4.4.08

Espiritualidade Integral e a saúde do corpo

Dando seqüência à nossa conversa sobre espiritualidade integral, penso ser interessante concentrar o assunto agora no tema saúde do corpo. Por que isso? Pois bem, com raras exceções, principalmente no que tange aos círculos cristãos, temas referentes ao corpo humano – nossa parte física, tangível, material – são deixados de lado.

Para ser mais exato, na grande maioria dos casos não se fala nada a respeito de cuidados com o nosso organismo como sendo parte integrante da vida espiritual. Em alguns casos mais extremos, há uma rejeição ao corpo devido ao errôneo entendimento de que ele é um instrumento do pecado, passando-se a aceitá-lo como essencialmente mau.

O entendimento de que os cuidados com o corpo devem integrar nossa espiritualidade não é algo recente. A título de exemplo – e sem delongar a conversa com citações bíblicas já conhecidas de todos –, pode-se fazer menção aos textos do velho testamento tratantes das regras alimentares entregues por Deus ao povo hebreu (Levíticos 11).

Um olhar mais acurado nos faz perceber que essas regras não eram meros mandamentos ensimesmados, isto é, “Tem que ser assim porque tem que ser assim”. Não, não é desta forma que funcionavam essas regras. Elas nem mesmo eram apenas parte de um plano de individualização da cultura judaica em relação às culturas dos outros povos.

Havia a clara finalidade de preservação da saúde do povo. Algumas das práticas relacionadas aos alimentos estavam intimamente ligadas à prevenção de contaminações; obedecidas essas diretrizes, o povo manter-se-ia saudável. E isso também era parte integrante de sua espiritualidade.*

Os textos neotestamentários não são omissos quanto a este tema. Neles podem ser encontradas referências aos glutões e beberrões, dentre outros tipos enquadrados em diversos pecados tidos como carnais. E por falar em pecado, vale ressaltar que concepção comum de pecado assumida pela sociedade ocidental é totalmente inversa àquela apresentada pela Bíblia.

Deus não nos instrui acerca de determinadas coisas com a finalidade sarcástica de impedir-nos de experimentar prazer, diversão e lazer. Outra verdade: Deus não é menos Deus por eu me entregar ao pecado da gula, mas eu torno-me menos humano quando me deixo conduzir desenfreadamente pelo meu apetite. Deus continua sendo Deus, mas eu posso deixar de possuir minha saúde física, tornando-me um obeso.

O que precisamos entender acerca da espiritualidade e bem-estar físico é que, se quisermos alcançar uma vida saudável, devemos dar atenção à forma em que estamos lidando com nosso organismo. É exatamente isso que Deus esperava de nós quando nos deu algumas diretrizes. O ilustre escritor cristão G. K. Chesterton escreveu certa vez que “devemos ser gratos a Deus pelo vinho francês e pela cerveja bebendo-os moderadamente”. Ele entendeu bem a idéia...

Procurar ter uma alimentação saudável não é reduzir o prazer, é torná-lo sublime e garantir que ele será sempre possível enquanto eu viver; praticar exercícios físicos, desfrutar da vida sexual de forma equilibrada, dedicar tempo ao descanso e ao lazer, tudo isso pode ser feito como gratidão a Deus pela extraordinária máquina que é o nosso corpo.

Utilizar as potencialidades do nosso corpo de forma moderada, consciente e responsável dá-nos a oportunidade de viver melhor, de viver mais, e de ser livre da ditadura do desejo e do vício. Sem contar que, como já foi dito, é uma forma de experimentar e desenvolver a nossa espiritualidade sendo gratos a Deus pela Graça de poder viver e desfrutar de prazeres diversos que ele mesmo preparou para nós.

*Acerca deste assunto: ver texto do Rabino Messiânico Marcelo M. Guimarães a respeito da restauração de costumes judaicos em Ensinando de Sião.

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