12.8.10

Uma igreja séria



Algumas conversas suscitam em nós sentimentos inusitados. A coisa é espontânea. Uma afirmação, uma pergunta, um olhar ou algum som emitido de forma distinta podem nos atingir drasticamente e gerar em nós reações inesperadas.

Essa semana foi assim comigo. Uma amiga me perguntava sobre a vida, trabalho e igreja, ao que lhe respondi sobre tudo. Quando mencionei sobre como andava meu envolvimento com a igreja, e esqueci-me de dizer qual era, de pronto veio a pergunta: “mas você faz parte de uma igreja séria, neh?”

De todas as indagações, essa não era esperada. Afinal, a jovem amiga me conhece bem o bastante ao ponto de ter um mínimo de noção acerca dos “lugares” nos quais eu piso (pelo menos eu assim acreditava). Mas aconteceu, não tinha como fugir, a pergunta estava ali, na tela do computador, feita via Messenger. Pensei em responder rapidamente que “cansei de igrejas sérias, agora só frequento igrejas cômicas, de preferências aquelas bem palhaças”.

Infelizmente, minha criatividade não já estava ativada no final da noite, então não deu. De qualquer forma, fiquei intrigado. Notei que ela ainda interpreta as coisas da religião a partir de padrões antigos e já ultrapassados. Os quais diziam que, se for escolher uma igreja, procure a mais antiga, que tem alguma tradição histórica e de preferência uma com formas bem rígidas. E por fim, cuidado, muito cuidado com as igrejinhas de porta de garagem!

Hoje nada disso tem sentido. O curso tomado pelo cristianismo evangélico brasileiro é tão complexo, confuso, admiravelmente patológico e bizarro, que a corrupção, falta de ética, a picaretagem e a deslealdade permearam também – lamentavelmente – até as igrejas antes tidas como uma certeza de “seriedade”.

Se de um lado temos a falta de escrúpulos e ganância dos neopentecostais, por outro lado há também a deslealdade e empáfia dos tradicionalistas, autodenominados como defensores da ortodoxia. Estes últimos, para defender suas crenças, sobrepõem o zelo doutrinário à vida humana e aos relacionamentos interpessoais.

Outro dia, um jovem missionário foi convidado a se retirar de um instituto bíblico. As alegações para o ato foram diversas, até plausíveis, para aqueles que gostam de seguir os trâmites e a burocracia das instituições. Mas no final da história, todos sabiam que o grande motivo (uma razão escondida por detrás dos argumentos apresentados) era o suposto perfil pentecostal do rapaz.

É assim. Em nome da “limpeza” doutrinária, faz-se uma eugenia intelectual. Intelectual porque, se você não aceita a cartilha confessional dos guardiões da sã doutrina, você está fora. Para eles o lema é: “crê certo, adequadamente, e serás salvo”; muito ao contrário de “crê no Senhor Jesus e serás salvo”. E mais, em nome de uma suposta uniformidade de pensamento, rejeitam-se aqueles mais fracos, que não tem por trás de si nenhum figurão da denominação. Isso porque os figurões, mesmo pensando diferente, têm certa liberdade para viver sem aporrinhações – e, claro, também aqueles que os acompanham.

Então, voltando ao lance da igreja séria, o que seria mesmo uma igreja séria? Como verificar isso? Pela idade dela, ou melhor, pela idade do templo em determinado local? Ou será pela tradição a qual ela está vinculada? Pelo número de reuniões na semana? Talvez pela liturgia, que tal?

Quando perguntei à jovem o que ela entendia por igreja séria, ela me disse “uma que não tenha se originado de alguém que brigou com outro alguém e depois a fundou”. Foi bem desse jeito... mas eu entendi o que ela quis dizer.

Ficou difícil então achar uma igreja séria, porque todas surgiram de alguém que brigou com alguém e, em nome de uma suposta visão ou compreensão da verdade, arquitetou um trabalho embasado em suas próprias convicções a partir da leitura que fez da Bíblia.

Lutero brigou com o Papa, Zwinglio e Calvino também tiveram “seus pegas” com o romanismo – esses dois últimos brigaram até com outros protestantes por divergências doutrinárias – e por aí vai. Não preciso nem citar aqui todas as divergências que geraram tudo o que vemos hoje na praça.

A resposta deveria ser básica. Séria é a igreja (ou o grupo de pessoas, isso pra mim é igreja) que leva Jesus a sério e se compromete em viver de acordo com essa consciência.

Será que falta mais alguma coisa?

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