18.8.09

Orar ou beijar?

As coisas espontâneas são sempre mais gostosas, elas dão um sabor diferente à vida. E em se tratando das coisas do coração, mais ainda.

A gente nunca espera que vá encontrar de repente, da forma mais inusitada, num evento qualquer, aquela pessoa que vai deixar nossos instintos mais aguçados, nosso corpo acelerado e a mente admiravelmente vívida a fim de nos proporcionar a aproximação até esse alguém.

Nas coisas do amor , é sempre melhor quando acontece assim. Jacó encontrou a Raquel enquanto esta tirava água de um poço. Não se conteve, beijou-a. Imprevisível, oportunista como só ele sabia ser, não se furtou em demonstrar desde o início seu afeto por aquela que foi seu amor maior durante toda a vida.

Contudo, nem sempre é assim. A espontaneidade vez e outra é aviltada por acordos e formalidades. Foi assim quando dos casamentos arranjados. Verdadeiras prisões para aqueles que não se amavam. Ou mil vezes pior: amavam outro alguém!

A formalidade adentrou mesmo nas igrejas cristãs! Não sei onde surgiu tal pensamento, mas em algum lugar alguém teve a “bendita” idéia de que haveria de se orar antes de começar a namorar. Fazia-se necessário saber a vontade de Deus. Não poderíamos correr o risco de nos relacionar com alguém não escolhido para nós. Uma espécie de predestinação amorosa...

Eu mesmo cheguei a comprar essa idéia, infelizmente. Tanto que durante um tempão da minha adolescência e juventude fui um tosco paquerador. Essa história fez muita gente desaprender a namorar. A oração se tornou xaveco malfadado de crente.

E desse jeito, não há espaço pra conquista, para a sedução e para a doce poesia exalada dos poros dos amantes. O bom e velho jogo da conquista cedeu vez para uma “espiritualização” da vida afetiva dos jovens.

Orar a Deus diante das nossas escolhas, falar com ele sobre nossos passos, pedir que nos direcione, tudo isso é muito bom e eu também quero sempre agir assim. O grande problema era a forma preestabelecida para que Deus mostrasse seu querer.

O mais complicado disso é a atmosfera de censura diante dos namoros que não percorressem a via imposta pelos líderes. Namorar sem seguir esses passos era quase o mesmo que estar em pecado.

Supostamente, se Deus tem alguém destinado exclusivamente para a gente, de certo ele vai preparar tudo a fim de que não erremos a pessoa, e caiamos logo nos braços de nosso amor sem interferência alguma. E é muito importante se preocupar com os “laços do inimigo” – isto é, pessoas que o diabo coloca em nossas vidas para nos desviar dos planos divinos.

Com isso, a “neura” atingiu a galera. Quem leva a sério aquilo que diz crer, devido à falta de entendimento sobre o assunto, vai cumprir direitinho o que lhe é ensinado. E se não cumpre, imputa a si mesmo as penas psíquicas merecidas pela transgressão.

Comportamento doentio, envolvimento amoroso sem beleza, dificuldade de se relacionar, isso e muito mais tem marcado alguns homens e mulheres evangélicos.

Na minha vivência em comunidades cristãs desde a infância, detectei algo que tenho chamado de síndrome da menina ou do menino crente.

E com a mulher é bem mais grave. Sofrendo desta síndrome, na espera do príncipe encantado e cristão, portador de um estereótipo irrepreensível, quase que sobre-humano, isento de pecados e, ainda por cima, tendo que ser de sua denominação, as jovens mais rigorosas acabam por ficar escanteadas nas suas comunidades de fé e na vida em geral.

São aquelas que a gente chama de “as solteironas” das igrejas. Geralmente mulheres um tanto já amarguradas, de difícil trato, já algum tempo dadas às fofocas (nem todas, mas muitas, visto que a vida dos outros possui mais emoção que a delas), de quadro progressivamente agravado devido à proximidade da casa dos trinta anos.

Qualquer mulher não-neurotizada pela religião, engajada em sua vida profissional, certa de sua beleza e simpatia, tranquila quanto a si mesma, não viveria os dramas encontrados entre as jovens das igrejas. Isso porque elas se permitem ser cantadas, se permitem relacionar, acreditam que devem dar a si mesmas a chance de ir em busca da felicidade.

Com os homens a gravidade talvez esteja em outros aspectos. A porcentagem de jovens evangélicos envolvidos com algum tipo de pornografia é enorme. Qualquer pesquisa honesta realizada nas igrejas revelará o grau de envolvimento e recorrência a esse tipo de escape psíquico-emocional.

Mal compreendedores de sua sexualidade e do que é um relacionamento amoroso saudável, os meninos acabam por se “guardar”, restringindo seu envolvimento, e muitas vezes – à semelhança das jovens – tendo expectativas ilusórias acerca da “prometida”, eles acabam por lançar mão daquilo que tem em maior abundância na internet: a perversão encontrada no sexo fácil e virtual.

A espera é longa e o que se espera pode bem ser uma miragem, não um oásis. Daí nunca encontrarem a pessoa ideal.

E tudo isso porque a sexualidade quase sempre foi um problema para o cristão. Desde a Igreja Católica aos atuais evangélicos, o sexo é tratado como tabu, o prazer como pecado; e com isso, a espontaneidade como tentação.

O que durante muito tempo trouxe um falso alívio aos católicos foi a ausência do sexo nas mensagens dos sacerdotes e o espírito do “não-praticantismo” muito frequente entre os que se denominavam católicos. Isso tem acabado com o crescimento dos movimentos de renovação e ressurgimentos de padres mais atualizados que têm produzido um movimento paralelo ao pentecostalismo evangélico.

Seria bom que os jovens cristãos continuassem a orar para namorar, mas que já cheguem diante da pessoa amada “orados”. Que falem com Deus desde o primeiro momento em que mirarem o alvo de seu afeto. E acreditando na inteligência, bom senso e prudência dispensados por Deus.

Confiando ser aquela pessoa alguém de valor, que partam pra cima!

Não adianta espiritualizar as coisas. Tudo já é espiritual para quem abriu seus olhos e percebeu que o mundo em que vivemos está intimamente ligado às dimensões espirituais. De forma que comer, beber, beijar e fazer amor é tão espiritual quanto orar, meditar e fazer caridade.

24 comentários:

will jesse dias disse...

Aleluia irmão! Beto, vc se tornará o apologista casamenteiro.

Humberto Ramos disse...

Rsrsrs Tá bão!!!

Jonathas Acácio disse...

Grande amigo, já lí textos de vários autores sobre o tema em questão ( namoro cristão) mas posso afirmar que, o seu discurso escrito é um dos melhores, mais completos e verdadeiramente embasado na palavra e na vivencia de Cristãos. Muito bom! Com saudades de você.

Humberto Ramos disse...

Jonathas, bom ter vc por aqui, saudades também.

Abração!

Jéfferson S.S. disse...

Bacana! Muitas verdaes ai!
Parabénes! Deus usa sem muntanavassouraeanda chalabacanta lagaçoriodera também olha ai...
hSAHSuSH H

Dani Lima disse...

Ei, ei, ei
Faz tempo que não passo por aqui, mas seu msn hj me chamou atenção,rs.

Seu blog tá mt fino!

E o texto...
Add aos favoritos, vou imprimir, mostrar umas pessoas,citando o autor, claro. Mt bom se Humberto Ramos.

Ê saudade de assistir "Tropa de Elite" e o ônibus quebrar por causa das suas discussões hereges! TUdo cula suuua! rs

Bj

Humberto Ramos disse...

Dani,

Saudades de ti também, muié!

Que massa, depois que mostrar para alguns aí, me conte a reação. É um tema que causa muito interesse.

Agora, uma coisa num sabia ainda, que o motivo da "quebradeira" do bus eram as minhas "heresias" hehehe...

Beijo!

stefanie disse...

oi Beto! adorei! uma verdade posta de forma descontraidíssima!!rs
vou imprimir e passar para os jovens da igreja, entendo perfeitamente sua colocações, afinal, acabei por prsenciar e também viver a mesma situação. beijão e parabéns mais uma vez!

Humberto Ramos disse...

Stéfanie,

Obrigado pela visita.

Legal. Espero então que este texto possa contribuir com a saúde mental e equilíbrio emocional da galerinha que chegar a lê-lo.

Até mais.

Beijo.

Dany disse...

Oi, Beto!!

Tbm passei por situações parecidas...
Ow mania de espritualizar tudo.. aff

Ei, avisa a Jonathas Acácio que tem umas meninas que oram por ele até hoje por aqui por Barreiras!!
kkkkkkk

bjim

Humberto Ramos disse...

Dany,

Quem não passou, neh! rsrs

Ah, vou avisar ele sim!

Ele vai ficar feliz... rsrs

Anônimo disse...

Fala mano,

Muito bom mesmo seu post. Realmente muito elucidativo.

Eu tenho em minhas mãos um mestrado em Psicologia apresentado na PUC-SP que trata justamente das pressões psicológicas na mente dos jovens que são expostos a este tipo de controle institucional (posso te enviar se você quiser). No caso, a pesquisadora frequentou durante 1 ano a igreja Bola de Neve, que apesar de ser bem liberal nos usos e costumes, é extremamente conservadora nesta questão. Lá você tem que pedir ao pastor para que ele abençoe o período de oração (a corte em outras igrejas). Geralmente o pastor pede alguns meses, que pode variar de 3 a mais de 1 ano, e quem não esperar é considerado rebelde ou "fora da visão". Neste periodo, o limite maximo é andar de mão dada na rua. E não tem idade. Se vocÊ tem mais de 30 ou 40 anos, tem que passar por este processo. Na verdade o que era para ser um conselho, virou um dogma inquestionável.

Quanto as solteironas, é de dar dó. E você acertou na mosca. Já vi algumas que chegam perto dos quarenta, são bonitas, tem profissão, e continuam esperando estereótipo do príncipe encantado cristão. Detalhe: em um igreja que a grande maioria é menino de boné e regata. E vai aconselhar a tentar conhecer alguém de outra igreja...Meu Deus, é quase uma blasfêmia.

Uma amiga que frequentou um seminário de uma famosa igreja em BH me disse que uma pedagoga desta igreja revelou que a "corte" está produzindo surtos de homosexualismo sem precedentes dentro da comunidade.

É triste, mas este controle abusivo produz o efeito contrário.

Grande abraço.

Humberto Ramos disse...

Anônimo,

Primeiramente, acho que você se esqueceu de se identificar... seria massa saber seu nome e quem sabe se a gente já se conhece de algum lugar.

Segundamente (rsrs), muito bacana seu comentário, ele enriquece a nossa conversa; aliás, gostaria de postá-lo mais adiante, num post dando sequência ao tema. Por isso, me envie seu nome, e outros dados a mais, se puder...

Quanto ao estudo que diz ter em mãos, quero sim. Pode me enviar neste e-mail humbertoabu_pa@yahoo.com.br ou no humbertoramosojunior@yahoo.com.br

Forte abraço, mano!

Anônimo disse...

Caro Humberto,shalom! Se vc recebeu do anônimo a dissertação de mestrado em psicologia(puc-SP) sobre as pressões psicológicas na mente dos jovens... gostaria que me mandasse também,se possível.
smc.lopes@hotmail.com
voltando ao tópico,orar ou beijar,minha opinião é: orar e estudar é a melhor coisa que o jovem pode fazer em sua juventude.

Nanda Valuá Machado disse...

Excelente texto!

Daniela disse...

Excelente texto. Acho que nunca vi algo tão claro sobre o assunto. Seria bom se essa mentalidade chegasse às igrejas, né?! Acho que o grande problema tb é o equilíbrio, fugir do tudo ou nada.

Anônimo disse...

NOSSA, SEXO COM VCS DEVE SER MUITO RUIM...

Diego Ruas disse...

Muito Fera o texto meu!!!
Exatamanete o q eu penso!

Que isso Rei.. vou postar no meu blog , posso??

http://subirquadrado.blogspot.com/

Humberto Ramos disse...

Diego, que bom que curtiu!

Pode postar, sim! Fique à vontade.

Seja sempre bem-vindo!

Abraços!

Roberta Nogueira disse...

Parabéns, Humberto!
O texto é fantástico. Realmente um dos melhores e mais honestos da área. Vou compartilhar!

Humberto Ramos disse...

Roberta,

Obrigado pela visita ao blog e também pelo comentário. Nossa, fazia tanto tempo que eu não voltava nesse texto. Legal saber que vez por outra ele ainda tem alguma utilidade para este tema.

Forte abraço!

Andre disse...

Cara a ideia do texto é boa mas deixa muito margens para más interpretações, concordo q não exista pessoa pré destinadas, mas é essencial que se ore por um determinado tempo para ter orientação de Deus, mas tb não adianta ficar orando até um anjo aparecer, a escolha sempre é nossa. Temos q sempre ter o meio termo entre o liberalismo e o conservadorismo.
Espero ter me feito claro. Parabens pela ousadia em um assunto pouco falado.

Humberto Ramos disse...

Olá, André

Obrigado pela visita ao blog. Sobre buscar um meio termo, é isso mesmo que eu desejo transmitir para os leitores através desse texto. No entanto, quase toda ideia que venhamos a defender levantará margem para interpretações inadequadas. Afinal, todo texto lido é também interpretado segundo as convicções pessoais, preconceitos e tendências dos leitores.

Abraço!

Anônimo disse...

nossa, muito bom, sempre tive duvidas em relação a namoro cristão e esse texto esta ralatando corretamente sobre o assunto sem perder a moral cristã, vou visitar sempre.

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