4.4.10

Sincretismo Evangélico: Absorção ou Retenção?

São fascinantes as pesquisas que se dedicam com esmero em explorar as nuances do sincretismo religioso, em especial o sincretismo na esfera da Cristandade. 

Em se tratando do panorama nacional, pode-se dizer que desde cedo, ao passo em que se construía uma sociedade genuinamente brasileira – um povo resultante de uma série de misturas étnicas, culturais e religiosas –, a fé cristã (especificamente a Católico Romana) teve de duelar com crenças de diversos matizes.

Conquanto a cristianização do Brasil tenha sido inicialmente agressiva, solapando a cultura e as crenças dos índios e, logo depois, dos negros trazidos para trabalharem como escravos, não pode-se falar em vencedor neste duelo. Basta olhar para o cenário religioso brasileiro para perceber a existência de dois tipos de catolicismo. O catolicismo clerical, teologicamente elaborado e dogmatizado, e o catolicismo popular, eivado de superstições e elementos originários dos cultos afroamerindios (não é conveniente tratar aqui o catolicismo liberal, que tem crescido no seio da Igreja Romana).

Sem dúvida, houve uma absorção dos elementos das crenças indígenas e africanas, fundindo-se com o catolicismo português (que já veio com sua parcela de sincretismo). Para verificar tal afirmação, vale a pena dar atenção às celebrações religiosas dos povos do norte e nordeste – não que nas outras regiões também não ocorra o sincretismo, contudo nos Estados que compõem essas regiões nota-se mais fortemente a mistura religiosa gerada.

Na Umbanda, Cristo é Oxalá e Satanás, Exu; São Jorge (Santo Católico), tido como Ogum. Iemanjá e a “Nossa Senhora” (apenas Maria para os protestantes) compartilham o mesmo altar que uma série de divindades. Ao olhar fervoroso dos fiéis, não há menor incompatibilidade entre tais personagens da fé.

Do lado protestante, o seguimento que mais se abriu ao sincretismo foi o movimento pentecostal. Propagando-se entre as camadas mais pobres da população, assim como o Catolicismo, absorveu certos elementos das religiões anteriormente seguidas pelos seus adeptos convertidos. Manteve forte ênfase em operações miraculosas e crença na intervenção sobrenatural por meio dos próprios membros da comunidade de fé, busca por revestimentos sobrenaturais, adoração e louvor com gestos extravagantes e incrível liberdade para gritar, pular e saltar nas reuniões da igreja, etc. Certamente, representa a manifestação mais latina do cristianismo, também chamado de Protestantismo Emocional

Neste processo de sincretismo, um novo fenômeno tem ocorrido. E especialmente no seio protestante-evangélico. Se outrora havia a absorção de elementos de outras religiões, agora nota-se claramente uma retenção destes. O primeiro significava uma capitulação, uma rendição à força da cultura religiosa que o converso cultivara anteriormente; já a segunda refere-se a uma postura intencional visando angariar o maior número de fiéis atraindo-os por meio de códigos e símbolos já assimilados por estes em suas crenças precedentes.

O seguimento evangélico que hoje mais cresce no Brasil é chamado de neopentecostalismo. Seguimento que, procurando adequar-se ao mundo globalizado e plural, até onde se pode perceber, tem decidido investir em uma gama ingredientes encontrados nas esferas mais populares da espiritualidade latino-americana.

Amuletos, objetos sagrados, flores, água benzida (orada ou ungida, na terminologia neopentecostal), a concepção dualista do bem e do mal, e a elaboração de uma teologia superficial sem muitas implicações no âmbito social, mas que na dimensão individual funda-se na relação de troca com o divino. De forma que, contribuindo financeiramente com a Igreja, a benção será concedida. Comparecendo sete sextas-feiras em determinada campanha, o sonho será realizado.

Tal direcionamento é tão notório que nem mesmo carece de exemplos. Uma olhada nos programas neopentecostais na mídia televisiva basta para se ter uma noção de como tem-se desenvolvido essa nova manifestação religiosa.

É curioso que os estudiosos ainda o considerem como sendo parte do protestantismo. Embora possam, de fato, ainda ser chamados de evangélicos, tem-se tornado incabível creditar a eles qualquer ligação essencial com o protestantismo. Uma vez que as suas ênfases teológicas rumam de encontro com tudo aquilo defendido pelos reformadores.

As novas liturgias, em tons de encenações, profundamente simbólicas e a mistificação de palavras, gestos e objetos, destoam por completo do caráter iconoclasta das igrejas protestantes. Em outras palavras, o protestantismo inicial posicionou-se radicalmente em relação a qualquer prática supostamente oferecesse ao crente qualquer vantagem diante de Deus ou servisse de moeda de troca para fins de recebimento de bênçãos.

Com base na carta de Paulo aos Romanos, na qual o apóstolo declara que “o justo viverá pela fé”, Lutero e os seus sucessores defenderam a salvação se dá por meio da fé, manifestada pela Graça de Deus, procedendo dela mesma todo e qualquer presente divino.

No que tange exclusivamente ao fenômeno religioso em questão, e seu sincretismo, é importante ressaltar a visível rota de ruptura que o neopentecostalismo tem realizado em relação à sua raiz originária.

Para fins de identidade grupal, aos protestantes é conveniente estabelecer-se oficialmente esta distinção, de maneira que não sejam confundidos com estes nem tampouco estes com os protestantes.

Não fazendo juízo de valor bíblico neste ensaio, apenas sugiro atenção à direção tomada pelo neopentecostalismo. Pois, com o surgimento de novas denominações desta linha, e sua formulação de uma estrutura teológica e organizacional completamente novos (e constantemente mutantes), certamente podem suscitar aos menos informados uma idéia confusa, até mesmo viciada, do que seja o protestantismo; sem contar que, em não havendo um refortalecimento do protestantismo tradicional, corre-se o risco de que todo ele se capitule à força atrativa e poderosa das igrejas neopentecostais. Se é que este processo já não ocorre silenciosamente.

2 comentários:

Meire disse...

Tenho esperança de que existam 7 mil que não se dobrem à esse movimento.

Meire disse...

Sempre existirão 7 mil que não se dobrarão diante desses absurdos.

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