3.3.11

Dogmatizar é humano, amar é divino

Os dogmas constituem parte integrante e essencial da religião. De forma que, por mais antidogmática (ou não dogmática) que seja determinada crença ou grupo religioso, ele possui um ou outro dogma. Por dogma pode-se entender:

Ponto ou princípio de fé definido pela Igreja; Fundamento de qualquer sistema ou doutrina; O conjunto das doutrinas fundamentais do cristianismo. Dicionário Michaelis

Em outras palavras, são os pontos fundamentais indiscutíveis de um ensinamento religioso. Aqueles que o defendem o fazem por entendê-lo manifestamente claro e evidente, de maneira que se tornam inegociáveis.

Para tanto, é impossível ser uma pessoa de fé e não possuir dogmas. De maneira que os movimentos cristãos chamados emergentes ou mesmo as diversas formas de igrejas contemporâneas que arrogam para si uma fé sem dogmas não poderão vivenciar tal perspectiva na sua plenitude. É simplesmente impossível!

Dizer que minha fé não possui dogma já constitui em si um dogma desta fé, absoluto inegociável, não passível de relativização. Em outras palavras, a máxima “uma fé sem dogmas” já apresenta aos possíveis novos participantes dessa fé que, caso queiram ingressar no grupo, deverão se adequar ao nosso padrão não dogmatizante. De uma forma ou de outra, esse seria o ponto fundamental dessa religião (e de fato, pode até ser algo muito saudável).

Desse modo, qualquer ponto que se apresente como essencial e que se arrogue como caracterizador de um grupo religioso constitui-se em dogma. Até porque, evidentemente, sem este ponto, o grupo perderia sua identidade e sua razão de ser.

Assim sendo, é curioso perceber nos novos movimentos religiosos o dogma da espontaneidade, da não reunião, do não grupo, da não liturgia, da não institucionalização em oposição aos grupos anteriores que absolutizaram o culto-clero-domingo-templo.

Esses movimentos querem romper com o dogmatismo, no entanto correm o risco de criar outro paralelo a este. E no futuro, muito possivelmente, tornar-se-ão seguimentos religiosos profundamente dogmáticos, com algum escrito ou estatuto equiparado ao que hoje conhecemos como Confissões de Fé das Igrejas.

Ora, ainda que desagrade a muitos dizer isso, o destino final de todo projeto humano é a institucionalização (organização e sistematização). Uma igreja, por mais leve e simplificada que venha a ser, acabará se rendendo a alguma forma de disposição estrutural. Assim é com a família, assim será com a igreja. Fora disso, qualquer grupo está fadado à extinção.

O que agrada de fato nessa busca por não institucionalização e não dogmatização da fé é a tentativa de vivenciar uma espiritualidade dogmaticamente enxuta, arejada teologicamente e que se dispõe a refletir sobre temas relevantes despidos de preconceito e implacabilidade – acima de tudo, que aceita se autoavaliar (repensar a própria fé).

Não que não existam mais os dogmas. Sim, eles continuarão existindo. Eles podem e devem existir, só precisam conviver com a consciência das limitações humanas e de nossa compreensão e interpretações sofríveis acerca da vida e das coisas de Deus. Sem reconhecer a condição humana (precária como ela é), todo dogma pode convergir em desrespeito e sectarismo, quiçá em inquisições profundamente violentas (violência física ou verbal, não interessa o tipo).

Em se tratando de fé cristã, acima de tudo, deve-se eleger aquele que vem a ser (na minha opinião e na de muitos outros cristãos) o mais importante e relevante dogma dá fé: o amor. O amor que leva ao respeito, tolerância, compaixão, e isso até mesmo quando conduz as pessoas repreensão e correção.

Portanto, qualquer movimento, por mais inovador que se proponha, e que continue trabalhando com a categoria nós x eles (nós dentro, eles fora) não possui de fato nada de novo.

Sem dúvida alguma, o amor é o maior e mais importante dogma cristão. Dele procedem todos os outros fundamentos da fé; a saber, expiação por meio da Graça, o Sacrifício vicário de Jesus, o Perdão e a Redenção eterna garantida pela Ressurreição de Cristo, tudo isso resultado do amor de Deus para com sua Criação.

Dogmatizar é humano, mas amar é divino. 

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