todo (inicialmente).
Como ela não pode ser usada para suicídio, a cruz, mais do que um meio social de condenação capital é o único lugar que temos para nos oferecermos integralmente a Deus. Ali o Pai saberá separar o que lhe agrada daquilo que não lhe agrada.
Saí um pouco do tema, mas só quis juntamente contigo destacar um aspecto desse processo que você chamou de “coragem” para ser: o meio social tenta nos anular seja com rótulos, expectativas ou coerção, mas nesse processo crucial Deus forma nosso caráter que deve ser semelhante ao d’Ele. Como um covarde que sou por natureza só me resta fechar os olhos e pular nessa coisa de cabeça ou esperar que outros covardes me arrastem pra ela - o pior, sabendo que Deus é quem está por trás desta trama toda!
Não me pergunte como achei seu Blog... acho que foi algum comentário que vc fez sobre o Paulo Brabo.
Estou tentando formar um Blog coletivo e você é bem vindo.
http://www.fraternus.de/
Visite-no e veja se te agrada. Algumas palavras estão em alemão, mas são intendíveis.
Por princípio não mando beijos para machos só para irmãos, então um abraço fratenal e um beijo,
Roger

Luciana *ü* disse...

Fantástico!!!

Cada dia melhor hein????!!!!
Realmente ser o que realmente somos nos torna, as vezes, desinteressante em relação aos demais, como já li num outro artigo seu, vivemos em uma geração em que devemos demonstrar o que querem ver em nós e não o que realmente somos, talvez esse seja nosso maior equívoco...Enfim... muito bom ler seus artigos e melhor ainda é acompanhar a sua evolução!
De todo o meu coração: PARABÉNS!

Um forte abraço!

Lu

Roger disse...

Ei Beto,

engraçado quando a gente vai escarafunxar lá no passado.
Mas o Gondim escreveu algo que você já tinha escrito a quase um ano atrás. Mais precisamente aqui. É ou não é?

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