17.9.10

As Escrituras indicam o Caminho

De todos os meus familiares, um tio em especial mostra-se uma pessoa muito questionadora. E questiona principalmente os assuntos da religião. Certa vez, em uma de nossas conversas, ele colocou em xeque a literalidade do livro de Jó, alegando não ser plausível entender o referido texto sagrado como uma história real.

E as indagações que ele sempre me trás eu sei bem de onde vêm. Por ter assistido algumas palestras do padre Quevedo e outros padres católicos de viés liberal, suspeito que ele guarde dentro de uma caixinha em sua cabeça um sem-número de perguntas que poderá fazer-me logo que me encontrar.

Acontece que, diferente de tempos atrás, debater esses assuntos não me trazem muita satisfação. Foi-se o tempo em que, após ser indagado acerca de um tema, eu passava dias pesquisando-o a fim de dar a melhor resposta. E vale dizer, resposta essa que não mudava em nada as ideias do meu “oponente”.

As pessoas creem naquilo que querem crer. E nos debates, na maioria das vezes, dependendo da postura adotada pelos debatedores, defende-se o indefensável apenas por orgulho, para não murchar o ego e admitir que o outro, além de ter razão em seus argumentos, é bem melhor que nós ao discorrer sobre suas ideias.

Outro motivo pelo qual não perco meu tempo debatendo determinados temas é a compreensão que passei a ter da fé cristã há poucos anos. Durante muito tempo encarnei a figura do apologista, o defensor da fé, um cruzado da era pós-moderna. Mas vi que nada disso tinha significado.

No caso do meu tio, por exemplo, ao tentar provar a literalidade do livro de Jó, perderia todo o precioso tempo no qual poderia comentar sobre a mensagem viva e real transmitida pelo escritor sagrado. Por isso, não pensei duas vezes, ao ser indagado sobre referido livro, falei do seu conteúdo, que é o que realmente importa. Que diferença faz se o livro é apenas uma estória ou se fala sobre fatos reais? Para mim não muda em nada seu caráter de literatura inspirada e muito menos diminui a minha fé.

Caso perdesse tempo com a literalidade de Jó, logo após encerrar essa discussão, é certo que perderia mais duas ou três horas discutindo se a história de Jonas também era real, se o dilúvio havia mesmo ocorrido e se o livro de Gênesis deve ser entendido como mitológico-histórico ou apenas e literalmente histórico.

Entendo pela leitura do Evangelho e pelas as cartas do Novo Testamento que as Escrituras nos indicam o Caminho, mas não são o Caminho. Apenas Jesus é o Caminho. Ele mesmo assim se autodenominou: “eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vai ao pai senão por mim” (Jo 14. 6).

Todos temos crenças e dogmas, isso é parte da religião. E religião é a forma como expressamos nossa espiritualidade, nosso relacionamento com o divino. Contudo, crenças e dogmas não são nem garantia nem requisito para que vivenciemos a fé cristã de forma legítima e real. Não se pode esquecer, Jesus é uma pessoa. Nosso Deus é pessoal, relacional e presente. Com ele desenvolvo um relacionamento familiar palpável. A vida cristã não pode ser resumida em um confessionalismo ensimesmado a partir do qual rejeito todo aquele que não se enquadra em todos os artigos da minha rígida confissão de fé.

Enquanto Paulo disse ao carcereiro em Filipos: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo tu e tua casa” (AT 16. 31), temos dito às pessoas: “crê em tudo isto que lês e ouves e somente aí serás salvo tu e tua casa!”

Se hoje o neopentecostalismo irrompe como um dos maiores fenômenos religiosos de todos os tempos, suplantando as igrejas históricas e o pentecostalismo clássico, um dos motivos é o espírito sectarista que possuiu as instituições denominacionais na ânsia de resguardar seus dogmas inexoráveis.

Rejeitou-se uma possível unidade na diversidade, desconsiderando-se que somos precários em tudo, até mesmo em nossas interpretações bíblico-teológicas, de modo que caminhamos em direção à verdade, porém não somos possuidores dela. Nos relacionamos com a verdade, mas não podemos enquadrá-la, formatá-la, condicioná-la às nossas limitadas confissões.

O confessionalismo ilhou as igrejas históricas, impedindo-as de contribuir com os seus “rivais” oriundos dos movimentos carismáticos. Estes, por sua vez, sem nem mesmo possuírem uma confissão de fé, nem rígida nem flexível, nem aberta ao diálogo nem oposta a ele, sucumbiram à desorientação teológica – o que ocasionou no surgimento de incontáveis igrejas totalmente superficiais em sua compreensão dos pressupostos basilares da fé cristã.

O que se vê hoje são crentes sem discipulado, sem crescimento espiritual, sem compreensão adequada das Escrituras – valendo-se dela apenas como amuleto e oráculo. Enquanto isso, no minguado grupo das igrejas históricas, nas quais se busca conservar com orgulho e altivez as suas tão honrosas tradições, aqueles que ousam pensar diferente, que aceitam pressupostos e descobertas da ciência, que estudam e questionam as interpretações dominantes enfiadas goela abaixo durante tanto tempo, estes são taxados de liberais teológicos.

Eles são irmãos que creem em Jesus, no poder do seu sangue para perdoar pecados, na sua ressurreição corpórea e, consequentemente, em sua segunda vinda. Contudo, essa essencialidade, essas verdades fundamentais não bastam para aqueles que consideram ser fundamental cada pingo no “i” dos textos bíblicos.

Aos “supostamente” liberais está destinada a exclusão da comunidade de fé, ou então o limbo eclesiástico quando a primeira opção torna-se inviável devido à reação que pode ser gerada nos participantes da denominação na qual o “herege” exerce o ministério pastoral.

Por limbo eclesiástico entenda o seguinte: ser impedido de lecionar em seminários, ser eliminado do rol de preletores de determinados congressos, ser remanejado na grade dos cursos teológicos das faculdades da instituição denominacional, entre outras coisas.

Isso tudo acontece. Isso tudo é literal. O triste nisso tudo é que há um mundo agonizante clamando por ajuda, e há um Jesus (o dos Evangelhos) que diz: “Vinde a mim vós que estais cansados e oprimidos, eu vos aliviarei” (Mt 11. 28). Mas para onde irão os oprimidos se estamos tão absortos em nossos debates teológicos?

Esse mesmo Jesus continua repetindo a todos nós, independente do conteúdo geral de nossa confissão, “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao pai senão por mim”.

É tão simples que precisamos teologizar para não compreender!

2 comentários:

Rubinho Osório disse...

Por tudo isso, sou hoje um cristão "sem igreja"...
mal sei quais são mesmo as minhas convicções!
Sei mais das minhas dúvidas e me apoio nelas para manter a esperança. Esta frágil e insensata chama, de que um dia, quiçá, meu senhor Jesus, pela sua graça, me dará descanso.

Humberto Ramos disse...

Mano,

Espero que seja um cristão sem igreja, mas não fora da Igreja de Cristo, a verdadeira, santa e universal; que suas convicções não estejam pautadas em outra coisa que não Jesus, o Deus encarnado.

Forte abraço!

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