1.9.07

Uma luta de todos

Por Jacqueline Emerich Souza

“Produto da Reforma Agrária”. Essa era a inscrição de uma garrafa de bebida destilada produzida e vendida pelos sem-terras de Mato Grosso. Não pude deixar de sorrir diante da garrafinha long neck reaproveitada, com o gargalo envolto em fibra artesanal, produzida por um homem de uns 40 anos de idade, com as mãos ásperas do trabalho na roça. Rapadura, cachaça, açúcar mascavo e farinha de mandioca flocada faziam parte da produção da micro-agroindústria instalada naquele pequeno assentamento de camponeses.

É... Desde o Congresso Missionário muita coisa mudou. Tenho pensado exaustivamente em justiça e responsabilidade social. Pensado em como utilizar aquilo que o Senhor me deu a serviço do Reino de Deus. Saí do congresso convicta do meu chamado, munida de bons argumentos e vestida com a camisa da missão integral.

Como uma louca desvairada metralhei opiniões pra todos os cantos. Meu discurso era bom e cheguei a incomodar bastante gente com minha conversa de jovem cristã revolucionária.

Porém, com o passar do tempo, comecei a perceber que a prática era bem mais difícil. Efetivamente não fiz nada. No entanto, a semente ainda estava ali, no meu coração. Aos poucos, criando raízes, ela estava ali.

Os questionamentos começaram com as próprias disciplinas do meu curso (Arquitetura e Urbanismo). Por que a gente tinha que projetar condomínio fechado pra elite? Pra quê fazer arquitetura de interiores se só o rico pode pagar? Qual é o alcance da minha profissão para o povo que não tem voz na sociedade?O pobre, o oprimido, o órfão e a viúva?

Entendi que a inquietação é um bom instrumento de Deus para nos tirar da nossa letargia espiritual. A imagem que temos do diabo com um tridente na mão é bem divertida e fantasiosa (eu diria um pouco “Fantástico Mundo do Bobby”), mas a verdade é que eu imagino que esse deve ser o instrumento de Deus pra incomodar nossa mente e coração. Ele nos espeta a alma com a verdade e isso nos rasga por inteiro. Ou pelo menos deveria.

Foi aí que comecei a me interessar por movimentos populares, numa disciplina do meu curso chamada Projeto de Urbanismo. Vi e li muita coisa que me deixou indignada. Os sem-teto de São Paulo, que lutam por um espaço na cidade; os pobres do campo que não se conformam com a desigualdade do espaço e lutam pela democracia da terra, as favelas do Rio de Janeiro já tão famosas por suas festas promovidas pelo tráfico, o inchaço das grandes cidades e os grandes hotéis debaixo dos viadutos. Lembro-me de algumas frases de artigos e documentários que li e assisti: “Não consigo mais sonhar individualmente. Meu sonho é o sonho do coletivo”; “Reforma Agrária, uma luta de todos”; “Conscientizar os pobres de seus direitos e mobilizá-los para que lutem por mudanças”. Isso te lembra alguma coisa? Sonho coletivo, luta de todos, pobres, mudanças???

Uma jovem professora, em uma de suas aulas cujo tema era “Favelas e habitação popular”, me fez ver o quanto minhas críticas ao governo eram infundadas. Eu falava de coisas que não conhecia, mais movida pela fúria das massas que por convicção própria. E isso doeu. Doeu porque levei um “esfrega” de Deus naquele momento. Doeu porque percebi minha ignorância, minha falta de interesse pelas políticas públicas e minha alienação pela TV Glo(bo)bo.

Ao me aprofundar em “Movimentos Populares”, muita coisa me chocou, mas a pior delas foi o meu pecado. Pecado pela minha impetuosidade em criticar, desinteresse pela causa, preguiça, medo, covardia. Fiquei abismada ao ver que a instituição que tanto criticamos por seu procedimento idólatra foi a primeira a tomar frente no caso dos sem-terra, em 1975, criando a Comissão Pastoral da Terra, dando voz a quem já não tinha nenhum valor na sociedade.

E a preguiça? Essa concorre deslealmente com o avanço do Reino. Preguiça de pensar, de orar, de chorar, de se envolver, de pôr a mão na massa. Preguiça de sair da faculdade e cair no meio de gente que nunca vai reconhecer o nosso tão sonhado “profissionalismo”, mas que talvez reconheça a nossa humanidade e sinta o bom perfume de Cristo exalando indiscretamente dos nossos poros.

Queremos sempre o caminho mais brilhante (pelo menos foi o que eu sempre desejei!), do reconhecimento de nossas faculdades mentais e habilidades profissionais. Mas precisamos aprender a parar na beira do caminho e ouvir o sangue do nosso irmão que está clamando. Ouvir uma sociedade esquecida que é injustamente rotulada de “um bando de vagabundos esperando comida do governo”, gente que tem uma dignidade intrínseca e que deve ser respeitada e servida, e não explorada. Um povo que precisa de professores de qualidade, técnicos, engenheiros e arquitetos para produzirem habitações decentes, médicos, enfermeiros e nutricionistas comprometidos com um atendimento qualificado, profissionais da comunicação para repassarem a notícia com integridade e honestidade, zelando sempre pela verdade, sociólogos discutindo o assunto com responsabilidade nas universidades e instituições, juízes, promotores e advogados fazendo com que a justiça não seja tardia, mas urgente e necessária, empresários e industriais com a consciência livre de um capitalismo sangrento e desumano.

Todos os grupos populares, os já citados e os que podem estar surgindo na sua memória agora, todos eles esperam de nós, cristãos, não o medo nem a preguiça, mas a ação revestida de amor, justiça, comprometimento e solidariedade. Precisamos aprender mais de misericórdia, a se colocar na miséria do outro, a sentir o cheiro do outro, a beber no copo do outro.

Sabemos das falhas de todos esses movimentos. Gente que vai ganhar lote da reforma agrária, vender e voltar pra cidade, pessoas que vão receber casa de boa qualidade e depois vender por uns trocados e voltar pros seus barracos até conseguir outro benefício do governo, gente passando a perna no outro por um punhado de moedas... Gente, gente, gente.

Gente problemática como nós, com pecados enraizados, assassinos em potencial, estupradores em potencial, maltrapilhos na essência. Mas a nossa justiça não pode depender do sucesso de nossas ações. Não pode estar condicionada ao “toma-lá-dá-cá”. Passamos a entender o que é oferecer a outra face, andar mais uma milha, dar a nossa túnica.

Confesso que às vezes tenho vontade de gritar: “Pára o Mundo que eu quero descer!”. Mas ele está aí e não dá pra virar as costas: detonado, arrebentado, precisando de gente que entende da Reconciliação (porque um dia experimentou da mesma), cristãos que entenderam a mensagem da missão, pessoas com habilidade pra dizer mais “sim” do que “não”, gente que encara a profissão como instrumento de Deus para a propagação do Reino.

Se como cristãos nossa opção for à do Sermão do Monte (e de fato creio que deva ser), uma opção de contracultura, uma opção de acudir o que precisa de cuidados, de arriscar a pele à beira do caminho para cuidar dos feridos, de abrir mão do estrelato e exercer a justiça que excede à justiça dos fariseus, se essa de fato for a nossa opção, que o Senhor então nos conceda graça.

Graça porque somos medíocres o suficiente para nos fecharmos em nossa redoma espiritual, graça para que não nos esqueçamos de que fomos salvos de alguma coisa para outra coisa, graça para não termos preguiça de nos envolvermos, graça para não sermos paralisados pelo nosso medo, graça para não cairmos no “achismo” e emitirmos opiniões imaturas sem antes conhecermos o objeto criticado. Graça para amar, graça para levar a mensagem das boas novas, graça pra sermos agentes de Deus num mundo caído.

Graça para usufruir dos benefícios da reconciliação em Cristo e graça para exercer os deveres da mesma, levando outros à Reconciliação com o Criador e Sustentador do Universo.

A propósito, o “Produto da Reforma Agrária” é bem agradável ao paladar. E a rapadura também.

Jacqueline é estudante de Arquitetura na UFMT e membro do grupo da Aliança Bíblica Universitária de Cuiabá-MT.

3 comentários:

Paulo Silvano disse...

Parabens pelo blog.
Paulo Silvano

Humberto Ramos disse...

Obrigado!

Anônimo disse...

Este texto da Jaqueline é fantástico!

Abala as estruturas e incomoda porque nos desafia a agir de acordo com o que cremos, ou dizemos crer. É uma autocrítica, e eu me enxerguei por inteiro nela. A partir de reflexões como estas é que a justiça e o evangelho integral se consolidarão na igreja.

Um grande abraço,

Marcos Vichi
http://compartilhandopalavras.blogspot.com

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