14.11.07

Autocontrole

Não é novidade alguma o fato de que uma das características do ser humano é a capacidade de autocontrole. Diferentemente de outros animais, o homem tem ao seu alcance a consciência necessária que o possibilita refrear seus impulsos e instintos.

Pode-se dizer que talhar nossos instintos e a natureza dos nossos comportamentos é o que possibilita a cada um de nós a ser mais humanos, isto é, a chegarmos ao amadurecimento enquanto seres que estão em constante evolução mental e espiritual.

Conquanto tenhamos a condição para domesticar nossas vontades, não raras vezes somos condicionados a elas, sujeitos aos desejos mais caprichosos da natureza humana. Quando uma pessoa não tem a liberdade para escolher entre desfrutar ou não de algo, aí encontramos um viciado, seja de qual tipo for.

De forma talvez até simplista, é possível dizer que o viciado é um escravo de coisas que outrora lhe foram prazerosas. Isto é, determinadas práticas que proporcionavam gozo, sensação de alegria, tranqüilidade e gratificação, mas que num dado momento passaram a ser ferramentas de alívio diante de um tormento psíquico e biológico às vezes implacáveis.

Nestas circunstâncias o prazer não dá prazer, mas é doloroso ou, nó mínimo, não satisfaz enquanto ato que deveria ser prazeroso. A título de exemplo, algumas objetos de prazer que podem tornar-se meros vícios desprazerosos: sexo, masturbação, jogos, cigarros, bebidas, comidas, etc.

O grande problema do viciado é que, na grande maioria, este não possui consciência do mal que está trazendo para si próprio. Seu inconsciente pode até já ter captado esta verdade, mas ele ainda não a fez emergir para a superfície, escondendo-a de si mesmo. Uma vez que ela é tão dolorosa quanto o próprio vício, visto que implicará na necessidade de tomada de decisões e ação práticas em relação ao próprio vício em questão detectado.

Isto acontece justamente porque outra peculiaridade do ser humano é constantemente desprezada: o auto-exame. O auto-exame, a reflexão para dentro, é opção pouco utilizada em nossa sociedade ocidental. Desde a idade mais tenra somos ensinados a pensar, a raciocinar, mas raramente somos “discipulados” quanto às formas de tratar com nossos sentimentos, com nosso interior.

Talvez seja verdadeiro dizer que anulamos em nossas vidas uma das práticas mais vitais para a nossa saúde mental e física. Isso porque nossas determinações interiores é que ditam aquilo que faremos com nosso corpo físico. E, via de regra, todas as nossas atividades podem influenciar em nossa saúde, tanto física quanto mental.

O viciado, como já definido foi, é um alguém que passou a determinadas atividades não por serem prazerosas, mas aliviantes. A priori ele não tem escolha: ou pratica determinado ato e alivia-se ou permanecerá em tormento. Conquanto isto seja verdade, ainda restam saídas para essa vida de escravidão. Contudo não sem esforço e dor, dor essa que, diga-se de passagem, resultará mais tarde na gratificação da liberdade, ou melhor, da retomada da liberdade de escolha em sua vida.

O grande problema é que não somos dados a reflexões, análises interiores e muito menos permitimos que outros participem deste processo delicado. O que torna a cura uma alvo difícil de se conquistar. A decisão de olhar para dentro de si mesmo já é um passo positivo e decisivo neste processo, contudo não deve ocorrer sem a ajuda outras pessoas. É incrível como subestimamos o poder da amizade sincera nos processos de cura interna. E mais: pode-se dizer que culturalmente não somos mais favorecidos nesta área. Procurar ajuda de alguém pode ser comparado a estar nu diante de outra pessoa, tão constrangedor que nos é revelar que somos dependentes de determinadas coisas.

Assim sendo, a reflexão e auto-exame, aliada à ajuda amiga de pessoas próximas, constitui-se em uma ferramenta extremamente eficaz na luta pela retomada do autocontrole. O poder da amizade, da fé, do anseio por liberdade nunca deve ser subestimado por nós.

Encontre-se consigo mesmo, com amigos e com Deus sem tentar se ocultar atrás de máscaras frajutas que só conduzem à auto-ilusão e ao precipício existencial.

4 comentários:

Paula disse...

Excelente texto.

Humberto Ramos disse...

Que bom que gostou, Paula!

Passe sempre por aqui.

Abraços!

Anônimo disse...

muito bom, parabéns!

Humberto Ramos disse...

Obrigado!

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