31.8.10

Malandragens eleitorais

Nada aproxima mais os políticos brasileiros ao povo quanto o clima gerado pelo período eleitoral. As comunidades carentes são visitadas, os estabelecimentos comerciais e as feiras se transformam por conta do fuzuê causado pelas visitas inusitadas dos candidatos . Tudo em prol de alguns votos. Sem um pingo de vergonha na cara, os candidatos passam a fazer por alguns poucos meses aquilo que não farão jamais durante anos.

Não bastasse essa demagogia descarada, seus comitês levantam “voluntários” para cooperar com suas campanhas. Daí vemos o que temos visto nas ruas e avenidas das nossas cidades. Um sem-número de homens e mulheres (principalmente elas) empunhando bandeiras, faixas e cartazes com a foto, numeração e nome de seus futuros representantes.

A gente se depara com isso em todos os anos eleitorais, mas nunca para pra pensar o que tais coisas representam. Basta olhar calmamente para a face sofrida desses cidadãos para perceber sua pobreza – material e intelectual. Gente simples, necessitadas economicamente, e que se sujeitam a esses humilhantes serviços por pequenas quantias em dinheiro apenas por falta de opção.

Se a política fosse mais séria, os candidatos ficariam constrangidos em oferecer essas tarefas em troco de uma merreca. Na verdade, apontariam essa realidade como um diagnóstico de como as coisas ainda não estão tão boas assim. Nenhum cidadão em condições mínimas de dignidade social se submeteria a esse tipo de atividade, a menos que por ideologia partidária – o que é raro no Brasil.

No entanto, eles não se contentam em repassar esse “trabalho” aos eleitores, mas também incentivam a prática da compra de votos camuflada como forma de pagamento ao “serviço prestado”. Instigam os líderes de bairro e demais personalidades influentes das comunidades a se corromperem pela via do suposto trabalho eleitoral.

Uma amiga, missionária, pessoa muito conhecida e respeitada em um bairro carente aqui de Cuiabá, recebeu a proposta de receber uma grana para angariar colaboradores de campanha. Pelo que ela me contou, estando o dinheiro em suas mãos, ela repassaria aos voluntários o quanto quisesse e poderia ficar com o restante para si. Ela não aceitou!

Ora, esse tipo de coisa não constitui uma mera compra de votos, mas também uma instigação à corrupção desde as camadas mais baixas da população. Praticamente, é dado ao líder comunitário condições para que alicie as pessoas e se beneficie “malandramente” desse trabalho, ficando com a quantia que lhe aprouver.

Penso não ser necessário argumentar a favor de uma reformulação das leis eleitorais. Proibir as campanhas da forma como elas ocorrem exigiria dos políticos mais criatividade e movimentação durante a campanha. Infelizmente, ainda não seria a garantia de que haveria lisura e ética nas eleições, já que a compra de votos parece ter se transformado numa tradição da política nacional. Porém, as mudanças ocorridas lentamente na política brasileira acabam por gerar em nós um pinguinho de esperança e fé de que nem tudo está perdido.

Se hoje há a Lei da Fixa Limpa, temos que nos alegrar e nos motivar, ainda que o cenário político não seja dos melhores, resistir à corrupção e aos desmandos dos governantes é dever de cada cidadão; acreditar sempre no melhor, uma postura revolucionária. Sigamos adiante, acreditando, sonhando, e acima de tudo, lutando pelo melhor!

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