8.1.10

Herética Ortodoxia


Qualquer estudo honesto sobre a história da igreja nos conduzirá à compreensão de que ela seguiu o ritmo da vida humana, marcada pela instabilidade. A fé que começou como heresia tornou-se religião dominante, elencou as heresias as quais deveria, por sua vez, combater e até mesmo puniu os seus hereges.

Alguns desses hereges tornar-se-iam santos, mártires e líderes de movimentos religiosos mais tarde reconhecidos e que também viriam a se institucionalizar.

Os hereges de outrora vieram a se tornar inquisitores posteriormente. Protestantes foram perseguidos e até mortos pelos católicos, no entanto quando da oportunidade de fazer diferente, não titubearam diante dos novos hereges, os anabatistas. Por questionarem o batismo protestante que ainda mantinha o rito também católico do batismo infantil, os anabatistas (sem batismo) morreram pelas mãos de seus irmãos.

Miguel Serveto, médico espanhol, que negara a divindade de Cristo foi condenado à morte sobre os auspícios de Calvino, já os camponeses germânicos foram mortos em seu surto de revolta pela autorização de Lutero. E assim foi se escrevendo a história da igreja.

Esse é nosso grande risco. O risco da ortodoxia. Temos percebido nestes dias uma premente necessidade de mudança de rumos, de transformações, de reavivamento no seio da igreja. Propor uma nova forma de agir e pensar poderá certamente ser taxada como heresia. Isso é previsível.

O não-previsível é o que podemos nos tornar após a consolidação das nossas “heresias”. Estabelecidos, com uma estrutura de pensamento formada, com nossas regras e costumes firmados, correremos o risco da inquisição legitimada pela ortodoxia. Se assim ocorreu no passado, é importante manter os olhos abertos para esta possibilidade.

Somos todos inclinados à elaboração de sistemas de idéias que nos dêem segurança. Nossas convicções nos mantém a tranqüilidade de percorrer a jornada prevendo percalços e, assim sendo, evitando-os previamente. A incerteza prevê apenas os possíveis vacilos de quem não tem um mapa nas mãos.

Ora, ninguém vive sem um corpo mínino de pensamentos (doutrina) norteadores que nos facilitem a caminhada. Contudo, flexibilidade, amor e respeito pelos que não comungam das mesmas idéias nos viabilizará não apenas viver em harmonia com o outro, mas também repensar nossas crenças e, quem sabe, até mesmo reformular conceitos.

A vida é cheia de contingências, apresenta-nos o novo a cada dia, somos forjados pelo ambiente em que vivemos e pelos diversos fatores ditados pelas circunstâncias. Nossa fé precisa ser uma resposta atualizada aos anseios da vida. Qualquer resposta não adequada à realidade contemporânea será inócua.

Todo movimento está fadado ao engessamento. À semelhança da vida humana, que envelhece e perde suas articulações biológicas, nossas instituições também seguem o mesmo rumo. Ou entendemos isso ou nos capitularemos à tentação de imobilizar nossa fé, tornando-a inflexível e sem espontaneidade, portanto sem amor e nem liberdade. Pois onde há amor há liberdade, e onde há liberdade há espontaneidade, beleza e flexibilidade. Sigamos então as trilhas do amor!

2 comentários:

Roger disse...

Sempre sóbrio, Beto, eu discordaria de uma ou duas coisas insignificantes... que no máximo iriam depor mais contra mim do que contra esse belíssimo texto.
Sudações fraternas,
Roger

Humberto Ramos disse...

Brother,

Que bom receber sua presença sempre presente neste blog. Obrigado pelas palavras.

Abraços fraternos!

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