5.8.10

As novas rupturas eclesiásticas e a negação da bagagem histórica

 
 Continuando a conversa  Sobre quem vai e quem fica

 

Há algum tempo atrás escrevi um texto falando sobre a falta de diálogo e compreensão entre os grupos de irmãos que optaram por permanecer nas igrejas institucionalizadas e aqueles que decidiram sair em busca de uma espiritualidade pautada por maior leveza e informalidade.

Geralmente escrevo sobre o que me incomoda. E o que está me incomodando nos últimos dias são algumas percepções que tenho tido em relação aos grupos caseiros, informais, emergentes, ou como queiram se autonomear.

Notei que em muitos destes grupos tem-se alimentado certa ojeriza por tudo aquilo que venha ou faça menção às igrejas institucionalizadas. E com isso, chegam a desprezar também uma enorme bagagem adquirida durante o desenrolar de toda a história da Igreja Cristã.

É inegável que as instituições eclesiásticas têm corroborado para que se suscitem vários questionamentos acerca delas e que nem tudo na história da Igreja deve ser respeitado, admirado nem conservado. Contudo, isso não é razão para que se despreze a integralidade do legado transmitido durante séculos e que hoje foi entregue a nós.

Há livros, biografias, disciplinas espirituais, sabedoria, práticas desenvolvidas pelas igrejas cristãs e diversas tradições que de modo algum devem ser rejeitadas. E isso sem divinizar ou entronar essa bagagem com o status de revelação, mas apenas como reflexos das experiências do homem com o divino, da Igreja com o seu Senhor.

Infelizmente, coisas idiotas como a utilização de um retroprojetor, ou  um data show, ou mesmo um pequeno púlpito na reunião é motivo para se levantar celeumas. E mais, na ânsia por uma espiritualidade livre, que se amolda ao querer do Espírito Santo, outros rejeitam totalmente uma ordem de culto. Abandonaram qualquer liturgia, logo não aceitam que haja uma mensagem preparada, momento específico para louvor, leitura da Bíblia ou mesmo oração.

Ora, também sou a favor de flexibilidade litúrgica nas reuniões. Mas não nego que ordem e decência podem contribuir e muito para o bom andamento dos cultos. Paulo mesmo chegou a instruir aos coríntios acerca de como deveriam se comportar nos cultos. Não é errado seguir uma sequência, assim como não é errado não segui-la. Porém, sacralizar uma ou outra opção, isso sim é errado!

E ainda há mais, a “templofobia” e a “numerofobia” tem se apresentado como o oposto extremo da “templolatria” e da “numerolatria”. Se em algumas igrejas o templo está absolutamente identificado com a concepção veterotestamentária do local de culto (isto é, já se constituiu em local sagrado), aliando-se a isso a uma tara doentia por crescimento numérico, nas comunidades alternativas, por sua vez, tem-se desenvolvido uma aversão feroz a toda e qualquer forma física que remeta a um templo, bem como têm encontrado dificuldade para alcançar os não-crentes, aqueles que não tiveram contato algum ou pelo menos significativo com a fé cristã.

Nessas comunidades, o crescimento se manifesta como resultado daquilo que na sociologia da religião é chamado de trânsito religioso; e que no linguajar dos religiosos de plantão é denominado como “pescar em aquário alheio”. Indivíduos insatisfeitos são o alvo principal de algumas comunidades emergentes, até porque são naturalmente atraídos pela informalidade e “novidades” apresentadas pelas novas igrejas. Não interessa como chamaremos o fenômeno, mas é importante notar que tais comunidades mostram-se profundamente deslocadas quanto às práticas evangelísticas. Negam-se a repetir os padrões e os modos anteriormente praticados em suas igrejas, mas também não possuiem uma nova proposta.

Não se pode esquecer também da síndrome da última bolacha do pacote. Ninguém rejeita uma tradição religiosa sem que se enxergue como sendo recebedor de uma nova revelação, ou até mesmo de uma possível última revelação que é entregue para complementar aquilo que fora dito anteriormente por Deus.

Assim, passa-se a rejeitar os degraus já pisados. E em se tratando da fé cristã, com aproximadamente dois mil anos de história, possuidora de diversos mártires, sábios, mestres e líderes insignes, negar o passado significa romper. Contudo, não rompem somente com uma instituição, com uma história, ou com uma religião, mas também com pessoas, as quais deveríamos ter como nossos irmãos de fé – pois se esforçaram ao máximo a fim de que o Evangelho chegasse até nós.

É inaceitável imaginar que hoje alguém compreenda plenamente toda a revelação de Deus e que no decorrer da história cristã todos os nossos irmãos estivessem limitados em sua visão. Acredito diferente, penso que cada um vivenciou e recebeu a revelação de Deus, apresentada preferencialmente no Evangelho, segundo a luz que recebeu e segundo às experiências e clamores de seu próprio tempo.

Todos, sem exceção, somos condicionados bio-psico-sócio-espiritualmente, sendo que por essa razão foi-nos imposta uma necessidade imanente: o nosso próximo. De forma que, ninguém é completo em nada, e todos precisamos uns dos outros para aprender. E aprendemos inclusive com aqueles que viveram antes de nós.

E quero aprimorar algo que comentei no texto anterior. Quando, ao me referir à frase de Jesus na qual ele diz que “não devemos pôr vinho novo em odres novos” vinculando-a à questão da forma, talvez não tenha sido claro. Muito antes de influenciar na forma através da qual a igreja venha a se manifestar, o Evangelho – que é o vinho novo – atinge nossos corações. Por conseguinte, pode até alterar a forma, o jeito, a maneira, a estrutura. Mas isso é trivial diante do fato de que as Boas Novas nos concedem, acima de tudo, uma nova consciência.

Assim sendo, não temos uma nova Lei nem tampouco uma nova Moral. A Lei e a Moral são as mesmas – como disse acertadamente o pastor Ed René, em uma de suas mensagens. O que de fato temos é uma nova maneira de olhar para a Lei. E isso culmina muitas vezes na desobediência dessa Lei a fim de que possamos obedecer ao Espírito da Lei.

Portanto, lamento que alguns irmãos estejam jogando fora a “água suja do banho juntamente com o bebê”. Lamento muito, mas não sem temor e tremor. Já que estamos todos inclinados aos extremos. Todos estamos sujeitos a nos sentirmos donos da verdade absoluta. E isso, no meio da religião, é quase regra. A religião geralmente nos induz à ideia de “nós e eles”, que pode também ser traduzida por “nós contra eles”, ou mesmo “nós, dentro; eles, fora”.

Muitas outras coisas podem ser tratadas, como os dons, ministérios e a manifestação da igreja na sociedade em que ela existe; temas que também têm sofrido distorções em sua compreensão devido aos traumas vivenciados pelos antigos participantes das igrejas formais. Uma vez que na ânsia da transformação, infelizmente o que se tem visto é apenas uma ausência de identidade, falta de direcionamento comunitário e, em longo prazo, o esfriamento dos relacionamentos interpessoais, resultando na falta de comprometimento com o grupo do qual se faz parte – versão religiosa do individualismo que impera em nossa sociedade – e até mesmo na extinção das novas congregações.

2 comentários:

Felipe disse...

Falaste algo que há tempos queria ver alguém falar! Em meu círculo religioso, sempre se impôs a idéia de que o indivíduo deve "conhecer a Bíblia por si mesmo" e desconfiar dos outros, das outras interpretações, da tradição construída! No fim, a verdade passa a ser algo meu e de mais ninguém. Mais do que natural que surgirão disso bilhões e trilhões de interpretações diferentes, cada uma arrogando para si o status de verdade.
Abraços!

Humberto Ramos disse...

Felipe, é bom saber que outras pessoas também pensam assim, e que há uma confluência de ideias.

Não espere outros falarem, fale você também. Somente pelo diálogo aberto e franco conseguimos apelar à consciência das pessoas, e a escrita contribui profudamente com este processo.

Abraços.

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