8.2.08

Um Todo-Poder muito sutil

É compreensível que a maioria de nós sempre invoque os nomes e atributos de Deus que se relacionam intimamente com seu poder dinâmico. Por diversas vezes eu me pego fazendo isso. É humanamente razoável! Somos seres que possuem limitações; e mais do que isso: como racionais, temos plena ciência de nossos limites. Assim sendo, diante da crença da existência de um ser que pode tudo e possui um estranho interesse em nossas vidas, basta que algum obstáculo se apresente para que comecemos a clamar a este ser como que lembrando a ele mesmo de seus atributos mais significativos para nós.

“Senhor do Universo”, “Deus Grande”, “Todo-Poderoso”, “Magnífico”, e uma diversidade de outros nomes encontrados no vernáculo e até mesmo fora dele (hebraico, grego e outras línguas). Não cansamos de mencionar tais palavras chaves, como se elas fossem mágicas em si mesmas e tivessem condições de mover o poder de Deus. Ligue a televisão e verá algum religioso conclamando pessoas com toda sorte de problemas para que se reúnam num local determinado como o local da benção e lá clamem “o Deus da vitória”, “o Senhor da cura”, “Aquele que desamarra a vida”, “o Transformador da situação”, etc.

No entanto, como é que fica esta mesma fé quando se depara com as catástrofes do mundo? Quais as respostas para a não-manifestação de tal poder? O que dizer do Deus Todo-Poderoso ante a morte de um grande número seres humanos em hecatombes, guerras, acidentes aéreos e todo tipo de desastre fatal? A mensagem do poder parece se enfraquecer, não é? Não há como fugir, o silêncio é o sinal de que não possuímos respostas tão claras diante do mal.

Talvez esse nó na garganta fosse menos freqüente se a ênfase das mensagens acerca de Deus não fosse centrada no seu Todo-Poder manifestacional – aquele ao qual atribuímos vitória sobre a pobreza, as doenças, ao qual relacionamos com nossa riqueza material, o sucesso empresarial, e assim por diante.

Tenho acreditado em um Todo-Poder muito sutil, um Todo-Poder que não se manifesta da forma esperada, que não se submete ao nosso desejo de controlar a Deus como se controla a um gênio da lâmpada. Um poder que se manifesta no sofrimento, no compadecimento e compaixão. Um poder que se aproxima das dores dos homens e as faz parte de si mesmo. Pode parecer estranho, mas é isso que vejo no Evangelho. Lá, ao contrário do esperado pelos religiosos, o Todo-Poderoso é fraco, é pobre, é sofredor, é humanamente homem de dores que chora, apanha, entristece-se e sangra...

Onde esteve Deus quando do holocausto? Onde estava Deus quando os negros eram despojados da sua dignidade humana (do seu direito de ser tratado como a imagem e semelhança de Deus)? Onde estava Deus quando do atentado às torres gêmeas? Onde estava Deus?...

Eu sou levado a acreditar que ele estava com Dietrich Bonhoeffer e seus amigos nas reuniões subversivas que conspiravam contra o mal destilado pelo nazismo; eu prefiro acreditar que ele estava junto do pastor Martin Luther King e seus companheiros de causa lutando contra o racismo e o desrespeito à liberdade humana; eu prefiro acreditar que ele estava com os bombeiros que se compadeciam das vítimas no Word Trade Center e arriscavam suas próprias vidas no resgate delas; eu prefiro acreditar que ele estava e que ele sempre está com alguns de nós lutando sutilmente contra tudo aquilo que nós, como sinal de pertencimento a ele, mais rejeitamos... eu prefiro acreditar, e me sinto muito bem em pensar assim, que ele continua manifestando seu Todo-Poder de forma muito sutil nas coisas que talvez nós menos valorizamos.

Eu tenho acreditado nisso tudo porque acredito também que Deus, apesar de sua Soberania, tem preferido não violar a liberdade do homem na história. Talvez ele tenha preferido acreditar que, em parceria com ele, nós conseguiremos dar conta do recado. Qual recado? Sermos mais divinos (mais parecidos com ele) sendo mais humanos!

2 comentários:

carol disse...

vc me deixou sem paalvras concordo com tudo e penso da mesma maneira, se eu fosse firmar minha fé no poder manifestado de forma estrondosa ja a teria abandonado ainda bem que fui alcançada pela graça.essa sim me mantem de pé ainda que o todo poderoso pareça ausente e as vezes como algns podem dizer impotente.

Roger disse...

Oi Beto,

aquele bate papo rápido pelo msn acabou lançando a faísca para mais alguns textos!

A propósito esse aqui é muito bom.

Estou esperando um texto seu onde possa discordar e partirmos para um debate fraterno... e saírmos da rasgação de seda, mas tá difícil.

Abrçs

Related Posts with Thumbnails