25.2.08

Nosso destino final não é o céu

“Sujeitar a terra produz segurança, prosperidade e beleza... Em vez de guardar a criação em seu estado original, a humanidade é chamada a guardar o mundo, uma vez que ele está sujeito ao domínio humano. É isso que significa ser plenamente humano e uma criatura à imagem de Deus. Este mundo não é lixo e não estamos apenas passando por ele em nosso caminho para o céu. Na verdade, o céu não é o nosso destino final, mas “um novo céu e uma nova terra” (Ap 21.1) – um futuro excepcionalmente material. Isso dá ao nosso trabalho diário um sentido perfeito, uma vez que ele terá (se feito em fé, esperança e amor e purificado do pecado) o seu lugar na criação renovada.”

Paul Stevens em A espiritualidade na prática, pg. 166-167 (Editora Ultimato).

Tal afirmação é por demais contundente. Talvez não para algumas poucas pessoas, mas para a maioria dos cristãos, sim! Isso porque o que aprendemos desde o frescor de nossa infância é que um dia vamos morar lá no céu – um lugar distante, demasiadamente etéreo, silencioso, de preferência branco em sua total constituição, sem muitas coisas a fazer, a não ser cantar e tocar instrumentos celestiais de sons docemente suaves.

Poderíamos dizer que esta interpretação do céu é na verdade demasiada espiritual, mas não penso assim. Não o é justamente por dessacralizar o mundo criado, não entendendo a Criação como parte integrante das tarefas implicantes da nossa vocação humana – vocação dada por Deus, por isso mesmo espiritual. Enfatiza-se a salvação da alma em detrimento da restauração integral de todas as coisas em Cristo. Por ventura a ressurreição de Cristo situou-se apenas no campo espiritual? Seu corpo – que comeu, bebeu, e tocou – não ressurgiu do túmulo? Não comeu, não bebeu e não tocou após este evento?

Pois bem, se crermos da primeira maneira (ressurreição apenas na dimensão espiritual), até podemos manter nossas atenções apenas às coisas imateriais, desvalorizado todo e qualquer trabalho aparentemente não relacionado com a alma. Contudo, se crermos da segunda forma (na ressurreição integral da pessoa de Jesus, conforme o anuncio do Evangelho), não há como deixar de lado um só aspecto do mundo criado. A crença na ressurreição do corpo nos leva a crer que nossos corpos, quando ressuscitados, habitarão um lugar material o bastante ao ponto de possibilitar que lá os indivíduos possam existir em sua humanidade plena. Afinal, alma sem corpo é fantasma...

Ok! Parece-me bastante normal e cômodo pensar no céu conforme descrito anteriormente (branquinho, silencioso e imaterial), mas esta imagem não reflete bem o que os profetas, Jesus e os apóstolos disseram acerca do céu. A descrição dos profetas, principalmente, é inteiramente voltada para algo tão concreto e material quanto as coisas mais maravilhosas, e que mais apreciamos, existentes hoje neste planeta. Em Apocalipse, conforme citado no texto do Paul Stevens, fala-se de um “novo céu e uma nova terra” (Ap 21.1) e também há a menção de que a Cidade Santa, a nova Jerusalém, desce do céu (seria ao nosso encontro?).

Ora, parece-me que as cosias celestes é que vem até nós – não nós até elas. Sempre achei o céu um lugar tão inatingível, distante, opaco pelas metáforas e ilustrações elaboradas acerca dele. Na Bíblia, contudo, o céu é apenas parte daquilo que herdaremos, parte de um todo maravilhosamente lindo. Um todo que inclui uma nova terra. E mais: um todo no qual poderemos descansar de nossos trabalhos de hoje e onde nossas obras não serão tidas como vãs, temporais, perdidas, mas nos seguirão, isto é, refletirão na eternidade (Ap 14.13).

Se é assim, o que estamos esperando? Rumo ao novo céu e nova terra, mãos à obra!!!

2 comentários:

Rei David disse...

Olá, fiquei curiosa com a colocação a sua colocação, que o nosso destino não é o céu; Jesus disse em João 14: Ele diz que, na casa do Pai, que é Deus, há muitas moradas, e, que ele iria nos preparar lugar, e quando ele preparar, ele voltará e nos levará, para ele mesmo, para que, onde ele estiver, nós estejamos também. Ele não diz que virá, para ficar aqui; nós sabemos que, depois do arrebatamento da igreja, haverá um o milênio, e os que estiverem vivos na época; e, passarem na peneira de Deus, eles entrarão no milênio, vivos de carne e osso, mas, os que já morreram, serão ressuscitados, e irão viver com Cristo no céu, onde ele está, estaremos com ele... agora, depois do milênio; aí sim, as coisas irão mudar...Deus fará um novo céu, e uma nova terra...Apocalipse 21: 1-Vejam, que o novo céu e a nova terra, está depois do juízo final, toda carne já passou pelo juízo de Deus. Aí sim, O planeta será totalmente novo, as coisas velhas passaram. mas, para nós que estamos vivos hoje, isso é impossível, porque, hoje estamos vivos, amanhã podemos estar no além, o milênio é para vivos de carne e osso... Alycyf@hotmail.com

Humberto Ramos disse...

Prezado,

A esse respeito, penso em conformidade com o bispo anglicano N.T. Wright, que em seu livro Surpreendido pela Esperança (Editora Ultimato, p. 166) comenta exatamente esse verso do livro de João. Esse autor, que é especialista em Novo Testamento, afirma que a palavra do grego antiga traduzida por "moradas" é "monai", normalmente usada para designar um lugar provisório, uma escala durante uma viagem, e não uma estadia eterna.

Em Apocalipse, lemos sobre a Jerusalém que desce do seu, ao nosso encontro. Os profetas anunciam também a restauração de todas as coisas. A expressão novo céu e nova terra não deve, portanto, ser interpretada uma outra coisa mas sim a redenção desse nosso planeta. Não falamos em nova criatura, novo homem? Deus porventura nos substituiu por outros seres ou outros humanos? Não, nos redimiu a fim de que experimentemos adiante a plena restauração.

Quanto ao milênio, essa sua versão é a mais corrente, porém há uma série de outras interpretações a respeito desse período. Os pais da Igreja, por exemplo, e também os reformadores, não eram adeptos desse tipo de pensamento, que apenas passa a tomar força no século XX, como resultado de alguns movimentos reavivalistas.

É assim que penso.

Obrigado por comentar.

Abraços.

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