21.9.07

Esaú e Jacó dentro de mim

Por Jacqueline Emerich

Confesso que sempre me senti meio Esaú. O primogênito cabeludo da narrativa bíblica sempre estimulou em mim um sentimento de autopiedade e grande identificação. Não pelos pêlos, obviamente, nem pela cor (sou mais rosada do que vermelha), mas talvez pelo simples fato de ser eu a primogênita da família. A preferência paterna também pode ter sido uma das responsáveis por minha empatia com o personagem peludo e queridinho do papai.

Uma análise superficial da história, iniciada no útero de Rebeca, terra fértil para a origem de duas nações briguentas, faz-me querer ser parecida com Esaú, o pobre irmão passado para trás, driblado pela fome e pela esperteza do irmão mais novo. A semelhança a que me refiro não está na relação complicada entre os irmãos, mas na posição de desvantagem que Esaú assume: o ingênuo da história.

Porém, como conseqüência de meu ânimo dobre, percebo que Jacó também vive em mim. A começar pelo nome.

Ora, se eu tivesse nascido na Antiguidade, quando os nomes eram carregados de significado e expressavam as circunstâncias de nascimento do bebê, provavelmente minha mãe teria colocado o nome de “Aquela que era pra ser um menino”, já que este era o seu desejo incontido.

Não me lembro ao certo o título do livro que folheei há alguns anos, mas me lembro da surpresa que tomou conta de mim ao ler em suas páginas o significado do meu nome.

“Jacqueline = feminino de Jacó (aquele que segue os passos de Deus)”. Por muito tempo me apeguei à idéia de que “seguir os passos de Deus” seria uma vida de obediência e santidade, ou seja, aquele que anda nos caminhos do Senhor. Mas olhando pra trajetória de Jacó, começo a perceber que talvez este ‘seguir’ esteja mais próximo de ‘perseguir’. Afinal, o insistente personagem bíblico procurava ser abençoado a qualquer custo.

No entanto, se não estiver errada, a Bíblia traz outro significado. No relato bíblico, o significado do nome de Jacó traz em si um peso que ele carrega por quase toda a sua vida: “enganador”, ou, “aquele que engana”.

Dessa vez não foi surpresa, foi espanto. Percebi que os gêmeos estavam dentro de mim, convivendo ao mesmo tempo, brigando, como no útero materno. Metade Esaú - faminto, só querendo um prato de cozido – e a outra metade Jacó – enganador, vigarista, manipulador.

O agarrador de calcanhares é um personagem interessante. Seu caráter marcado pela astúcia e esperteza, amor e insistência, me faz pensar que talvez não seja tão ruim assim ser parecida com ele.

A humanidade de Jacó está cercada da graça de Deus. Ele faz o oposto que T. S. Eliot comentou: “O pior pecado é fazer a coisa certa com a motivação errada”.

Jacó tinha uma só coisa em mente: alcançar a bênção de Deus. E ele não mediu esforços para isso. Agarrou o calcanhar de Esaú, preparou um prato de comida, fugiu, se casou, trabalhou, teve visões, se reconciliou, lutou com Deus, se feriu e ganhou um novo nome – Israel.

Ele era impossível. Não media esforços. Fez coisas erradas com a motivação certa. Experimentou bem de perto as conseqüências de sua humanidade: sentiu raiva por ter sido enganado pelo sogro, trabalhou a duras penas por 14 anos pela mulher amada, teve medo de seu irmão, lutou com Deus e finalmente obteve sua bênção.

Jacó é desconcertante e seu caráter me surpreende por dois motivos: primeiro pela identificação imediata que me ocorre quando olho pro impostor que vive em mim, segundo porque percebo o amor gracioso de Deus tomando conta da minha humanidade caída.

De repente começo a me sentir bem com a idéia de ter algo em comum com Jacó, mesmo que seja a mera semelhança de um nome com significado tão vil. Ser parecida com Esaú começa a parecer autocomiseração, autopiedade, a esquecida de Deus, sem primogenitura.

Manipulador, vil, enganador, fraco, medroso, arrependido, insistente, sedento da bênção de Deus! Sou o Jacó de saias.

Mais tarde ele se tornou Israel, aquele que lutou com Deus.
E eu continuo lutando, a despeito do desânimo, das dúvidas, do medo e da insegurança.

Jacqueline é estudante de Arquitetura na UFMT, membro do grupo da Aliança Bíblica Universitária de Cuiabá-MT e namorada deste blogueiro.

2 comentários:

Roger disse...

Oi Jaqueline,
o Humberto me contou que vc escreve bem e isso pode ser visto neste seu texto.
Deu para perceber não só seus dons literários mas que vc tamém tem coragem, geralmente as pessoas se identificam somente com as estrelas da Bíblia: Davi, Pedro, Maria e etc... Mas admitir que temos lados mais parecidos com os personagens menos exemplar exige muita coragem e mais ainda, humildade.
Outro dia lá em Munique estávamos num congresso de adoração em grupos orando com mais dois irmãos . Foi pedido para cada um compartilhar o animal com o qual ele se identificava. Como não poderia ser diferente os meus companheiros falaram um com o leão o outro com a águia. Baixei a cabeça e falei como que numa molecagem que admiro a tartaruga: sem a ferocidade e a correria dos outros animais ela é paciente, bem protegida e segura, vivendo assim mais de 100 anos!
Parabéns pelo texto.

Anônimo disse...

obrigada roger pelo precioso comentário!
legal esse jogo de achar um animal com o qual a gente se identifica neh? acho q eu seria o bicho preguiça, rsrs...

obrigada pela atenção!
Jacque.

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