16.3.09

A casa do luto

A multidão reunida no meio da avenida nos sugeria que algo anormal havia ocorrido. O trânsito congestionou-se e logo ficamos apreensivos. Ao passo que nos aproximávamos do local em que estava aquele grande número de pessoas, avistamos o corpo. Ainda com o capacete, imóvel, uma motocicleta logo adiante – destroçada –, e a total consternação dos que assistiam a inação daquele que a poucos minutos respirava como qualquer um de nós.

Uma jovem, loira, não me recordo de seu rosto, mas sua expressão certamente devia ser das mais desesperadoras... Seu grito não me sai da mente. Perturbou-nos, a mim e aqueles que comigo estava no carro. “Não!”, foi sua única palavra, mas dizia tudo... Um alto, estridente e doloroso “Não!”, que poderia ter mil significações.

“Não devia ter corrido demais! Não devia ter saído hoje! Não falei que eu queria estar com você?! Não posso viver sem ti! Não se vá! Não, Morte, você agora não... Não, eu tenho a vida toda pra viver com ele!”

Nossas risadas, as conversas descontraídas, a leveza que havia dentro do carro foram solapadas pela agressividade daquela tragédia. Ali havia um quadro pintado com cores lúgubres, mas transmitindo com nítida clareza as possíveis ações anteriores e posteriores à sua ocorrência.

Não tivemos outra escolha senão fazer preces silenciosas, totalmente íntimas, insondáveis, em favor dos que ficaram. Capitulamos-nos ao abatimento reflexivo que a cena nos causou, rendemo-nos a questionamentos profundos que nos levaram a perguntar a nós mesmos qual o sentido das nossas vidas passageiras e miseráveis.

Diante da morte, não há palavras que nos preencham o vazio. Exceto uma única palavra que me trás algum tipo de consolo e esperança: ressurreição!

O Pregador do livro de Eclesiastes comenta que o coração do sábio está na casa do luto, enquanto o do tolo, na casa da alegria. Ora, que preço temos que pagar para alcançar um coração sábio. Para mim, casa do luto é sempre local em que se vela um querido, um familiar ou outro qualquer, que mesmo não tendo conosco um vínculo próximo, é capaz de suscitar em nós os sentimentos mais profundos de dor e tristeza, devido ao vínculo imanente característico da família humana.

Ao me deparar com a morte, tento pensar na vida. Não procuro esconder meu rosto dessa triste realidade, não é isso. Até porque a negação se apresenta mais como um sinal de doença do que saúde mental e emocional. Aceitá-la é necessário, decifrar seu significado, uma urgência. Encará-la o quanto antes, uma prevenção contra a surpresa de suas aparições.

Antes que sejamos pegos de calça curta – pois ela nunca avisa quando vai chegar –, devemos nos preparar para o encontro indesejável.

Ao encontrar-me com a morte, minha ou de quem quer que seja dentre as pessoas que mais amo, quero ter apenas duas coisas: fé na ressurreição e a certeza de que vivi e convivi.

Fé na ressurreição é a convicção de que todo aquele que morreu, mesmo que morto viverá em Jesus e será ressuscitado no Último Dia. A certeza de que vivi e convivi diz respeito ao meu desejo de provar a vida como comida saborosa que nos satisfaz, e após prová-la não temos do que reclamar. Quero viver intensamente cada pequeno momento e conviver de forma proveitosa com aqueles a quem amo.

A única coisa que não quero é dizer: “Que pena, agora nunca mais...”

4 comentários:

Roger disse...

Parabéns, Beto, você conseguiu mais uma vez passar pra frente seus sentimentos, pensamentos e crenças.
Um belo texto que nos faz parar e pensar.

Humberto Ramos disse...

Obrigado, Roger!

Eu precisava soltar estas palavras, desde o momento em que presenciei a cena posterior ao acidente que aconteceu ontem em Cuiabá elas ecoavam em minha mente.

Fico feliz com sua presença sempre constante aqui no blog. Forte abraço, meu amigo mineiro exilado na Alemanha.

Lara Corina disse...

Muito bom mesmo esse texto,como já falaram mais uma vez você mostrou o que sente.
Parabéns!
Vou repetir o que sempre falo: você vai escrever um livro ainda!!!!

Humberto Ramos disse...

Larinha,

Você, como sempre, muito generosa! Obrigado por visitar meu espaço, você é sempre bem-vinda. Saudades!

Beijos.

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