4.12.08

E o tempo se vai...

Há quem não goste de roça. Eu não sou uma dessas pessoas. Era muito gostoso quando a gente ia para o sítio da bisavó Dinha. Sempre que meus pais falavam que iríamos pra lá, me vinha aquela idéia de que a gente iria viajar. Só mais tarde – quando já grande – fui descobrir que a casa da bisa não era tão longe assim. Na verdade fica bem perto da minha Pouso Alegre, numa zona rural do município de Espírito Santo do Dourado, sul de Minas.

Eu, minhas irmãs e meus primos nos divertíamos muito. Não nos agradava muito a companhia dos adultos, por isso íamos para os fundos do enorme quintal. Lá tinha um pequeno córrego, chamado por todos de “corguinho”. Ali aconteciam as corridas de barquinhos de papel, de pedaços de galhos e também laranjas podres (tudo que pudesse se converter em brinquedo). Cada um tinha o seu, marcávamos bem para não nos confundir, e apostávamos para ver qual iria ganhar ou até onde nossos barcos improvisados conseguiriam navegar sem se enroscar em algum galho caído ou rocha que houvesse no córrego.

Às vezes fico pensando que não aproveitei tanto quanto hoje eu aproveitaria. Hoje a criança que há em mim sabe coisas que a criança de outrora não sabia – uma delas é que o tempo passa rápido, que a vida é efêmera e que as belezas da natureza estão se esvaindo – não é mais absurdo dizer que num tempo não muito distante viveremos (desejo muito que não seja assim) em um planeta totalmente devastado; um lugar feio no qual as águas serão escuras e sujas, as árvores ressequidas e sem flores, o ar seco e pesado.

Quando penso nisso tudo me bate uma saudade dos lugares roceiros que já visitei com minha família. Lugares onde sempre a gente tem contato com o que há de mais belo na criação. E eu adoro tudo isso!

Tenho saudade até do jeito como as pessoas se comportavam. Na casa do tio João, que na verdade era tio da minha mãe (meu tio-avô então), a gente chegava e todos se mobilizavam para nos receber bem. Aquela hospitalidade mineira. Pegava-se um frango gordo, limpavam o bicho, e jogavam na panela. Sopa de macarrão, feijão, arroz bem temperado, e pimentinha da boa. Colocavam umas colherezinhas de pimenta ardida num potinho com caldo do frango refogado, alguns flocos de farinha de milho pra ficar com uma aparência bonita, era uma delícia!

Tudo isso parece estar tão longe. E me bate o sentimento de nostalgia. O planeta está mudando, as pessoas também, e nós também mudando a passos largos e quase não percebemos. Os dias correm acelerados e nós corremos mais ainda para poder alcançá-los. Dá-me aquela sensação de que alguns prazeres ficaram para trás e só vivem na memória. “O que a memória ama fica eterno”, já disse Adélia Prado. Mas me parece meio triste que seja assim.

Quero provar a vida. Quero o cheiro de terra, de capim verdinho, mergulhar em lagos, me banhar em cachoeiras, comer comida caipira de todos os cantos do meu Brasil. E tenho certeza que hoje pode ser bem melhor que ontem. Só porque a vida me ensinou que o tempo foge, foge apressadamente. Indomesticável... como só ele sabe ser.

6 comentários:

Roger disse...

Beto,

não sei porque mas de vez em quando, quando leio seus textos fico com água na boca... por que será?

Abrçs,

Roger

Humberto Ramos disse...

Coisas de Minas.. só pode ser isso! rsrsr

Falando em Minas, nada é tão bom como a gente poder se reunir pra conversar tomando um cafezinho saboroso e comendo aquele pão de queijo que só Minas tem...rsrsrs

Abração, meu caro!

Gustavo Bianch disse...

O nostálgico é aquele que conserva a certeza de que não degustou todo sabor do outrora. Por isso a saudade.

Lembrei: "Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais"

Abraços nostálgicos (CR´s, CF´s, CM´s, CD´s etc... rs)

Érika Ramos disse...

Sempre me emociono quando leio seus textos . Lembrei-me dos mínimos detalhes daquelas corridas de barquinhos ou como você disse das laranjas podres rsrs... Tempo que não volta ,mas ficam pra sempre na memória e no coração !

Roger disse...

Cara,

hoje assei uns pães de queijos aqui, ficaram um delícia!

Beto, estou de convidando para uma dessas brincadeiras (correntes) dos Blogs. Dá uma olhada lá.

Abraços,

Roger

Humberto Ramos disse...

É, gente, embora a correria da vida nem me dê tempo para a saudade... ela sempre arruma um tempo pra vir me visitar!

Beijos e abraços a todos, obrigado por passarem aqui.

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