24.1.11

Uma legítima paixão

A paixão pelo futebol e a sua popularização pelos meios de comunicação elevaram-no à categoria de religião. E de fato o terço, o sinal da cruz e as mãos juntas indicando prece se transformaram em símbolos da devoção nos estádios de futebol.

Poucas coisas me conferem tanto prazer como uma partida de futebol. Esqueço-me da vida, comemoro, xingo, irrito-me e até entrego-me à ira – quase sempre quando clubes brasileiros enfrentam clubes (catimbeiros) argentinos em torneios sul-americanos.

Já tentaram diminuir meu prazer desmerecendo esse esporte. Como em tudo na vida, sempre surgem alguns chatos com o intuito de quebrar o encanto das coisas. Chegaram a me dizer que futebol é pão e circo, coisa da massa alienada.

Os destemperados (sem sabor) são assim. Recalcam determinadas áreas de suas vidas, acreditando agirem com maturidade. Errado! Todo exagero faz mal, pode denotar até doença. Assim, esses chatos escondem sua humanidade atrás da aparência severa, austera, impassível.

Os recalcados se esquecem que nem só de racionalidade e ponderação vive o homem, mas também de vibração, suor e lágrimas. Traduzindo: a integralidade humana comporta, entre outras coisas, a emoção, o desejo e o prazer.

O bom torcedor sabe disso, tanto que espera, obviamente impaciente, excitado e desejoso, pelo momento do gol; quando poderá, enfim, se deleitar no gozo orgástico que, via de regra, pode durar bem mais que dez segundos.

E pra não deixar dúvidas quanto à legitimidade desse prazer, vale dizer que ele também é profundamente racional. O campo é o tabuleiro, os jogadores são as peças, os técnicos são os enxadristas desafiantes. Um jogador mal colocado é uma peça mal mexida. Estratégia, frieza e oportunismo podem definir o jogo. Não raras vezes substituições definiram terminantemente o resultado de uma partida.

Certamente, não é pecado não gostar de futebol. Na verdade, é uma pena! Pecado é blasfemar contra ele. Pecado é se recalcar e sentir-se no direito de fazer o mesmo com os outros. Sugiro aos perseguidores dessa religião que encontrem algum prazer intenso ao qual possam se entregar.

Sugiro que invistam nisso, pois lhes fará bem (a vocês e a nós também). Mas tomem cuidado: prazeres intensos costumam sempre possuir uma pitadinha de irracionalidade. Afinal, não podemos negar nossos instintos. No fundo, bem lá no fundo, todos temos uma pontinha de irracionalidade pulsando ansiosa por dar as caras. Não se reprimam!

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