18.3.08

Fidel não está nem aí

Mal começou a insigne assembléia, mas assuntos de suma importância já são discutidos. O futuro do Partido nas eleições depende das deliberações a serem tomadas. Fazendo jus ao espírito democrático e à participação comum a todos os filiados, todos têm direito à palavra. Expressam seus pensamentos de forma livre e desimpedida, não há censura; pelo menos não nesses dias. Enquanto isso, o nome de Fidel é mencionado, não há quem não o admire e quem não mire os olhos em sua direção; alguns o convidam para sentar-se próximo a eles. Ele, num ar de altivez, os ignora.

Uma mulher se levanta, pede a palavra e discursa sobre o tema esquerda x direita. “Não há mais esquerda”, declara. Trata o conceito como algo ultrapassado, arcaico e praticamente o lança entre as ideologias românticas já extintas. O tumulto gerado pela afirmativa já era de se prever. Tais palavras geram uma instabilidade na dileta reunião. Tudo agora passa a ser discutido levado em conta as palavras daquela não tão jovem mulher. Só que Fidel parece nem se importar...

Às vezes Fidel levanta sua mão. Parece que vai proferir um discurso, mas de repente abaixa-a e finge não estar ali. Levanta-se, anda para lá e para cá, contudo não se envolve com a reunião. Sobe em cima de uma cadeira, mas não é para apregoar idéias marxistas, nem para falar acerca do comunismo em tempos pós-modernos. Parece que não se importa se os ideais do proletariado se manterão ou não em conformidade com as idéias apregoadas com tanto vigor por homens ilustres e que hoje formam o rol de heróis daquelas pessoas.

Fidel, de olhos verde-claros, cabelos caprichosamente cacheados, de sorriso maroto, aproximadamente quatro ou cinco anos de idade, e sobrenome desconhecido da maioria, não está nem aí para o que está ocorrendo na reunião do diretório de um dos partidos que outrora fora representante de um esquerdismo militante, sincero e zeloso pela probidade nos assuntos políticos. Na reunião de um dos diretórios locais do partido que hoje é governo, lá está essa doce criança, levada ao evento pelos pais; crescendo em meio a discussões acaloradas que certamente farão parte de sua vida futura, num tempo em que a velha esquerda será vista apenas como um quadro antigo pendurado no Museu da História da humanidade, talvez junto dos quadros de figuras como Marx, Stalin, Che, Fidel Castro e outros mais.

* Textos escrito após a participação (visita) em uma das reuniões do diretório local do PT Pouso Alegre/MG.

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