11.5.11

O Galo

Por Rubem Alves

E há a estória do galo que cantava para fazer o Sol nascer, que já contei em outro lugar e repito. Bem de manhã, escurinho ainda, ele subia no telhado do galinheiro, estufava o peito e anunciava:

Vou cantar para fazer o Sol nascer!
A bicharada toda ficava boquiaberta, pois acreditava que o galo dizia a verdade, e a
prova estava bem ali diante deles. O galo batia as asas, olhava firme para o horizonte e
ordenava:
– Co-co-ri-có!

E logo o Sol, obediente, ia aparecendo, vermelho, todo luz, todo quentura, tudo ficava alegre, e a bicharada agradecia ao galo o seu poder e a sua bondade.

Bem verdade que isso não era coisa pacífica. Que o Sol nascia por causa do canto do galo, isso era dogma, quod semper quod ubique et quod ab omnibus creditum est – o que era crido sempre, em todos os lugares e por todos, como dizem os doutores da Igreja. O que era objeto de infinitas disputado era a partitura certa – porque pelo vale afora havia galinheiros que não acabavam mais, cada qual com seu galo, e cada galo cantava de um jeito diferente. Tinha o garnisé, que cantava fino, com voz de tenor, tinha o galo de pescoço pelado, se explicava dizendo que era tonsura sagrada, ele era barítono, encompridava o último cê do co-co-ri-có, tinha o galo de crista vermelha e penas cor púrpura, não se contentava em cantar uma vez só, gostava de ouvir a própria voz, tinha o galo carijó, que cantava manso, suave, feito gregoriano evitando o trítono, tinha o galo índio, teólogo da libertação, de canto guerreiro, cada um cantava de um jeito diferente e afirmava ser aquele o jeito de fazer o Sol nascer. 

O fato era que todas as vezes que os galos se encontravam, a coisa terminava em briga, briga de galo sendo até hoje esporte muito popular, cada qual tentando provar que o seu canto é o único verdadeiro e o do outro é falso. Nunca lhes passava pela cabeça que melhor seria fazer um dueto, embora as pombas tivessem tentado inúmeras vezes organizar um coro ecumênico para pôr um fim à briga, inutilmente, porque os galos não gostam de polifonia, gostam mesmo é do seu canto só.

Pois aconteceu que um dia o despertador do galo não tocou, ele perdeu a hora e, quando acordou, o Sol já estava lá no meio do céu, com aquele sorrisão de felicidade, espalhando luz e calor por todos os bichos do vale. Aquilo foi um golpe no orgulho do galo, entrou em depressão, procurou a coruja, psicanalista, contou-lhe os seus sonhos. A coruja fez que ouviu, não prestou muita atenção, e só falou uma irônica pontuação lacaniana: Já que o Sol nasce mesmo sem o seu canto, por que é que você não joga fora o despertador?

O galo a princípio não entendeu. Mas à medida que ia entendendo ele ia sorrindo: Jogar fora o despertador, o Sol vai nascer de qualquer maneira, o meu canto não tem assim tanta importância, não preciso bater o ponto, estou livre para dormir e acordar a hora que eu quiser, o Sol vai continuar a nascer de qualquer jeito...

Aí o galo deu uma gargalhada de felicidade, no que foi seguido pela coruja, ficou logo curado da sua depressão; as doenças da alma se curam sempre quando se aprende a rir de si mesmo... 

Contei essa estória para tranqüilizar os muitos galos, galinhas, patos, perus e marrecos, moradores de galinheiros, que devem ter ficado horrorizados com os meus contracantos, tão desrespeitosos das coisas sagradas, tão desafinados, com uma letra ao revés do que todo mundo aprendeu e acredita... Imaginei que pudessem ficar com medo de que o Sol, em represália pelo meu canto, deixasse de nascer...

Espero que tenham percebido que essa estória é uma parábola teológica sobre uma das coisas mais lindas do evangelho, que diz que Deus é como o Sol que nasce sobre os justos injustos, ou como a chuva que cai sobre maus e bons.

Eu sei que isso parece injustiça, pois o certo seria que o Sol brilhasse só sobre os bons. O certo seria se a fonte, quando o malvado chega perto, secasse. O certo seria se a chuva só caísse sobre os justos. Mas que posso fazer? O que diz um dos textos sagrados é que Deus não dá a mínima bola para o canto do galo, se canta ou se não canta, se canta bonito ou canta feio – ele brilha de qualquer forma. Deus não muda o seu jeito de ser, por causa do nosso jeito de ser.

Isso quer dizer que a gente pode cantar do jeito que quiser. Tem permissão para pensar o que quiser. Não faz diferença. O Sol não fica bravo. Acho que o Sol devia morrer de rir, vendo aquele bando de galos bobos, cada qual convencido da importância do próprio canto.

Deus é assim também: ele acha divertidíssimos nossos cantos de galo e nossos cacarejos de galinha (muita reza se parece com um cacarejo, pois fica repetindo a mesma coisa, só que o cacarejo tem mais sentido, pois com ele a galinha anuncia que botou um ovo, e nas rezas se quer obrigar Deus a botar um ovo...). Como eu dizia, Deus acha divertidíssimos nossos cantos e cacarejos, e até mesmo pede bis. Não estou sendo irreverente com as coisas sagradas. Sagrado é Deus, mar profundo e infinito, floresta sombria e desconhecida, montanha com seus abismos cobertos de neblina... 

Meu corpo e minha alma ficaram ali, diante do mistério que me cerca, em silêncio. Mas quando ouço os cantos de galo e os cacarejos de galinhas, começo a rir. E não é riso de deboche. É riso de felicidade. Felicidade que, diante do mistério obscuro, nos seja concedida a graça da leveza: podemos pensar e falar sem ter medo. Qualquer que seja o nosso canto, o Sol brilhará da mesma forma... Quando se percebe isso, ao pensamento se mistura o
riso, e começamos a voar...

Rubem Alves, Teologia do Cotidiano, 1994. 

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