31.1.11

Evangelho?...

Caminhando pelas ruas e vielas da palestina, Jesus atingiu muitas pessoas com sua mensagem e vida. Sua obra impactou gentes de todo tipo. Ricos, pobres, políticos, religiosos, não fez acepção.

Sua mensagem era simples. Era o anúncio do Reino de Deus. E o Reino era uma nova possibilidade de vida. Novos valores. O Reino era um caminho para a reconciliação entre Deus e o Homem – e do homem consigo mesmo. A humanidade teria uma opção rumo à redenção que estaria encarnada nos discípulos do Reino, os seguidores de Jesus; chamados também de igreja.

Arrependimento e nova vida. João Batista já alertava aos pecadores que se arrependessem. E Jesus também anunciou o arrependimento, pois o Reino era chegado. Estava encarnado nele próprio. As belezas de Deus eram exaladas pelo cheiro suave da vida do Messias.

O aviso para arrependimento era menos uma ameaça do que uma opção salvadora. Isso porque todo homem em rebeldia diante de Deus vive na companhia da culpa. E a culpa doentia alimenta-se do remorso. Um pesar lancinante de quem deseja voltar atrás e se refazer, desfazer, recomeçar.

A vida, no entanto, não permite um giro no tempo a fim de reconstruir o passado. Ela permite que mudemos nosso trajeto a partir do lugar em que estamos. E isso significa, muitas vezes, que não poderemos apagar as pegadas que deixamos atrás de nós, mas poderemos deixar novas marcas no chão da vida.

O arrependimento no Evangelho gera alívio. A certeza de que, diante de Deus, ninguém será lembrado pelas suas falhas, pecados e erros. Mas sim pelas suas escolhas diárias. Esse arrependimento traz salvação às almas aflitas, afundadas no lamaçal da existência. Daí a nova vida!

Infelizmente, hoje há poucos portadores dessa mensagem de esperança. Na tevê, os vendedores da fé anunciam não o arrependimento e a nova vida (salvação); eles pregam um Deus mercador, que exige dinheiro e comparecimento a cerimônias bizarras (nas quais deverão levar mais dinheiro) em troca de sua operação.

Os sofredores não sabem ao certo o que desejam. Pensam que desejam cura física, sucesso financeiro, êxito profissional e realização amorosa. Na verdade, nada disso garante paz e satisfação. Uma vez alcançados esses bens da vida, logo surgirão outras necessidades. Pois o homem não se cansa de querer, de tentar preencher seu vazio de alma com conquistas efêmeras.

Por isso assistimos a grande multidão de fiéis que se vicia na religião, nas campanhas dos pregadores e que se prendem a um círculo vicioso de barganhas em prol de sempre mais.

Por isso, embora muitos digam que agora são do Evangelho, não vemos transformações concretas, suas vidas não impactam a sociedade.

Alguém me contou a historia de uma dentista que, temendo a punição divina, queria saber se era pecado assistir a um determinado filme. A mesma jovem outrora preocupada em agradar a Deus, vendia atestados médicos para pacientes que desejavam enganar seus patrões. Em outras ocasiões, sugeria aos pacientes que arrancasse de uma vez seus dentes, sendo que outras possibilidades não estavam descartadas, mas o fazia apenas para facilitar o trabalho.

Ora, a mensagem pregada não pode ser a de Jesus. Pois é absolutamente individualista. Afinal, temo apenas aquilo que pode fazer mal a mim, não ao outro. Importante é o que Deus tem para mim, e não para o outro.

O Evangelho de Jesus só é realidade a partir de quando amamos a Deus, acima de todas as coisas, e ao próximo como Jesus nos amou.

Não me canso de surpreender-me com os resultados dessa mensagem perniciosa que vem sendo pregada em nossos dias.

Às vezes me canso de continuar a dizer que tudo isso é mentira. Às vezes dá vontade de fingir que nada disso acontece. Mas vez e outra me bate uma esperança de que alguém vai ler (ou ouvir) e entender, que alguém será abençoado em algum lugar por ter entendido. E que esse alguém também alertará a outros.

É por isso que insisto. Talvez seja uma luta inglória. Mas o importante é lutar!

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