2.12.10

Encontrei Jesus no sinal

Por Jackeline Souza

Essa madrugada, foi bem rápido. Encontrei o Jesus no sinal. Não tinha mais que doze anos, se eu for contar desde a última vez que o vi.

Um corpo magro, a pele morena, os olhos claros. Claridade? Eu já não via mais. Eu, no banco do carona, vejo do outro lado o Cristo implorando por um trocado, juntando as duas mãos em sinal de reza, rezando pra que eu o visse.

A chuva era fina, insistente, cortante. Me lembrei do Mano Brown " A chuva rasga a carne; é a torre de Babel..." Ninguém mais se entende, num gesto desesperado, o pequenino tentava falar minha língua.

E eu? Eu. Covarde, estranha, perdida. Por um minuto pensei, recuei. Será que abro o vidro ou não? Será que ele iria me reconhecer? Nem preciso dizer...

Quando abri o vidro. Perguntei: O que você tá fazendo aqui? Ele me responde: A tia do PET... Sim. Eu. A tia do Pet. A tia Jack. E ele? O Cristo. O Cristo negligenciado na pele do Jackson Brendon....

Nome de artista, olhos verdes, menino lindo. Onde é que ele foi parar? Onde é que ele foi morar? Por um instante, eu viajei e fui me lembrar. Não deu tempo de muita conversa, depois de recuar, decidi avançar. Dei o que eu tinha pra dar: algum trocado, conselhos vazios e um abraço, um beijo nas mãos...

Pra onde ele foi depois que o carro avançou, não sei. Por onde seus pés descalços vão caminhar até a manhã do dia de hoje, eu também não sei. Não sei onde seu corpo mirrado vai repousar, não sei se vai comer, se vai fumar, se vai se esconder, se vai roubar.

Não sei mais nada do Jackson, não sei mais nada desse pequenino.
Mas eu me lembro de algumas coisas...

Me lembro da sua mãe contar do seu pai, nas palavras dela, vagabundo, bandido, morreu na frente de seus filhos. Lembro da sua mãe contar que de todos, Jackson era o que mais se parecia com o pai. Rebelde, difícil, desobediente. Me lembro das inúmeras conversas e da sentença final daquela mulher: "Preciso da ajuda de vocês, não sei mais o que fazer..."

Me lembro das brigas que compramos na escola. Da diretora encurtar a conversa com uma consideração torpe: "Ah! Tá explicado. Vai ser bandido que nem o pai." E me lembro de rebater dizendo: "Não, a gente tá aqui pra que isso não aconteça."

E agora? Quem sou eu? Onde é que nos perdemos? Onde eu estava quando a escola se tornou um problema que ele resolveu deixar pra depois? Onde nos perdemos quando ele decidiu que estar na rua era melhor que estar em casa? Onde foi que nos perdemos quando ele perdeu aquela risada sapeca de criança arteira? Aquele olhar de lince, de menino do mato...

Divertido, sorridente, que pulava as mesas da sala pra fugir de mim, que me enlouquecia, que me trancava no banheiro pra me deixar brava, mas que no final das contas me dava os abraços mais deliciosos e que me cobria com a sua jaqueta jeans do Mickey Mouse quando eu sentia frio?

Eu não sei onde eu estava. Não sei onde nos perdemos, mas sei que agora nos trombamos na madrugada indiferente do sinal fechado. Sei onde ele está agora e por um minuto me acovardei diante de um estranho.

Só o vidro nos separa? Talvez. Ou talvez o fato de que eu a essa hora estou voltando pra minha casa, pro meu ninho, pra minha família e pro meu conforto de cama quente, internet, livros caros... Com ele eu deixei cinco reais e meu abraço, meu desespero e meu mais profundo desejo de que ele encontrasse a paz. Por mais impossível que isso me pareça.

Ele olhou pra mim, com aquele olhar que um dia eu reconheci. O olhar de quem já foi menino, mas agora diante de tanta brutalidade, talvez não consiga mais ser. Olhar de quem já foi criança, de quem já foi gente. Agora não é mais. Agora ele é só uma alma penada do Brejo da Cruz, como diria o Chico. Era criança, mas agora é uma alma, quase desencarnada. Invisível. Suplicante.

Pensei também que agora ele é fraco, sem estudos, menino pivete, marginal, trombadinha, moleque de rua, mas que talvez um dia ele se canse de ser tudo isso ao olho dessa gente toda. E aí talvez ele passe a ser visível quando tiver uma arma, quando render uma madame, quando passar um playboy e for parar finalmente num lar. O lar dos "sujeitos asujeitados", em conflito com a lei porca, cúmplice da injustiça, silenciosa e indiferente com todas as diferenças cruéis que fizeram aquele pequenino se tornar perigoso pro resto da sociedade... Socialmente desajustada, fragmentada, esquizofrênica e carnívora.

Essa mesma que se alimenta da desesperança dessas mães que largam os seus frutos pelo caminho, do incômodo que a insegurança e que a violência causam em suas vidinhas quase perfeitas. Comprando mais equipamentos de segurança, blindando seus carros e pagando seus impostos como alívio de consciência no caso de uma conversa de mesa de bar. Onde certamente argumentarão que um preso ou um adolescente no CAJE custam mais caro do que a babá de seus filhos ou a terapia deles mesmos.

Para o Jackson não tem re-socialização, nem família reintegrada, nem terapia, nem cama quente, nem olhos que o vejam. Para o Jackson tem vidros fechados, correria, noite fria, sinais e surpresas. Noite e dia.

E onde estamos nós? Povo que caminha em busca de humanidade, de verdade, misericórdia, justiça e liberdade? Quantos Cristos ainda teremos que trombar no caminho pra perceber que estamos aqui pelo Rei e pelo Reino e pelo avanço do amor que transforma, humaniza e nos faz ver quem de fato somos à medida que vemos quem o outro é e à medida que ele está em nós e nós nele.

Hoje eu descobri que preciso voltar, caminhar e descobrir onde perdi a compaixão, a coragem e a humanidade que se perderam quando aquele pequenino se perdeu...

Enfim, encontrei Jesus no sinal. O nome dele era Jackson e foi assim...


Jackeline Sousa é estudante de pedagogia na UnB, trabalha  na ONG Viver, na Estrutural - Brasília/DF.

2 comentários:

Anônimo disse...

Excelente texto, péssima realidade!
Peço ao Pai que me ajude sempre a levar de seu amor, ele é o combustível para o sucesso da raça humana.
abs
Cacá (Decio Caramigo Neto)
Obs.: Beto, adorei conhecer você, espero que seja o início de uma grande amizade. E, vai Curíntia!
=0)

Humberto Ramos disse...

Mano,

De fato, o texto ficou fera demais!

Que bom que você apareceu por aqui. Seja sempre bem-vindo!

Ah, também curti muito te conhecer. E me alegro por ler no seu comentário a palavra amizade. É algo que prezo muito. Que sejamos mesmo grandes amigos! Deus nos abençoe! rsrs

Abraços!

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