6.9.08

Aprendendo com Adélia

O meu prazer nos poemas da Adélia Prado está na forma com que ela vê as coisas do dia-a-dia. A perplexidade diante do comum, do ordinário, a surpresa em relação às ocorrências aparentemente mais bobas da vida.

Algumas coisas só comprovamos quando vivemos determinadas experiências. Estar longe de casa é uma destas experiências que me fizeram comprovar que a Adélia sempre esteve certa no seu jeito de ver a vida.

Morando hoje bem longe da minha casa, fico me recordando de como coisas tão singelas eram tão saborosas. E daí me bate aquela saudade danada. Meu coração pulsa mais forte e meus olhos ficam marejados. De peito apertado, posso dizer que tudo me faz muita falta.

Tudo o quê? Bem, posso começar pelas manhãs. Ah, as manhãs em minha cidade são fresquinhas (diferente das manhãs aqui no Mato Grosso, onde logo nas primeiras horas o dia já está quente), o sol entrava vagarosamente pela janela do meu quarto e ainda assim eu me deliciava com o frescor do dia que nascia. E a bagunça da vida em família?... Ah, até isso era bom. Hoje vivo só numa casa enorme, e mal posso esperar pelo dia em que voltarei a ter contato com o fuzuê da vida familiar cotidiana. O calor do abraço dos pais, a voz suave da minha mãe me dizendo “boa noite!” antes de dormir e até mesmo as briguinhas bobas que surgem vez e outra. Tudo isso eu quero outra vez.

E a comida?! Não encontrei ainda por essas bandas alguém com uma mão tão acertada para a cozinha quanto a de meu pai. Acho que se juntou tudo: o amor pela culinária, o dom da mineiridade, aquele gênio todo disciplinado, e pronto... saiu-me um chefe de cozinha de mão cheia. E agora quem sofre sou eu, que acabei muito mal acostumando com aquela comidinha maravilhosa.

Ah, a feira de domingo, o sotaque da roça, o jeito caipira de conversar encontrado em todos os lugares que eu fosse, a pamonha saborosa, o pastel de farinha de milho que só encontro lá em Pouso Alegre; e, claro, não posso deixar de lado o delicioso virado de banana com queijo. Bem, a vida é assim mesmo! É cheia de partidas, rupturas, dores e saudades. Por isso eu pretendo seguir adiante como Adélia Prado e aproveitar as coisas mais bobas dos meus dias onde quer que eu esteja. E isso pra que mais tarde eu não me arrependa profundamente por não ter desfrutado da vida.

Sim, sou grato a Deus por cada momento que vivi até aqui, e sei que provei cada dia com alegria, que tentei aproveitar de tudo da melhor forma possível. Minha saudade não tem fraguimentos de remorso, não! Ela não é reflexo de quem deixou a vida passar e não desfrutou dela. Minha saudade é apenas desejo de retorno, esperança fervorosa reencontros.

Esse é meu conselho: não deixem de ler Adélia Prado e de aprender com ela as melhores formas de viver o dia!

Ah, antes um pequeno aperitivo precedendo a sua refeição literária com os escritos da Adélia:

Casamento

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Amor Feinho

Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
Duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.

6 comentários:

mrbam disse...

Mano!
Muito Legal esse texto. Curti mesmo!
Inclusive as comparações. Fiquei feliz quando foi embora! Não por ficar longe do amigo, mas por saber que você está seguindo seu rumo!
Saudades mano véi!

Carol disse...

Amigo nunca comi o famoso virado de banana, vc ficou em devendo viu.. Ai palavras de Adélia, antes mesmo de as ler, me revitalizei...Eh compartilho de seus sentimentos pois eles precedem uma ruptura..Viver cada momendo como se fosse o único é uma frase incorreta,o certo seria viver cada momento pois ele é único. Dádiva de um Deus todo Poderoso que me deixou viver e reviver um dia após o outro.

Fica com Deus amigo

apotehka disse...

Esta é uma poetisa com a qual também gostaria de aprender.

Humberto Ramos disse...

Oi, amigos!

Que satisfação tê-los aqui. Satisfação terei também em poder visitar os seus respectivos espaços internetianos. O que me tem sido difícil nestes dias...

Bem, escrever também tem sido difícil, tempo e criatividade me faltava.

Agora, nada como ler comentários de pessoas boas e amigas e saber que se recordam da gente e sempre vêm nos fazer uma visitinha.

Que bom que gostaram. Isso me motiva a escrever mais...

Bam, fico feliz que tenha se alegrado comigo! Deus te abençoe muito, você é meu brother!

Carol, quando fui ver quem era a Carol que tinha comentado (pois conheço muitas), entrei logo de cara no seu perfil e vi ali o nome da cidade em que mora. Bateu-me muitas saudades de todos os momentos que vivi aí e em outros encontros da ABU, de nossas conversas e das amizades que estão tão distantes hoje.

É isso, no mais: devemos seguir "caminhando e cantando e seguindo a canção..."

Abraços.

Ana Endo disse...

Cara, curti seu texto e jeito de escrever. Se puder, passa lá no Portal Cristianismo Criativo! abração!

Humberto Ramos disse...

Oi, Ana! Tudo bem?

Que bom que gostou. Fico muito honrado e contente que tenha curtido!

Sim, claro que posso e claro que passarei lá. Sempre dou uma olhadinha no Cristianismo Criativo. O site está muito bom, Graças a Deus!

Abração!

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