14.10.09

Evangelho: um apelo à consciência


Um pastor amigo, há muito tempo atrás, me disse que de fato não era pecado beber bebida alcoólica, que a Bíblia não continha nenhuma mandamento condenando seu consumo, embora por diversas vezes ela asseverasse a tolice de se entregar descuidadamente à bebida forte. Mesmo pensando assim, ele me disse: “Só que não posso dizer isso tão abertamente na igreja, porque se o fizer terei de começar na semana seguinte a realizar campanhas de libertação contra vício da bebida”.

Entendo perfeitamente as motivações deste meu amigo, mas penso que de fato – embora pareça ser a postura mais piedosa – este não é o melhor jeito de tratar o assunto. Se realmente acreditamos que não há problema na bebida em si, por que dizer que há? Ou mesmo: por que esconder esta verdade? Seria mentira ou omissão agir destas duas maneiras, respectivamente.

Certamente o medo por trás dessa mentira ou omissão é que, ao ouvir a verdade, alguns dentre os irmãos não tenha o equilíbrio necessário ou mesmo se entreguem, caso sejam alcoólatras, ao vício e todos os seus malefícios. A preocupação se faz justa!

Não obstante, isso gera maturidade? Esses irmãos, protegidos por essa preocupação legítima, tornar-se-ão maduros o bastante para seguir – na jornada da vida – livres e responsáveis diante de suas escolhas?

Tal proteção assemelha-se à conduta da mãe que, a qualquer custo, busca impedir ao filho ter contato com a dor, o sofrimento, às intempéries da vida. Ela o leva na escola quando ele já teria idade para chegar lá sozinho; segura suas mãos ao atravessar à avenida fazendo-o sentir vergonha de seus amiguinhos independentes; tudo isso faz com que ele sinta-se culpado quando age de forma livre sem necessitar de sua ajuda. Um dia ela não estará presente, e o filho terá de viver por si mesmo; a menos que arrume uma esposa que substitua o papel exercido pela sua mãe.

Na primeira opção ele sofrerá mais do que teria sofrido se tivesse ganhado sua liberdade no momento adequado; na segunda, ele continuará raquítico, infantil e dependente.

Alguns pastores vigiam seus membros a fim de saber se eles têm visitado outras igrejas. Isso gera um problemão para alguns irmãos desavisados, que se deixam ser descobertos. A repreensão é imediata! A alegação para essa espionagem é que há o risco de que estas visitas acabem confundindo a pessoa, uma vez que este foi discipulado em uma igreja, com determinados costumes e doutrina, e ouvirá na igreja visitada algo totalmente diverso (e isso porque somos irmãos, imagine se não fôssemos!).

Esses exemplos são apenas amostras daquilo que é a vida religiosa em determinadas comunidades. Há uma gama de proibições que se transformam em tabus e, por conseqüência, gera-se indivíduos cheios de neuras. Grande parcela deles desrespeita os tabus, contudo estão sempre tomados por um sentimento de falsa culpa – mesmo que, no fundo, não entendam estar agindo errado.

O Evangelho nada tem a ver com isso. Pelo contrário, ele é um apelo à nossa consciência, um chamado à maturidade. Jesus não deixou de criticar os fariseus pelas diversas regras criadas a fim de se alcançar santidade (havia uma diversidade de literaturas judaicas com valor quase equiparado ao das Escrituras Sagradas objetivando instruir à santidade).

Um homem maduro deve ser livre para julgar se pode ou não beber, se isto lhe é lícito ou não. Pessoas saudáveis não devem precisar de tutores a fim de lhes dizer quais lugares frequentar, quantas vezes devem ir ao culto na semana ou se podem ou não namorar com esta ou aquela pessoa (imagine, até isso existe!).

Daí alguém diz, e se a pessoa não for madura o bastante? Ora, a caminhada cristã é uma jornada rumo a uma espiritualidade adulta. Os irmãos devem se encarregar de conduzir os mais novos e menos prudentes a serem responsáveis, capazes e aptos a viver em liberdade.

Dependência gera dependência. Isso não é nada bom! Somos dependentes uns dos outros enquanto membros de um corpo, mas não como eternas crianças que não sabem distinguir entre a mão direita e a esquerda.

Nesta vida todas as coisas devem ser temperadas pelo equilíbrio, e no que tange à preocupação e o zelo para com os mais fracos não será diferente. Só há duas escolhas, apelar para a livre vontade e responsabilidade de cada um ou então permitir que as pessoas estejam fadadas a nunca alcançar a maturidade integral em Cristo.

4 comentários:

Daniel Grubba disse...

Oi Humberto,

Excelente reflexão mano. Penso que temos uma multidão de cristãos infantilizados e absolutamente dependentes do pai (pastor) e da mãe (pastora). E não falo de novos na fé, o que seria natural. Na verdade são crentes que já deveriam ser adultos no entendimento e ainda são crianças que necessitam de tutores para tudo. Uma amiga de 37 anos foi pedir para a mãe (ops... pastora) se ela podia fazer terapia...e que não faz nada sem a benção. BOm, isso é que Freud chama de transferência de responsabilidade. E mais fácil transferir ao outro o que para nós pode significar um risco.

Você acertou: viver assim é viver uma fé cheia de neuras. Acaso você ja leu "Neurose da religião" de Tom Hovestol? Eu indico, é um belo livro.

Abraços,
Daniel

Humberto Ramos disse...

Daniel, meu brother

Obrigado pelas palavras e pela visita.

Cara, eu já fui extremamente dependente da liderança eclesiástica. E isso ao ponto de uma vez, na dúvida entre ir a um Show ou participar de um congresso realizado na igreja, eu desistir do Show para me frustrar com aquela programação chata só por causa da palavra do pastor (que não me proibiu, mas fez "aquela cara" ao perguntar: "o que você acha que deve fazer?".

Afff... nem gosto de me recordar disso.

Mas esse é um dos motivos pelos quais escrevo, acredito que a palavra escrita pode chegar a lugares impensados, e pessoas podem ter seus olhos abertos. Boas leituras, e uma releitura dos evangelhos foram cruciais para que eu transformasse minha mentalidade.

Assim, vamos incitar as pessoas a pensar...

Abração!

Daniel Grubba disse...

Fala mano...
Fiquei feliz de ter ver na equipe do Púlpito.

Grande abraço,
Daniel

Humberto Ramos disse...

Daniel,

Valeu brother. Estamos nessa!

Falow!

Related Posts with Thumbnails