17.6.11

Cheiro de roça

Lembro-me de quando íamos aos finais de semana ao Cervo, vilarejo da cidadezinha de Espírito Santo do Dourado, no sul de Minas. Era bem perto da minha cidade, mas como eu era pequeno, e ouvia minha mãe dizer que iríamos à roça com aquele “ar” de lugar distante (fora que a gente ia lá tão poucas vezes), eu sempre achava que a gente iria viajar.

Chegando ao sítio, muitas vezes ouvia alguém (não sei se ela ou meu pai) dizer: “cheiro de roça, que gostoso!” Na verdade, eu sentia cheiro de estrume de vaca, de cavalo e coco de galinha. Dentro da casa, cheiro de roupa velha, cheiro de fumaça e madeira queimando no fogão à lenha. Nada disso era tão atraente... ou melhor, nada disso me atraía como hoje me atrai.

A gente era criança (minhas irmãs e eu) e não se dava conta da tranquilidade e da bonança do sítio. Tranquilidade revelada no modo como aquelas pessoas viviam. Meus bisavôs maternos moravam numa casinha, de pintura desbotada, à beira da rodovia, num estilo de vida como se vivessem no começo do século passado. Eu gostava mesmo é de ir para o fundo do quintal, lá tinha um corregozinho, que a gente (repetindo a fala dos adultos) chamava de “corguinho”. 

Era no “corguinho” que aconteciam nossas corridas de barco – que eram feitos de papel, gravetos ou qualquer coisa que flutuasse.

E tudo cheirava à roça, mas eu não sabia bem. Gostava, sempre gostei dali, mas as crianças não sabem diferenciar as coisas da vida. Por isso talvez não valorizem tanto alguns momentos preciosos. Aliás, é bem possível que valorizem, mas não saibam de fato atribuir a eles significados mais profundos.

Hoje, em dias de grande movimentação na cidade de São Paulo, quando fico prensado no Metrô, sentindo todos os cheiros possíveis – e terríveis – logo após ter ingerido meu café da manhã (e fazendo um esforço danado para mantê-lo quietinho em meu estômago), penso no cheiro da roça para me aliviar, para suportar, esquecer. Tento viajar, pelas estradas da imaginação, a fim de abreviar esses momentos de tortura.

É assim mesmo! Vivendo experiências diferentes, provando disso e daquilo é que a gente passa a atribuir sentido às coisas da vida. De fato, não há nada como um bom cheiro de roça, formado por todos os aromas e odores que só no campo a gente encontra.

Nesse fim de semana fugi da cidade, fui reviver esses momentos. Infelizmente as urgências da vida não nos dão muita opção, tão logo voltei a São Paulo já me deparei com os cheiros do Metrô.

O importante é que tudo tem seu lado bom. E o lado bom disso tudo é que, sem conhecer os cheiros da metrópole, não conseguiria atribuir significado aos aromas do campo. E o significado da roça, para mim, é refúgio. Quando estiver fadigado, já sei para onde ir... 

2 comentários:

Fábio S. Mattos disse...

Cara, quanto tempo não lia algo bom de se ler!!!
Belas e verdadeiras palavras as que vc escreveu meu amigo!

Um grande abraço.

Humberto Ramos disse...

Meu amigo, que bom que gostou!

É uma honra ter você por aqui, ainda mais comentando!

Forte abraço!

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