25.2.09

Revirando o passado da Igreja Protestante brasileira

No seu livro Protestantismo e Repressão – hoje Religião e Repressão – Rubem Alves trabalhou o ramo do protestantismo que denominou Protestantismo de Reta Doutrina. A biografia do Rubem Alves justifica seu interesse pelo tema; sendo marcado e “perseguido” por fundamentalistas pelas suas idéias, tornou-se um denunciador da religiosidade petrificadora (dogmática) e tolhedora de criatividade, que, não raras vezes, se transforma em movimento ditatorial eclesiástico.

Num estilo hoje não mais abraçado pelo próprio autor (acadêmico), Rubem Alves apresentou a essência deste movimento. A saber, retidão doutrinária acima de tudo. Não importa muito as aplicações práticas da fé, mas sim a sistematização daquilo que se crê. De forma que, no período ditatorial que assolou terrivelmente o Brasil, os fundamentalistas pouco se preocupavam com as conseqüências sociais do tipo de política vigente em nossa nação.

As torturas, as perseguições político-ideológicas, a manipulação da educação escolar e a corrupção perniciosa que se alastrava não era tão temível quanto a mensagem daqueles que se opunham ao governo e às injustiças praticadas por ele. Ora, a mensagem destes era libertária, por isso mesmo se assemelhavam em muito à ideologia comunista; pareciam estar de mãos dadas com a Teologia da Libertação, portanto deveria ser vista como Liberal Teológica. Esse era o pensamento do PRD. E assim foi... Pregadores comprometidos com o Reino foram despojados de suas funções eclesiásticas, presbitérios fechados, sínodos tiveram seus líderes substituídos e bispos entregavam seus pastores ao DOPS. Alguns perderam suas vidas por enfrentar tais potestades.

A ditadura político-eclesiástica no Brasil não diferiu da ditadura estritamente política, foi hipócrita e dissimulada. Se valendo da dogmática, estirpou (ou pelo menos tentou) do meio das comunidades protestantes ministros sinceros e honestos diante daquilo que professavam crer – tachados como “hereges”, tinham que sair da comunhão dos “santos”. Em troca de poder, diversas igrejas se venderam “prostitutamente” ao sistema perversamente satânico que prevaleceu durante longo período em nossa nação e que ceifou um sem número de vidas de brasileiros.

Mais de vinte anos do fim da ditadura. Considero o tema profundamente relevante, principalmente no que se refere à postura protestante (o meio do qual venho). Ainda hoje podemos verificar os ecos deste período ressoando em nosso meio.

Motivos pelos quais esse tema tanto me interessa:

a) ainda não houve nenhum mea culpa institucional. Ou seja, nenhuma das instituições religiosas envolvidas se manifestou assumindo suas práticas e pedindo perdão pelos fatos corridos.

b) não se comenta nada sobre esses assuntos em lugar algum. É como se não tivessem ocorrido. Seria isso uma fuga da realidade dos fatos? Vergonha? Descaramento?

c) os fatos ocorridos neste período são a resposta para a situação atual de determinados segmentos do meio evangélico/protestante hoje. Um exemplo: o envolvimento dos evangélicos com a política. De onde surgiu este espírito de barganhas, de troca de benefícios, de malandragem e "velhaquismo"?

d) olhar para o passado é atitude fundamental para que não repitamos hoje nem amanhã aquilo que outrora se apresentou como sendo mau.


Bem sei que para muitos isso tudo é irrelevante. Para uns, porque não vêem problema algum na história da igreja protestante brasileira; para outros, porque sustentam o pensamento “o que passou, passou e não volta mais...”

Eu penso diferente, concordo com o Pregador do livro de Eclesiastes: “não há nada de novo debaixo do sol” (Ec 1:9). Nossa história parece acontecer em ciclos repetitivos de fatos e coisas que se vão e tornam a voltar de tempos em tempos. E, sabemos, em nome de Jesus já se mataram mulçumanos, judeus e até mesmo cristãos mataram cristãos – das “santas” cruzadas até a inquisição muitas cabeças já rolaram e muito sangue já jorrou em nome da fé. E temos visto nos noticiários diariamente que, com o pretexto estarem a serviço de Deus, homens explodem a si mesmos em ambientes públicos a fim de levar consigo aqueles considerados infiéis, países despejam seus arsenais de guerra contra pessoas inocentes e mentiras são sustentadas em nome de supostas verdades da fé.

Prevenir é sempre melhor que remediar. E arrependimento é sempre o caminho mais seguro para a salvação.

Deus nos perdoe pelos nossos maus caminhos e nos livre de repetir atrocidades praticadas em tempos passados.


***

2 comentários:

Luis Carlos disse...

Oi Humberto!
Também não gosto do "institucionalismo eclesiástico" fossilizado em nosso meio. Creio que a Igreja de Cristo não foi fundada com este objetivo.Agora, fica muito difícil mudar esta realidade! Precisamos, sim, apontar os problemas mas precisamos oferecer respostas relevantes e razoáveis! Você está fazendo um ótimo trabalho!
Abraços

Humberto Ramos disse...

Luisaaaaaaaaõoooo!

Seja sempre bem-vindo, meu caro!

A casa aqui é de mineiro...rsrsr

É sempre um prazer receber seus comentários. E muito me alegra a visão que tem acerca do Reino e da Igreja. Que Deus te dê forças e coragem para sustentar tudo aqui que acredita e viver sempre segundo o Evangelho.

Forte abraço.

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