13.7.08

Por uma visão infantil

Tenho muita pena das pessoas que não gostam de crianças. Não as culpo por tal postura, certamente há algo muito forte por trás disso. São pessoas impacientes, intolerantes, às vezes insensíveis... pessoas que tem dificuldade de aprender sobre a vida! Sim, sobre a vida! Sabe por quê? Elas pensam que não têm nada a aprender com os pequeninos. E eles muito podem nos ensinar sobre a vida.

Jesus não era assim, ele gostava das crianças. Certa vez, quando seus discípulos impediam que as criancinhas se achegassem a ele, repreendeu-os pegando uma delas no colo e dizendo: “Deixe que venham a mim estes pequeninos, pois deles é o Reino dos Céus. Quem não receber o Reino dos Céus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele”.

A bem da verdade, fico me perguntando o porquê desta afirmação. Por que Jesus se refere aos pequenos como já sendo possuidores do Reino dos Céus?... Não sei ao certo, soa a mim como algo misterioso. Mas considerando-se de quem veio a afirmativa, acho que vale a pena pensar sobre.

Assim sendo, devemos observar atentamente qualquer criança e tentar apreender delas tudo o que pudermos, para então aprender sobre o Reino dos Céus.

As crianças não diferem dos adultos apenas na idade e maturidade que os anos lhe conferem; talvez a principal diferença seja a forma com que vêem o mundo. Elas são recém-chegadas ao mundo, e como tais não negligenciam qualquer coisa que seja. Podendo alcançar um objeto, elas o miram, o tocam, apertam, e não resistindo o desejo de saboreá-lo, colocam na boca.

Não acho que o Senhor sugeriu que permanecêssemos ingênuos nem que não nos desenvolvêssemos rumo às responsabilidades da vida adulta. Na verdade, acho que ele falava de algo que ficou para trás e deve ser recuperado: a visão infantil. Não digo infantil no sentido de ignorante ou ingênua, mas no sentido de curiosidade humilde e entusiástica.

Passam os anos e pensamos conhecer tudo. Estudamos as montanhas, as árvores, os animais e os rios e acreditamos saber tudo sobre eles. Deixamos de apreciar as coisas do mundo logo que nos vem a idéia de que as conhecemos em plenitude. Grande mentira! Fazemos anatomia das coisas e nos esquecemos da beleza que possuiem. Deixamos de explorá-las no que há de mais interessante... Perdemos a magia do olhar!

Outra coisa, e essa é um truísmo: as crianças são puras. Não há maldade no coração dos meninos e meninas no jardim da infância. Alguns diriam que eles brigam entre si, que tomam os brinquedos uns dos outros – sem falar nas travessuras que aprontam quando se juntam em grupinhos. Sim, é verdade! Mas elas ainda não conhecem a maldade que permeia nossos corações. Não desejam o sofrimento atroz dos seus coleguinhas, não desprezam a alegria das coisas simples por se embebedarem com a ganância e nem trocam o afeto humano por coisas mortas (dinheiro, poder, status, etc.).

Outro dia um homem, juntamente com seu filho de sete anos, dirigia-se a um evento num conhecido Hotel de minha cidade. Ao chegar à entrada do estabelecimento, haveria de fazer o pagamento concernente à sua participação em tal reunião. Crianças com menos de sete anos não precisavam ser incluídas no pagamento. Sendo ele indagado a respeito da idade de seu filho, disse: “Seis anos, senhor!” Ao que seu filho, assustado, respondeu: “Seis, papai?... Tenho sete! O senhor se esqueceu?” E esse foi o dia em que aquele homem desejou ser um avestruz a fim de que tivesse a capacidade de esconder sua cabeça no primeiro buraco que encontrasse.

O final da história é que ele não continuou com a mentira e, ainda por cima, teve que assumir ao seu filho que estava errado, ensinando-lhe que não era certo mentir para tirar vantagem.

Para aquele menino, que ainda não fora moldado por nossa sociedade adoecida pela falta de ética, não havia a menor razão para dizer algo que não fosse a verdade.

Se formos realistas, admitiremos que há algo de infantil dentro de nós, há algo de criança travessa escondido bem no fundo de nossa alma, um desejo de descer do bonde desta vida maluca a qual nos rendemos e revistar lugares, rever coisas e pessoas para fazer uma releitura mágica da vida; uma revisitação que despertará sentimentos límpidos e saudáveis em nossos corações. Sentimentos sem os quais temos vivido numa sequidão de alma que tem nos privado de enxergar a beleza da vida!

Sim, o Reino dos Céus pertence aos pequeninos pois estes o vêem e vivenciam-no, ainda que sem consciência disso... Para eles, o Reino já é algo tão concreto quanto as atraentes pedrinhas brancas encontradas por debaixo de um montinho de terra no fundo de um quintal.

Um comentário:

Aefe! disse...

Olá Humberto, texto muito jóia e interessante. às vezes dá vontade de buscar as coisas perdidas na infância.

Related Posts with Thumbnails