24.11.10

Livrarias, sebos e a precariedade humana

Embora não seja um exímio leitor, gosto muito de livros. Esse gosto já beirou à compulsão, ao ponto de eu comprar até os livros que, devido à sua densidade e ao senso de oportunidade, saberia não ter tempo para lê-los – isso só pelo prazer de poder olhar minha humilde biblioteca e encontrá-los lá.

Ainda assim, vez e outra não resisto à tentação quando diante de uma livraria ou de um sebo. Aliás, sebos são sempre mais excitantes do que as livrarias. Eles geram em mim uma sensação fantástica, é como se estivesse diante de uma aventura. Como os antigos garimpeiros, os amantes de livros adentram os sebos como quem penetra uma mina. E lá se esquece do mundo aqui fora, se perde na busca de preciosidades.

E sempre há algo de valor. Ainda que o estabelecimento pareça por demais precário, abastecido apenas com alguns CDs, revistas antigas e alguns poucos livros desinteressantes, sempre há algo de bom. E um bom minerador não se deixa levar pelas aparências, acredita sempre e só descansa depois de ter garimpado toda a área.

Quando estou ocupado demais para me entregar a esse prazer ou sem grana, desvio meu olhar logo que avisto esses lugares. Isso pela certeza de que não conseguirei ficar ali dentro por menos de trinta minutos, e também pela convicção de que, sedo ou tarde, vou encontrar algo de bom.

Por fim, quase sempre encontro algum bom livro. E em se tratando de livros usados, eles costumam sempre vir com algum bônus. Eles vêm marcados, grifados, com dedicatórias e resumos das ideias que ali foram apreendidas. Sentimentos foram expressos ali, não apenas do autor, mas também daqueles que outrora foram seus possuidores.

O que me atrai nisso é o ousado desafio de tentar entender o outro, de conhecer (ainda que limitadamente) aquele que outrora se deliciava com cada página. Atrai-me fortemente as opiniões ali rabiscadas, a interpretação e a emoção expressa por aqueles que presentearam a obra a um ente querido (que outrora, por motivos que nunca saberei), decidiu se desfazer desse presente.

Recebi uma vez uma grande quantidade de livros. Um amigo havia ganhado de um ex-pastor presbiteriano. De modo que, não tendo o menor interesse em teologia, doou-me quase todos os títulos. Entre as páginas dos livros havia resumos, anotações curtas, pedaços de papeis com pequenos rabiscos e lembretes. Não pude deixar de pensar em como se deu o processo que culminou no desprezo àquelas obras que outrora eram objetos de estudo e reflexão – quiçá de inspiração e prazer.

Uma coisa concluí, se hoje amamos alguns livros, amanhã podemos passar a odiá-los. Hoje amamos ler, um dia talvez não tenhamos o menor apreço pela leitura; ou mesmo, desejosos por ler, não possamos nos deleitar nesta prática devido às circunstâncias. E assim é quase tudo na vida.

Os livros não mudam. Suas ideias estão petrificadas para todo o sempre. Edições podem ser corrigidas, atualizadas, mas sempre haverá um exemplar solto por aí, afirmando eternamente as mesmas coisas. Para o orgulho ou vergonha de quem os escreveu, sempre o mesmo texto. Nós, contudo, estamos destinados à mudança. Somos mutantes em todos os aspectos.

Não é apenas nosso vigor que se esvai nem nossas células que morrem. Nossos sonhos, ideais, nossos conceitos, nossas teorias e verdades estão sempre fadados à reformulação. Somos precários. Tão precários quanto à brisa que vem durante o entardecer para refrescar nossas tardes quentes. Somos literatura inacabada, cujo fim somente Deus sabe qual será.

***

E graças a essa precariedade... existem sebos e livrarias.

2 comentários:

Roger disse...

Valeu a pena esperar: Beto em sua plena genialidade e sensibilidade poética.

Humberto Ramos disse...

Meu brother,

Acho que não é tanta genialidade nem sensibilidade poética, mas sim generosidade da sua parte. Como sempre!

Eu estou retornando meio que de um sono profundo, vamos ver se mantenho a disciplina! rs

Related Posts with Thumbnails