14.10.10

Tropa de Elite II, uma denúncia

Já há um bom tempo em que um filme não provocava em mim reações tão fortes. Entre um filme e outro, saía do cinema sem muito o que dizer. Filmes de comédia, dos bons, sempre deixam um sorriso em nosso rosto assim que acabam, porém não são os meus preferidos.

Gosto de filmes que se aproximam ao máximo da realidade, que tratam temas polêmicos com visceralidade, vigor e coragem. Enfim, voltei a assistir um filme assim essa semana.

Eu havia assistido Tropa de Elite. Um filme intenso, realista e, pode-se dizer, frio ao tratar dos temas que se propôs a desenvolver. Um ótimo filme que deixou diversos questionamentos. O comportamento agressivo do BOPE e a violação dos Direitos Humanos em suas operações, a corrupção da Polícia Militar, a criminalidade na favela. Haveria alguma alternativa a essa realidade? Há como combater o crime sem desrespeitar os Direitos anunciados pela Declaração Universal dos Direitos Humanos e resguardados pela Constituição?

Não há respostas prontas para essas perguntas. No entanto, há mais questionamentos a fazer. E me pareceu que essa foi a proposta do Tropa de Elite II, o Inimigo agora é outro. As afirmações e os questionamentos feitos no segundo filme são muito mais incisivas, deixando em segundo plano toda a discussão gerada pelo primeiro.
Pelo fato de o herói da trama, Capitão Nascimento, envolver-se com a Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, ele começa a descobrir que o ponto nevrálgico das ramificações do sistema de corrupção na cidade se encontrava no seio do Governo, e não nas favelas.

O primeiro filme apresenta-nos um grupo de soldados comprometidos com sua missão acima de qualquer coisa. Não corruptos, assumem uma caráter quase messiânico, não fosse a violência empregada nas suas missões. Quem assistiu a película, saiu dos cinemas com uma sensação de receio e ao mesmo tempo alívio. Receio pelo modus operandi duvidoso dos policiais do BOPE; mas alívio por poder sustentar a crença de que há agentes sérios que não cederam às facilidades do crime.

O segundo filme é mais contundente. Ele deixa claro que, em se tratando do sistema, até o BOPE pode se transformar em um instrumento do mal. Inconscientemente, os policiais da Tropa de Elite se tornam, em um dado momento da trama, uma poderosa arma nas mãos dos cabeças da corrupção. Sem que percebam, obedecendo ao sistema, eles eliminam os traficantes, os donos das bocas, e deixam o espaço livre para que policiais corruptos, instituidores das chamadas milícias, agora dominem os morros e passem a cobrar da população por um serviço já pago que o Estado deveria fornecer com primor: segurança.

As milícias, por sua vez, estão ligadas aos políticos, quem se beneficiam da dominação do morro pelos policiais corruptos através dos votos angariados com a submissão da população.
Com esse cenário, o Tropa II desenvolve com perfeição a realidade dos morros da cidade maravilhosa. Embora seja bastante enfático ao ressalvar (talvez ironicamente), no início da obra, que ela se trata de uma ficção, todos sabemos que aquilo é a realidade.

A obra-prima deverá se consagrar mais ainda que o primeiro filme, gerando um sem-número de debates sobre o tema. Isso porque, tão realista quanto o anterior, na sua continuação a realidade foi aumentada e pôde ser vista a partir de uma perspectiva macro. Se no primeiro encaramos a realidade como quem está dentro dela, caminhando pelas calçadas e avenidas tomadas por traficantes e policiais em guerra; no segundo, ela pode ser avistada de cima. Somos conduzidos a um panorama a partir do qual dificilmente poderíamos presenciar os fatos narrados. Isso porque somos o povo, não sabemos dos bastidores da política além do que a imprensa nos transmite.

Algumas conclusões importantes podem ser tiradas. A imprensa, com todos os seus defeitos e sua parcialidade, deve permanecer livre; pois ela ainda constitui importante instrumento na denunciação dos atos corruptos e da criminalidade que permeia as principais instituições públicas do país. A polícia tem tanto policiais virtuosos quanto corrompidos. Há políticos envolvidos com a criminalidade, o tráfico, as milícias, mas há também pessoas como o Fraga (personagem que encarna no filme as melhores qualidades que um político poderia ter), homens honestos que lutam pela ética, a honestidade e a justiça.

Contente com o que assisti, admirado pela coragem do diretor José Padilha em denunciar o sistema com tamanha coragem, e cheio de prazer pela excelência das cenas e qualidade de gravação, não tenho outra opção senão tirar o chapéu para esta grande obra do cinema nacional (que, diga-se de passagem, está cada vez melhor).

Encarando a realidade que nos cerca, e equilibrando a descrença nas instituições com a esperança de que podemos contribuir de alguma maneira, sigamos como ovelhas entre lobos. E que Deus nos guarde!

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