5.8.09

Uma conversa sobre homossexualidade

É fácil falar sobre prisão enquanto não estamos lá ou nem mesmo temos algum “chegado” trancafiado em uma cela. Fácil também é falar sobre como reagir à morte, até que ela nos surpreenda levando alguém próximo. Fácil é diagnosticar as falhas, defeitos e pecados alheios, apresentar soluções e remédios, até que sejamos nós mesmos os falhos, defeituosos e pecadores, ou alguém a quem dirigimos profunda estima e compaixão.

Assim acontece quando tratamos do tema homossexualidade. Enquanto essa realidade está distante, não temos problema algum em tratar o assunto. Parece simples diagnosticar esse fenômeno, tachá-lo e julgar segundo um estereótipo já concebido desde os mais remotos anos de nossa vida.

Como reagiríamos então se descobríssemos que o músico da igreja da qual fazemos parte é homossexual, ou o responsável por conduzir a reunião de oração? O que dizer acerca daquele jovem amigo que sempre se apresentou zeloso para com as missões cristãs e que agora, de forma inesperada, nos revela ter inclinação homossexual?

Homossexual – homem ou mulher – com práticas homossexuais. Homossexual sem práticas – abstendo-se de forma guerreira. Homossexual não assumido nem mesmo para si próprio, como é o caso de muitos. Tantos e tantos casos reais mas ocultos. Ocultos talvez por conta das respostas que daríamos às questões acima realizadas.

No Manifesto Anglicano a propósito das discussões acerca do Projeto de Lei nº.5003/01 (que propõe a criminalização das condutas que discordam do homossexualismo), subscrito por Robinson Cavalcanti, juntamente com outros Bispos da América Latina, tais palavras foram proferidas: “O consenso histórico das Igrejas Cristãs tem ensinado que o homossexualismo é um desvio do projeto original de Deus, e decorrência do Pecado Original, que a sua inclinação é uma tentação e a sua prática um pecado.”

Conquanto a prática seja um pecado, o homossexual será sempre um ser humano. Uma criatura de Deus, um alguém a quem devemos ofertar nosso amor e apoio. E mais: tal coisa não deve continuar a ser tratada com tanta displicência e superficialidade. Infelizmente, aqueles que têm se proposto a comentar o tema são os menos preparados; e os que têm alguma preparação calam-se, salvo raras exceções.

Um dia um amigo cristão me contou seu drama. Um outro – não cristão – já havia compartilhado comigo sua história, seu drama e quais soluções havia encontrado.

O conteúdo de crenças dos dois era totalmente distinto, mas seus sofrimentos os mesmos. Com a exceção de que o que era (e ainda é) meu irmão na fé sofria mais, devido ao que ouvia dos púlpitos, pelas piadinhas contadas nas nossas rodinhas, e pelo dilema que se resumia em: Como negar-me a mim mesmo sendo tão fortes tais desejos? Como servir a Cristo tendo tais inclinações? Busco a cura? Quantos homossexuais verdadeiramente homossexuais já foram curados? Como viver, beber o cálice e partir o pão com aqueles a quem chamo de irmãos sem nem mesmo sentir confiança de contar-lhes toda a verdade sobre quem eu realmente sou?

Depois de um tempo de caminhada aprendi que a Igreja, dentre várias outras qualificações, deveria ser uma comunidade terapêutica. E se assim realmente for, penso que carecemos de terapeutas para as diversas enfermidades da alma que nos têm afligido. Afinal, muitos são os feridos que vêm até nós, e ao mesmo tempo muitos os que já fazem parte de nós.

Deus nos ajude!

4 comentários:

Pedro disse...

Muito oportuno seu comentário. Eu só aceitaria essa "condenação", ditada pela igreja, que a homossexualidade é um aberração, se um dia algum representante da igreja, mantivesse a mesma postura, de condenação, se fosse homossexual. Já é muito dificil, um homossexual carregar o peso deste destino, ainda mais pesado fica, quando percebemos que comentários de pessoas desqualificadas para o assunto, julgam ser um "OPÇÃO". Ah!Felizes são os héteros...

Humberto Ramos disse...

Caro Pedro,

Não há como tratar tal tema sem ter como aliada a Graça Maravilhosa e o Amor de Deus, manifestados em Jesus...

Deus nos permita servir e socorrer a todos os aflitos, indistintamente.

Sabedoria do alto é o que precisamos nestes dias.

Abraço.

Luis Carlos disse...

Tema muito sério e que realmente precisa de uma reflexão séria e uma "mudança de mentalidade" por parte da igreja. Eu percebo que a igreja confunde seu papel de proclamar as boas novas e amar os pecadores. Ao invés, temo-nos tornado juizes, lugar que só pertence a Deus!

Valeu pelo texto!!!

Humberto Ramos disse...

Luizão,

Uma honra ter você por aqui.

Sim, é isso mesmo.

Forte abraço.

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