28.1.08

A arte de dar espaço à Arte

Já faz certo tempo que tenho cultivado o bom hábito da leitura. Não fora assim durante minha adolescência, neste período eu era avesso aos livros. Ler era chato, maçante e coisa totalmente não-atraente. Contudo, entrando na faculdade, o interesse por conhecimento levou-me ao encontro dos livros. Se eu quisesse conhecer, teria que ler...

Bem, não sou do tipo de cara que consegue ler um livro por semana, na verdade leio bem menos do que gostaria e até deveria. Mas o pouco que leio (penso eu) já me confere a condição de opinar sobre a qualidade deste e daquele livro. Viajando por diversos estilos literários, deparando-nos com livros de diferentes vertentes, acabamos por possuir um mínimo de sensibilidade literária. A partir daí, pude constatar algo: grande parte da literatura cristã evangélica é pobre literariamente falando.

Sim, infelizmente! Basta que entremos nas livrarias evangélicas para ver o quão pobres são os livros que os evangélicos escrevem. Não que não haja escritores competentes e de talento artístico invejável. Na verdade há. Contudo, a grande safra de autores, principalmente nacionais, escreve sem estilo próprio, com conteúdo limitado, e num discurso ensimesmado e sem riqueza artística.

Não me recordo exatamente onde, mas li em algum lugar que C.S. Lewis teria dito que “não precisamos de mais escritores cristãos, mas sim de melhores escritores cristãos”. Não há como discordar, inda mais se considerarmos a importância deste autor para o mundo da literatura cristã em geral – e até mesmo secular. Raros são os escritores cristãos que podem ser vistos com os mesmos bons olhos com que olhamos para C.S. Lewis.

Talvez um dos grandes problemas da literatura cristã seja o fato de que os grandes (e talvez únicos) interesses de um autor ao escrever uma obra seja a apologética, o evangelismo proselitista e a educação teológica acadêmica.

Não que estes sejam interesses desprezíveis. Não são. Só que, ao tentar atingir tais objetivos, o meio pelo qual o fazem – a escrita – é tratado com um mero instrumento que nem mesmo necessita de maiores atenções, cuidados e carinho especial. A estética literária é sempre o menos importante. O que faz com que o estilo e o linguajar se constituam sempre em algo pobre e “guetizado”[1], respectivamente.

Valendo mencionar algo importante: o evangelismo nunca deve ser proselitista. Isto é, ao invés de desejar transformar as pessoas em cristãs-evangélicas-de-determinada-denominação, os livros cristãos deveriam propor direcionamentos para que as pessoas tenham a oportunidade de chegar ao Caminho, apenas isso! Sem tratar de temas cristãos pensando que apenas essa ou aquela ala da cristandade seja portadora da Verdade absoluta, ou que somente nós, os cristãos, sejamos os portadores de todas as verdades acerca da humanidade.

Para que o nível estético da literatura cristã se eleve, faz-se necessário encontrar escritores que escrevam com graça, que tenham poesia na veia, que saibam enxergar a vida humana além dos arraiais cristãos, respeitando as diferenças e elevando valores universais espalhados por Deus em todas as culturas. Precisamos de gente mais talentosa, que dê guarida ao virtuosismo, ainda que para livros de cunho mais acadêmicos; pois, sim, é possível transmitir conhecimento de forma suave, agradável e esteticamente atraente.

Em suma, é preciso dar espaço à criatividade e à beleza em nosso meio, necessitamos descobrir e incentivar – ou talvez apenas permitir que saiam de seus esconderijos – escritores natos, que amem a escrita e vejam nela uma forma de transformar a sociedade, beneficiar vidas e, não apenas isso, dar prazer aos outros por meio daquilo que produzem. Enfatizo: precisamos cultivar a arte de dar espaço à Arte!
_______________
[1] Refiro-me à cultura de gueto; isso porque, mesmo quando o interesse é evangelizar, quase nunca há a preocupação em tratar o assunto exposto num linguajar compreensível ao receptor da mensagem.

3 comentários:

Roger disse...

Fala mano,

alguns pensamentos rápidos que me vieram enquanto lia seu artigo.

Primeiro (na verdade foi o último que ocorreu), nada como escrever depois das férias, sem o extress das provas, heim?!!

2º. Que vergonha de mim mesmo...

3º. Concordo contigo em gênero, número e grau

4º. Ao contrário da sua experiência, eui lia como um fanático em minha infância e adoslecência, até que me converti...

5º. Tenho tentado desesperadamente deixar de lado os livros "teológicos" e voltar à boa e simples literatura (mas como é difícil!)

No mais acho que seu título resume tudo. E tem me faltado isso.

Abrçs,

Roger

PS: Vc tem acompanhado as discussões lá no Alysson?

Humberto Ramos disse...

Rapaz, dei uma olhadela lá nas discussões... mas não me envolvi...rsrsr

Ainda estou meio cru para tais discussões de tamanha profundidade...rsrsr

E na verdade, ando meio preguiçoso para discussões. Como aquela não me envolveu emocionalmente, nem meti meu dedo.

Abração forte.

Vinícius disse...

Cara, assino em baixo!

Dentro das minhas limitações, sempre tento colocar nos meus textinhos uma estrutura de linguagem e retórica que estejam em ressonância com meu sentimento na hora. Não é só uma construção racional, assim como penso que teoogia não deve ser.

Há tempo não entrava no seu blog. Continua interessante. Acabei de indicar seu endereço no meu blog.

Um abraço, a "Graça" continua companheiro!!

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