2.1.10

Morbidez na Sé


Visitei a Catedral da Sé há poucos dias. Que lugar imponente! Arquitetura neogótica, uma das que mais me impressiona! Quanta beleza num lugar só.

Queria ter ido lá num dia de silêncio absoluto, daí poderia me sentar e ficar admirarando tudo sem divagar na agitação maluca de São Paulo.

Tinha pressa, mas mesmo assim deu para descer até a cripta, local onde estão os restos mortais dos bispos mais relevantes para aquela diocese. Apesar de ser um cômodo subterrâneo, surpreende pela sua grandeza e magnitude. Fascinante!

Antes de descer, logo no corredor havia um caixão de vidro. Lá estava aquela escultura de um homem cabeludo, machucado, velado por alguns rostos contritos; feições cabisbaixas que contrastavam com a atmosfera da véspera do Natal, um velório sem fim.

Foi inevitável. Muitas questões permearam minha cabeça. Ora, cresci dentro da tradição protestante, que, pelo menos no Brasil, é totalmente despida de obras esculturais. Jesus crucificado e os santos da igreja: só os via em casamentos ou outras celebrações realizadas na igreja católica, nas quais me sentia à vontade para participar.

Cansei de tanto me opor às imagens do catolicismo. Cansei das discussões e cansei até mesmo de minhas próprias alegações para não desenvolver uma espiritualidade que prime pelo uso de esculturas.

Não tenho a intenção de me objetar a tais práticas, nem de tentar convencer ninguém do que quer que seja. A pregação do Evangelho é a mais essencial dentre todas as mensagens, e é com ela que devemos nos ocupar.

Não obstante, outro questionamento me domina. Talvez devido ao contraste de tradições. Talvez devido ao choque de me deparar com aquelas feições caídas durante uma época em que, geralmente, as pessoas se aproximem de tudo o que lhes conduza à alegria, ao festejo.

Um Cristo ressurreto, um Cristo carregando a cruz na via sacra, ou mesmo crucificado mirando os céus a dizer “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” não teria me consternado tanto. A morbidez da cena atingiu-me! Por que a ênfase na morte? Não venho desrespeitar a religiosidade católica, nem tampouco proferir palavras polêmicas a fim de gerar discussão inócua sobre o tema. Preciso apenas perguntar! Por quê?

Talvez alguém algum dia me responda. Talvez eu me satisfaça. Mas não estou certo disso. Leio os evangelhos e não consigo ver ênfase na morte. Leio as cartas dos apóstolos e encontro louvor e glória a Deus pela ressurreição de seu Filho Amado. A vida superou a morte, a morte foi vencida na cruz simplesmente porque o seu desafiante era o próprio Deus. Não entendo o porquê nem mesmo do caixão, se nada tem a ver com o sepultamento de Jesus – que teve como sepultura o seio de uma rocha, como ocorria à época.

Receio que todos nós estamos inclinados a uma espiritualidade cabisbaixa. Uma espiritualidade na qual a morte impere sobre a vida, o sofrimento seja visto como única alternativa para a purificação e aproximação do sagrado. Ao passo em que nos entreguemos ao autoflagelo da alma, quando não do corpo (conforme alguns o fazem).

Gosto de pensar em Jesus com vida. Um homem alegre e convidativo. Não quero negar sua morte, nem a sua cruz, nem tampouco o chamado para que nós também carreguemos nossa cruz e nos disponhamos a sacrificar-nos em prol do Evangelho. Penso apenas que ênfases exageradas podem revelar algo de doentio.

Desejo que todos possamos provar uma espiritualidade de vida abundante, cheia de esperança e alegria grata a Deus pelo seu gesto de amor por nós, sua morte e ressurreição. Gesto único, do qual não podemos desvencilhar morte e vida. Já que com sua morte ele levou sobre si o o que seria o nosso castigo, e com sua ressurreição deu-nos a vida. Jesus vive, e está entre nós! Amém.

3 comentários:

Hélio disse...

Excelente artigo, Humberto!

Já estive algumas vezes da catedral da Sé e realmente a arquitetura gótica impressiona, e a cripta é um "espetáculo mórbido" à parte, mas não deixa de ser uma demonstração de como a igreja católica não conseguiu se libertar da Idade Média e do terror que o homem medieval enxergava no mundo como um todo.

Graça e paz!

Humberto Ramos disse...

Hélio,

Obrigado pela presença.

Forte abraço!

Meire disse...

Vivi no catolicismo romano a maoir parte da minha vida e esse texto conduziu-me a um tempo que não gosto muito de lembrar:
A tristeza é quase uma obrigação, pois de forma indireta somos ensinados que Deus não gosta da alegria, ao contrário, Ele se compraz em punir a nós pecadores que nunca alcançaremos Sua grandeza.
Mas não basta ser triste, pois a única tristeza permitida é pelo fato de sermos eternos pecadores em busca do perdão de um deus inacessível.

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