19.5.10

Desafiando a escravidão tecnológica

Uma vez havendo lançado mãos da tecnologia, dificilmente podemos prescindir dela. Será possível nos manter livres e dissociados das cada vez mais cativantes e confortantes invenções, aplicando ao seu uso a princípios éticos básicos e universais, além de não perder nossa humanidade?...

Terminei o texto anterior dizendo que “dominar todas as coisas sem jamais ser dominado por elas” é o nosso grande desafio enquanto sociedade pós-moderna. A bem da verdade, esse sempre foi um grande desafio para humanidade. Visto que nossa inclinação para o mal parece nos deixar à mercê de toda sorte de escolhas e comportamentos degradantes tanto ao nosso espírito quanto ao nosso corpo.

Retomando a pergunta inicial, quero antes ressignificar a palavra “livres” para fins de seu uso em nossa reflexão. “Livres” aqui não significa absolutamente independente de qualquer coisa. Deve apenas ser entendido como a possibilidade de exercer arbítrio. A capacidade volitiva de rejeitar algo desde que este algo já não atenda mais nossas necessidades sem violar nossa humanidade.

Somos homens, e não máquinas. Nossa interação com qualquer tipo de ferramenta como instrumento para a resolução de problemas da vida não deveria passar de uma mera eventualidade cotidiana. Não obstante, parece-me (e se eu estiver errado me corrija!) que incorporamos as ferramentas ao nosso próprio corpo.

Um garoto que durante a maior parte do dia não desliga seu fone de ouvidos já parece ter um novo órgão, o fone. Seu ouvido “evoluiu” para algo mais complexo. Da mesma forma o computador; há quem não o desligue mais. Chegam a usá-lo de dia, de tarde, de noite e, muitas vezes, até na madrugada. O celular nem se fala. Alguns até têm medo de desligá-lo, sentindo-se desprotegidos. Ou pior: em desligando-o em algum momento de descontração ou de privacidade, estejam de fato perdendo alguma boa oportunidade da vida.

Não há paz para aqueles que acoplaram a tecnologia aos seus corpos. Não há descanso. Não há lazer exclusivo. Não há liberdade para se desligar. Afinal, há uma infinidade de aparelhos ligados em seu ser.

Alguém pode até dizer que sou contra o avanço tecnológico. Mas isso não é verdade. Conhecendo o ser humano – e com um conhecimento de causa, obviamente, visto que primeiro analiso a mim mesmo –, afirmo que apenas que temo pelos rumos que podemos tomar. Ou que já estamos tomando.

Juntamente com as avançadas invenções surgem os dilemas éticos, as questões de como vamos utilizá-las, para que, e para benefício de quem. A informatização, por exemplo, solapou os mais tradicionais conceitos de privacidade. Hoje temos acesso à vida, ou pelo menos às informações em tempo real da vida de diversas pessoas por meio das redes de relacionamento.

Temos a faca e o queijo nas mãos caso decidamos agir de forma reprovável diante do próximo. Estamos virtualmente armados, podendo ferir literalmente quem quer que seja desde que dominemos as novas tecnologias e tenhamos uma má índole. E quando não ferimos a outrem, eventualmente ferimos a nós mesmos, desumanizando-nos e deixando de lado coisas simples que outrora constituíam parte essencial da vivência humana em sociedade.

A comunhão, os trabalhos em grupo, o calor humano, a presença calorosa de um amigo... parece que tais coisas estão se extinguindo diante das sociedades cada vez mais dotadas de tantas facilidades tecnológicas.

Em contrapartida, há vestígios de pessoas que decidiram nadar contra a correnteza. Tentando viver de forma sóbria e sábia, aproveitando o melhor dos avanços científicos mas sem perder a alma. Esses são os grandes desta geração. Espero que eles consigam re-humanizar a humanidade, e espero também ser um dentre os grandes!

Nenhum comentário:

Related Posts with Thumbnails