10.4.10

Amo, mas não gosto

Outro dia me criticaram por dizer que não gosto de certa pessoa. Censuraram-me pois eu mesmo havia dito que desejava amar aquele ser humano. Meus críticos taxaram-me de contraditório. Ora, que lamentável. Não entenderam uma das coisas mais simples da vida.

O dilema enfrentado por eles é que, como cristãos, receberam o mandamento de amar o próximo como a eles mesmos. E eu também sou cristão, por isso não compreendem como posso assumir não gostar de alguém.

Minha sinceridade vem da paz que C.S. Lewis trouxe ao meu coração ao dizer:

Aparentemente, portanto, "amar o próximo" não significa "ter grande simpatia por ele" nem "considerá-lo um grande sujeito". Isso já deveria ser evidente, pois não conseguimos gostar de alguém por esforço. Será que eu me considero um bom camarada? Infelizmente, às vezes sim (e esses são, sem dúvida, meus piores momentos), mas não é por esse motivo que amo a mim mesmo. Na verdade, o que acontece é o inverso: não é por considerar-me agradável que amo a mim mesmo; é meu amor próprio que faz com que eu me considere agradável. Analogamente, portanto, amar meus inimigos não é o mesmo que considerá-los boas pessoas. O que não deixa de ser um grande alívio, pois muita gente imagina que perdoar os inimigos significa concluir que eles, no fim das contas, não são tão maus assim, ao passo que é evidente que são.*

Quando li estas palavras, meu alívio foi imenso. Visto que havia em mim sentimentos reprimidos. É duro mentir para si mesmo, não assumir o que se passa em nosso coração. Agora se tornou mais leve meu fardo. Pensar que fulano é um chato de galocha não significa que não o ame nem o respeito como ser humano, apenas que ele de fato é terrivelmente irritante.

E como fica o amar o próximo como a ti mesmo? Em um exemplo prático, posso te dizer que fica assim: algumas pessoas não gostam nenhum pouquinho de si mesmas, rejeitam sua própria aparência, de seus pecados e falhas, ou sua vida simplória e medíocre, determinados indivíduos até chegam a se suicidar de tanto que desgostaram de si mesmos e de suas vidas. Pergunto: eles não se amam? Obviamente que sim, e amam tão fortemente ao ponto de retirar a própria vida a fim de aliviar o seu sofrimento (pensando que tal via lhes oferecerá descanso).

No textos que indiquei, C.S. Lewis é sincero o bastante para dizer que, em determinados momentos em que se autoavalia, vê que não é tão boa pessoa como quanto pode ser um mau sujeito, e que chega a sentir horror e repugnância de certas coisas que faz. Ressalta, contudo, que não deixa de possuir amor próprio.

Não há quem não se ame, mas pode até haver quem não se goste. Daí podemos concluir, sem peso algum na consciência, que podemos amar a todos, mas não preciso forçar a barra para aparentar o que não existe (simpatia, afeto, e interesse).

Posso amar o cara que furtou minha casa, ter misericórdia e compaixão de sua vida, apesar disso não me sairá da cabeça que ele é um homem mau e que possui condutas reprováveis. De maneira alguma, pelo fato de amar este ser humano, passarei a vê-lo com bons olhos.

Esse princípio vale até mesmo para as pessoas com as quais convivemos, as que professam a mesma fé que nós, os nossos líderes, os tele-evangelistas (ah como não suporto a maioria deles) e até comentaristas de futebol... rsrs

Amar ao próximo também implica ser verdadeiro para com ele. O que fugir disso é hipocrisia e falsidade. E isso também é pecado!...

_____________________

* Cristianismo Puro e Simples, Editora ABU, Página 65 a 67. Se quiser ler o capítulo na íntegra, clique aqui.

4 comentários:

Meire disse...

Lembro da acasião em que você foi criticado no PC. Também fui criticada, pois escrevi que amar era uma coisa, gostar, outra.
Mas como esxplicar isso para os fãs do pastor em questão. Nem Jesus poderia argumentar contra o "ungido"...

Roger disse...

Gostei da temática, Beto,
esse é um dilema do contidiano.
No fundo discordo um pouco...
Entendo, ainda que sei que é contra a maré evangélica, que amor é mais sentimento do que gostaríamos que fosse.
Mas o texto é esclarece bem: a partir do amor pode até surgir uma pontinha de misericórdia e simpatia pelos chatões. Isso é o que creio, se você ama, acabará gostando da pessoa de um jeito ou de outro. Mas.. já não é fácil amar, quanto menos, vir a gostar.
Saudações fraternas,
Roger

Humberto Ramos disse...

Meire,

Foi mesmo. Pior que aqueles que nos criticaram, certamente nem mesmo tiveram o trabalho de visitar nossos blog a fim de conhecer melhor nossas idéias.

Sigamos em frente, ainda que levando pedradas... rsrs

Abraços!

Humberto Ramos disse...

Roger,

O melhor de tudo entre nós é que, ainda que em discordância, conseguimos caminhar juntos... rsrsrs

Isso é cristão demais, cara! Quase não conseguimos encontrar isso em nosso meio!

Abração!

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