25.4.09

Pobres de Meu Deus


Por Jacqueline Emerich


Um dia me disseram que Deus tem preferência pelos pobres. Logo contrapus com a idéia de que Deus não faz acepção de pessoas, o que é fato. Mas pensando bem, o Criador certamente tem, se me permitem a irreverência, uma caidinha pelo menos favorecidos. E a tal acepção de pessoas... Bem, isso é tema pra outro texto.

Quando olhamos pra sociedade em que estamos inseridos e percebemos as disparidades sócio-econômicas das classes que a compõe, damo-nos conta de que o sistema capitalista-opressor pouco reflete os valores do Reino.

Ao acompanharmos o inchaço doentio das cidades (obviamente que não poderia ser saudável, já que inchaço é sinal de que alguma coisa vai mal ao organismo), observamos que a parcelas que mais sofrem com isso são as de baixa renda ou, para ser mais científica, como a classificação da Revista EXAME¹, o pessoal da classe “D” e “E”.

Aprendi a pouco, em leituras sobre o desenvolvimento urbano e as cidades, que não devemos chamar essas classes de “excluídas”. Sim, podem ser excluídos das benesses da distribuição de renda, de participarem de determinados eventos, bem como de adentrarem certos lugares. Mas certamente não estão excluídos dos problemas sociais (pelo contrário, são os mais atingidos por eles), das doenças oriundas da falta de saneamento básico, tampouco da violência. Estão sim, e muito, incluídos no caos urbano.

Se dermos uma olhadela à nossa volta, ficaremos chocados, por exemplo, com a segregação espacial do território. Nos dias atuais, temos sido expectadores passivos da livre expansão dos condomínios fechados - verdadeiros guetos das elites – que se enclausuram em altos muros com cercas elétricas, guaritas na entrada, um reforçado sistema de segurança aliado a um sem número de porteiros chatos que impedem a entrada de quaisquer estranhos (mas coitados dos porteiros! São apenas moradores do bairro ao lado, sem infra-estrutura alguma, que moram numa casinha de 45 m², tentando ganhar o seu pão nas fortalezas dos ricos).

Marcelo Lopes de Souza, em seu livro ”ABC do Desenvolvimento Urbano”² , fala de um conceito denominado auto-segregação residencial. Nos EUA esse fenômeno é fruto do racismo. No Brasil, um país que não é racista (?), ele se dá principalmente pela disparidade econômica e status social. Por isso, cada dia mais o tecido urbano encontra-se fragmentado, pois é subproduto de uma globalização financeira que gera riqueza concentrada.

A letra provocativa da música “De volta ao planeta”, do grupo J Quest, afinal, faz sentido: “A cidade não para, a cidade só cresce, o de cima sobe e o de baixo desce”. Dessa forma, a intolerância entre as classes é alimentada pela falta de convívio e interação, já que ricos estão de um lado, e os pobres do outro. E assim as crianças abastadas vão crescendo com uma visão de “Alice no País das Maravilhas”, com medo da cidade lá fora, que é violenta, pobre e miserável, crendo que o seu condomínio é o seu mundo.

Tratando ainda do enorme abismo que há entre os brasileiros “A” e “E”, mas fugindo um pouco da problemática das cidades, não posso deixar passar em branco a reportagem de capa da já citada revista EXAME, em que o assunto é o consumismo. Pelo jeito, a crise econômica mundial não terá muita relevância no mercado brasileiro, já que as projeções de consumo para 2009 são bem animadoras.

Um estudo realizado pela Fractal – empresa especializada em pesquisa de consumo para instituições financeiras – relacionou as cinco prioridades de compra para 2009 das 6 classes sociais existentes no Brasil, de acordo com a renda familiar mensal. Vou relatar aqui apenas os extremos: as classes A1 e A2, que ganham entre 8.100 e 14.400 reais, gastarão seu rico dinheirinho com turismo interno, marcas premium, carros importados, imóveis para investimentos e, é claro, segurança, afinal a urbe é violenta mesmo... (aí vêm os condomínios fechados!).

Já as classes D e E, que têm renda familiar de até 620 reais, gastarão seus recursos com alimentação, produtos farmacêuticos, vestuário, aluguel e eletrodomésticos.

Ora, ora, ora! Não é de admirar a discrepância de prioridades da turma? Os pobres vão consumir exatamente aquilo que Jesus listou como a preocupação básica do ser humano: comer, beber e vestir! E ainda acrescentou: “o Pai Celeste sabe que vocês necessitam de todas essas coisas” (Mateus 6.31 e 32). E os ricos, bem... esses também têm lá suas necessidades, afinal, etiqueta na calça jeans e carro importado na garagem são necessidades prementes dessa classe “sofrida”!

Pois bem, quero concluir essa reflexão partindo para outras: como temos encarnado os valores do Reino? Quais têm sido nossas prioridades? Que olhar temos lançado sobre a sociedade multifacetada em que vivemos e construímos a cada dia?

Observando o Mestre, vemos que Ele dirigia suas palavras de alento a prostitutas, cegos, coxos, cobradores de impostos, pescadores iletrados, agricultores pobres, viúvas que só tinham uma moedinha no bolso, enfim, gente que não desfrutava de prestígio algum da sociedade. É... de fato, ouso declarar em uníssono com aqueles que ainda berram por justiça num mundo surdo e de desigualdades: Deus tem preferência pelos pobres!

[1] EXAME. Edição Especial 940. Ano 43 - nº 6 - 08/04/2009.
[2]SOUZA, Marcelo Lopes de. ABC do Desenvolvimento Urbano. 2ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005

Jacqueline Emerich Souza é Arquiteta e Urbanista, vive em Cuiabá e é namorada deste blogueiro.

Um comentário:

Chico disse...

Concordo Jacque... faz muito sentido... muito bem observado..

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