1.5.11

Espiritualidade e poesia

Uma receita para a saúde mental


Seria muito confortante se todas as nossas dúvidas a respeito das questões espirituais fossem resolvidas racionalmente. Bastariam algumas constantes, aliadas a certas variáveis, e chagaríamos ao resultado.

Talvez seja por essa razão que as pessoas mais racionais (lógicas) tropecem tanto em conceber determinados conceitos espirituais. Estão acostumados com fórmulas matemáticas. E pra quem só sabe lidar com a lógica matemática, elementos antagônicos quase sempre são também mutuamente excludentes.

Quando tratamos da espiritualidade não podemos contar com tais muletas. Na verdade, devemos nos apoiar na fé, que é “um salto no escuro” (kierkegaard). Em outras palavras, não há um sistema lógico-matemático no qual se possa confiar. Na esfera da fé, intuir pode ser mais importante do que deduzir; e às vezes “um” pode ser igual a “três”; morrer pode significar viver e viver pode significar morrer.

Crer implica conceber paradoxos, conviver com a dúvida, suportar angústias firmando-se na expectativa de um alívio vindouro, viver aqui e agora o que será lá e amanhã (no Reino).

Por isso gosto de ler Adélia Prado, que em sua poesia impregnada de devoção, nos ensina a viver e conviver com ideias aparentemente opostas. Com seu jeito mineiro, prosaico, a Adélia nos apresenta como poucos a arte de transformar a complexidade em uma síntese enxuta e palatável.

Um exemplo prático dessa sua capacidade pode ser visto no jogo rápido (perguntas e respostas) elaborado pela Revista Lola à poeta mineira:
1- Poesia ou prosa?
Poesia sempre, no poema e na prosa.
2- Cotidiano ou eternidade?
Só falo de eternidade por causa do cotidiano, portanto escolho os dois.
3- O quintal ou o mundo?
O mundo está no meu quintal.
4- Serenidade ou desejo?
Sem desejo, o que faço com a serenidade?
5- Humor ou gravidade?
Humor.
Nesse diálogo breve podemos notar a estrutura de pensamento dessa admirável escritora, que em suas obras literárias nos sugere uma fé que não se embrenha em debates teológicos, mas que confia e se entrega. Para ela, “... a fé, uma vez encontrada, não teologa mais”.

Não que não se deva teologar enquanto atividade daquele que pensa acerca de sua fé. Crer é também pensar, já afirmou o bom velhinho John Stott. Mas talvez não haja outra saída para as complexidades e antagonismos com os quais nos deparamos por meio da razão do que lançar mão de nossa inteligência poética.

Não sem motivo as Sagradas Escrituras estão cheias de textos poéticos. A poesia é flexível e permite-nos conviver com antíteses. E o que seríamos de nós sem essa flexibilidade? Quando falamos de Deus, de espiritualidade e da fé, é melhor ser maleável do que enlouquecer. Deus está além de nossa compreensão racional, como poderíamos experimentá-lo senão pela beleza poética, pelo afeto amoroso e submissão confiante?

Conquanto a razão seja importante, ela pode se tornar um entrave ao amadurecimento da fé. Quem se apoia na razão, que se apoie também nas outras bases da vida humana, a fim de que não se encontre desprovido dos instrumentos necessários para decodificar a experiência espiritual. Por fim, um pouco mais da minha querida poeta para encerrarmos a conversa:
Eu lhe digo que toda experiência poética é religiosa, porque me remete ao Criador da Beleza, a um centro de significação e sentido para além da lógica, “tem sangue eterno e asa ritmada”, como diz Cecília Meireles. Nasce na alma, fala ao coração, pede adesão e não entendimento e nos inunda de felicidade. Toda religião verdadeira tem língua poética. Toda verdadeira liturgia é uma peça poética. Você fala em apreço às coisas simples. Tudo depende de nós mesmos sermos simples, porque as coisas são como são.*
*Revista Lola, Ano I, Outubro 2010.

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