16.6.10

Teísmo Aberto?

Outro dia um amigo me mandou um texto sobre o chamado “Teísmo Aberto”, o qual, em síntese, “se faz acontecer” sob a pretensão de alguma relevância, em razão do velho conflito entre a Soberania de Deus e a Liberdade do Homem. Sendo que, em tal caso, as noções de “soberania divina” são aquelas de Calvino (ainda Calvino...) e as supostas contradições que tal teologia apresenta acontecem frente ao conceito calvinista de Soberania em contraposição à Liberdade Humana. 

Ora, tal(tais) conflito(s) é(são) o fruto da visão do século passado acerca do que a Psicologia (especialmente ela entre todas as ciências) demonstrou ao abrir muitos dos processos decisórios humanos, incluindo traumas, comportamentos à revelia; e os aspectos de natureza conjuntural, mas que afetam o psiquismo das pessoas, gerando comportamentos que não são nada mais que fenômenos da alma. 


Além disso, do ponto de vista do “Teísmo Aberto”, tem que haver uma síntese entre a tal “soberania divina”, de um lado, e, do outro, a “liberdade humana”. E, nesse caso, o “Teísmo Aberto” seria a “síntese”, pois, em tal perspectiva, Deus e o Homem são co-autores de suas histórias: a História de Deus sendo afetada pelo homem e a história do homem sendo afetado pela História de Deus. 
Assim, Deus e o Homem tornam-se sócios no tecer da História que lhes é comum. E, a partir disso, Deus já não diria ao homem algo como “sem mim nada podeis fazer”, pois o homem diria de volta: “Sem mim também, o que farás?” 


E mais: assim como o homem aprende com Deus, Deus também, em tal perspectiva, aprende com o homem. 


Ora, eu usei de propósito a palavra “história” aplicando-a a Deus e ao homem, em razão de que no “Teísmo Aberto” a questão é posta de tal modo que somente a simplificação do conceito de História como evolução do existir no tempo e no espaço, é que pode descrever a basicalidade da reflexão e do problema.

 
Os equívocos são muitos em tal elaboração. Sim! Começando do fato de que se pretende criar um arcabouço filosófico-teológico que torne ambas as coisas (Soberania e Liberdade) palatáveis para o gosto contemporâneo. Entretanto, não podendo me estender no tema agora, todavia, quero apenas dizer que o maior de todos os equívocos dessa “teologia” vem das noções equivocadas de Soberania e Liberdade. Isso porque a “soberania” discutida ainda é aquela de Calvino, criada no tempo em que soberania tinha no Rei a sua manifestação; e a “liberdade” tinha na decisão do homem de se rebelar contra a “soberania” a sua expressão, assim como camponeses se insurgiam contra o déspota. 


Primeiro devo dizer que é total pobreza trabalhar com tais categorias históricas como tendo qualquer que seja a relação a ver com Deus. Sim! Porque Deus não é um Monarca, nem um super-rei, nem um soberano. Além disso, o homem não é livre, e a liberdade não é conhecida pelos humanos — não por causa de Deus, pois a prisão do homem é ele próprio. 


Assim, nem se sabe o que é Soberania de Deus, nem tampouco se sabe o que é liberdade — posto que nenhum de nós jamais conheceu nenhuma das duas coisas, e nosso labor de pensamento quanto ao tema é apenas fundado nas primitividades históricas às quais os termos em questão se fazem vincular. 
O fato é que Deus é Deus. E o homem é o homem. E o que Deus faz como soberania não é nem mesmo detectável pelo homem. E o que o homem desejaria saber de liberdade só é por ele conhecido como rebelião e capricho.


Deus é. O homem está sendo. Deus é; sendo Alguém para além da própria Existência. O homem, todavia, não é, mas apenas passa a ser sendo; portanto, existindo. Deus preexiste à existência. O homem, todavia, só existe por causa da existência. 


“Teísmo” é sistema humano, como todos os “ismos” filhos das sistematizações. Trata-se de mais uma tentativa humana de adaptar Deus aos paladares modernos e tolos. 


Dizer “Teísmo Aberto” pressupõe o “Teísmo Fechado”, e que seria o Calvinista. O que existe de fato não é nem uma coisa nem outra. Há Deus. Existe o homem. Deus não é “ismo”. E nenhum “ismo” tem a ver com Deus, mas apenas com o homem. 


Portanto, melhor seria chamar a “coisa” de “antropoteísmo aberto”. Sim! Pois é apenas disso que se trata em tal reflexão. Assim, como algo relativo ao homem é admissível a reflexão. Afinal, o homem pode, no máximo, falar de si mesmo. Entretanto, quando a pretensão é explicar Deus em relação ao homem e à existência, a sabedoria das melhores palavras se converte em estultícia. 


O “como” de todas as coisas não está aberto para o entendimento humano. Aquele, porém, que conhece a Deus, sabe que não há meios e nem palavras possíveis de serem usadas para explicar o que o coração, na síntese do inexplicável feita pela fé, conhece, embora não entenda. 


Quem diz que com essa ou aquela teologia conhece a Deus, engana-se a si mesmo, pois qualquer teologia apenas fala do homem, e nada revela de Deus. 


Assim, quando leio sobre o “Teísmo Aberto”, entendo a alma e os conflitos de seus proponentes, mas nada fico sabendo de Deus mesmo, posto que Ele está para além de qualquer “abertura” a Ele concedida pelo presunçoso pensar humano.


Pense no Caminho!



Caio Fábio é pastor, escritor e mentor do Caminho da Graça
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Sobre Soberania Divina x Liberdade Humana, veja Teísmo Aberto II

3 comentários:

Roger disse...

Oi Beto,

você não imagina como fiquei feliz ao ler esse texto e chagando ao final ver que não era seu mas do Caio! Odiaria ter que discordar tanto de você!!

O Caio, a meu ver, peca nessa coisa de "Deus não existe, mas é". Escrevi isso nessa semana ou na passada. Deus é, e existe. Se Ele não existia, em Jesus, passou a existi.

Como já postei também em outra ocasião, não entendo muito de teismo aberto, ou calvinismo... mas parece que nesse aspecto o Caio acertou na pinta.

Entre um extremo e outro, tendo porém, depois de uma overdose de 500 anos de calvinismo, para o outro lado.

Abraços,

PS: deixei umas perguntas para o Leo, no púlpito cristão.

Meire disse...

Não lembro bem onde li esse texto, porém tratei logo de publicá-lo em meu blog.
Ao meu humilde paladar, esse texto foi o mais elucidativo sobre o tema Teísmo Aberto.


Fiquei bem triste com o ruido de comunicação entre você e o Leo do PC, ambos tem o meu apreço e respeito.

Humberto Ramos disse...

Roger,

Você é um figura mesmo! rs

Não sei por que acabo sempre entrando nestas discussões... elas não levam mesmo a lugar algum. Como o Caio diz, nada disso existiu em importância para Jesus.

Na verdade, essas discussões servem sim para algo: elas geram o espírito do "nós-contra-eles".

Infelizmente, é assim!

Embora eu não tenha escrito esse texto, eu assino embaixo de quase tudo o que o Caio diz nele... rsrsrs

Meire,

Sinto profundamente pelo tom da discussão. Quem quer que ler os comentários verá que, inicialmente, apenas discordei. Tentei interpelar para ouvir explicações, argumentos.

No entanto, acabei sendo jogado no mesmo saco que aqueles a quem se criticava no texto.

Mas já passou. Do que depender de mim, permaneço como sempre estive aqui no meu blog. E quem me acompanha sabe qual é o meu jeito de ser...

Obrigado pela presença sempre constante!

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