22.7.10

Vida Interior

Já vi diversos anúncios de livros especializados em vida devocional. Até cheguei a ler alguma coisinha e outra sobre o assunto. É inegável a importância de tal literatura e, obviamente, das práticas devocionais.

No entanto, gostaria de encontrar alguma literatura que fornecesse dicas práticas sobre como conseguir manter uma vida marcada por momentos de devoção e solitude reflexiva.

Deus sabe o quanto acho tudo isso lindo e maravilhoso. Basta ler algo sobre lectio divina, oração contemplativa, oração e jejum ou qualquer outra disciplina dedicada à meditação para eu ficar com água na boca.

Sinto-me como quem vislumbra, distante, uma churrascaria e, apesar da distância, consegue mirar algumas peças de picanha ardendo deliciosamente no fogo. O exemplo pode até ser esdrúxulo, mas acho que é bem esclarecedor. O problema é que, conquanto eu veja a refeição, sinta-me atraído e cheio de vontade de me saciar nela, não consigo partir para o finalmente.

Enfim, não chego nem a adentrar no estabelecimento para poder mirar mais de perto – e pelo menos sentir o cheirinho – da deliciosa refeição. Fico apenas com água na boca, e bem de longe...

Não que eu nunca tenha experimentado uma vida devocional. Ah, sim, já provei disso. Mas preciso confessar: estou um pouco afastado deste refeitório celestial (se é que me entende!?).

Outra coisa: muito embora eu reclame não conhecer literatura alguma que nos ensine “o como chegar lá”, sei que não adiantaria muita coisa – pelo menos é o que penso por hora. Não creio muito em receitas prontas. Principalmente quando se trata de uma questão de força de vontade e disposição (isso sem falar na mãozinha divina intervindo em nosso favor, conduzindo-nos por caminhos pelos quais geralmente não escolhemos ir).

De vez em quando Deus nos encurrala (ou permite que nos cerquemos) em algumas circunstâncias nas quais não temos outra escolha senão depararmos-nos com nós mesmos na profunda e silenciosa realidade de nosso ser interior. No silêncio, encontramo-nos com nossa imagem refletida num espelho, o espelho da alma.

Essa é, sem dúvida, uma das mais importantes realidades da nossa vida. Justamente porque é ali, no interior do nosso ser, que visualizamos aquilo que somos, encontramos-nos com nosso eu ou até mesmo nossos “eus”, e por fim, encontramo-nos com o próprio Deus.

E alguns podem até dizer que, se não temos vida interior, é porque não temos nos relacionado com Deus. E estamos distantes dele. Bem, pode até ser isso. Só que deve ser um pouco mais complexo do que isso também – assim como a maioria das coisas na vida.

Se não me silencio objetivando um encontro comigo mesmo, antes de estar distante de Deus estou bem longe é de meu próprio eu. Acabo dissociado de meu próprio ser, dividido entre necessidades, desejos, esperanças e frustrações, sem ao menos haver conexões satisfatórias entre elas que possam germinar em minha consciência escolhas e decisões sólidas que me conduzam a algum objetivo. A bem da verdade, acaba não havendo objetivo algum.

Dessa maneira, podem haver vários “eus” dentro de mim, sem a menor comunhão entre eles. Cada um focado em uma coisa, e o pior de tudo, a gente às vezes nem se dá conta dessa realidade.

Esse ser distanciado de si geralmente é característica de quem sabe que tem pendências a acertar consigo mesmo, mas não possui muita coragem para uma resolução. É também sinal de quem não anda se suportando, de quem tem se visto com olhos um tanto pejorativos, de desprezo e até rejeição.

Nesse estágio, a coisa já está bem feia. E daí podemos nos perguntar algo mais importante: E o distanciamento de Deus, onde ele fica nessa história? Agora acho que a resposta é mais simples. Esse tipo de distanciamento é resultante da ausência de vida interior, de encontros consigo mesmo. Afinal, o ser que não tem coragem de se apresentar diante de sua própria imagem, porventura, terá coragem de estar diante de Deus?

Traduzindo: Deus habita nossa alma, nosso coração, e ele pode permanecer lá uma vida toda sem que consigamos nos comunicar satisfatoriamente com ele (ou talvez ele não fique lá por tanto tempo a esperar...). Pois bem, se eu (e talvez você) nunca me dou um tempinho para passear nos recônditos de minha alma (e você na sua!), não o encontrarei. Quando queremos achar alguém, devemos ir até onde esta pessoa está.

Nesse caso, eu e Deus (você e Ele), estarão coincidentemente no mesmo lugar: na esfera da alma, da vida interior.

Tenho algumas suspeitas de que o que faz com que nos autodepreciemos ao passo de fugirmos de um contato íntimo com nosso eu está ligado a culpas, baixa autoestima, perfeccionismo doentio, pecados mal-resolvidos, incompreensão da Graça e do Perdão de Deus (que acolhe a todos, até os piores pecadores) e uma autoimagem distorcida, dentre outras coisa mais.

Isso tudo é o que gera a doença da dissolução do ser, da fragmentação da consciência e resulta num estado de desespero (para mais sobre o tema, indico a obra de Sören Kierkegaard: O desespero humano). Pior doença não há, mas esta é passível de cura, e aí estamos novamente falando de vida interior, pois a cura é também uma cura interior.

Mas já me demorei na conversa, e sem ter a petulância de sugerir alguma fórmula mágica de como se encontrar com você mesmo, encerro por aqui. Afinal, acho que já passou da hora de eu ter um encontro comigo mesmo, a sós, bem quietinho. Até mais!

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