29.6.10

Dogmatismo e intolerância


Algumas pessoas ficam conhecidas pelo seu zelo religioso, muitas delas pelo zelo com que cuidam de suas vidas e, infelizmente, com o que se dedicam à vida alheia. Perseguem a heresia. Tenta reconhecer possíveis hereges no seio da congregação. Em outras palavras, não sei se chegam a ter uma espiritualidade particular com Deus, visto que se empenham tanto no exterior que acabam esquecendo-se da subjetividade e privacidade do relacionamento com Eterno.

O grande problema do dogmático é sua clara intolerância quanto ao “como” se crê. Para estes, que podemos chamar também de fundamentalistas, a salvação depende do entender corretamente. Não basta dizer que se crê em Jesus, filho de Deus, encarnado, morto e ressurreto. Isso tudo é superficial, não sendo nem mesmo tão importante a convicção pessoal de que se esteja relacionando com Jesus. Afinal, até onde eles conseguem chegar, só se pode haver um relacionamento com Jesus a partir de um correto entendimento de um corpo de doutrinas que, nem sempre – como se pode notar – fora deixado de fato por Jesus ou pelos Discípulos.

Rubem Alves, um alguém inteiramente desqualificado como ponto de apoio para este texto na análise de qualquer fundamentalista (visto que dos hereges, este é o maior em vida!), ele diz em seu livro Religião e Repressão que, se na Igreja Católica o Magistério possui o monopólio da interpretação das Escrituras, nas Igrejas Protestantes a legitimidade é das Confissões. Isso embora se propale intensamente o livre exame. E alguns dirão com “muita propriedade” que de fato a reforma propôs o livre exame, mas não a livre interpretação das Escrituras. Uai, de que adiantaria então, não seria trocar seis por meia dúzia. Se a reforma propôs isso, propôs uma heresia.

De qualquer maneira, sempre que entro em alguma comunidade cristã situada em bairros pobres, formada por gente simples, às vezes iletradas, às vezes não dotadas de capacidade de interpretação ainda que alfabetizadas, percebo que Jesus teima em agir em e através de pessoas que não conseguem nem mesmo saber o que significa predestinação, por exemplo. Ah, não falo da doutrina, falo da palavra segundo o nosso Aurélio ou o Houaiss. Coitados, certamente terão muita dificuldade em compreender esse lance de 5 pontos, Soberania de Deus em detrimento da Liberdade Humana, Arminianismo, Milenarismo etc. e tal.

Não vejo problema em ensinar essas coisas, em dialogar com elas sobre isso. Só estou convicto de que, uma vez percebido que tais coisas não entram na cabeça dessas pessoas, não há necessidade alguma de ficar batendo na mesma tecla a fim de enfiar cabeça adentro tais ensinamentos – que de simples nem mesmo o nome têm.

Outra coisa é fato. Se nem todos têm condições de entender, e se de fato Deus está a operar nestes meios, podemos concluir que toda essa bagagem pode até ser dispensada, sem maiores problemas. Esses temas, por incrível que pareça para alguns “novatos”, são peculiaridades do meio intelectual evangélico. O povão só quer saber de que: “Deus está no controle”; “Deus é quem salva”; “Deus é amor”; “Deus é justiça também”; “Jesus vive”; “O Senhor é meu pastor” e outras expressões características das pessoas que pouco entendem de teologia, mas que muito vivem o Evangelho na prática.

Infelizmente, o seguimento cristão adepto do “crê corretamente e serás salvo” parece não compreender a complexidade da vida humana, as limitações intelectuais, sociais, culturais e biológicas que afetam a cada pessoa. Os partidários do “crê corretamente” esquecem-se de que, para Jesus, o que vale mesmo é o “crê somente”. Isso e nada mais! O resto é motivo para se investir em discussões que, passados séculos, não evoluíram um centímetro sequer.

Espero que para você, meu leitor, creio no Evangelho anunciado por Jesus e nas Epístolas do Novo Testamento, já lhe servindo como ensinamentos básicos e essenciais para o bom fluir da vida cristã pessoal e comunitária.

2 comentários:

Meire disse...

O "crer corretamente" é uma selva de mata fechada, onde a luz que penetra mata adentro não é suficiente. Mas os habitantes dessa mata, acostumados a pouca luz, imaginam-se os mais iluminados.
No entanto, não consigo compactuar com certas "definições" que fizeram de Jesus, sendo as mais tristes que lembro no momento: "Um ser de luz", "Um espírito evoluido", "Dono do ouro e da prata", "Gênio da lâmpada mágica", e a lista é infinda...
Confesso que tenho algumas restrições ao Rubem Alves, mas não jogo na lata do lixo tudo o que ele escreve.
Ontem li algo do Mia Couto que discordei, mas não abro mão de ter ao meu alcance suas obras.

A vida devia ser assim, somar conhecimento e experiências para a evolução do ser, mas muitas vezes preferimos crer não ser possível aprender com quem pensa diferente.

Humberto Ramos disse...

Meire, infelizmente nossa arrogância intelectual nos impede de aprender com aquele que se apresenta de forma diferente.

E mais, por vezes tratamos conflitos de idéias no campo da pessoalidade - o que é péssimo e só denota desequilíbrio emocional.

Mas é isso. A gente vai vivendo, caminhando e aprendendo. Apenas não podemos deixar nosso coração secar, ainda que seja por razão de uma pretensa ortodoxia.

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