1.6.11

Novas tecnologias e a ditadura do consumo


Preciso de um novo celular. O que possuo há tempos já está com algumas funções comprometidas. Algumas não, na verdade, a única coisa que me faz falta nele é o despertador. Pifou assim do nada. Mas também pudera... já o tenho a mais de dois anos.

Dois anos não é nada. Mas em se tratando de tecnologia na sociedade consumista na qual vivemos, é quase meio século. E já que falei de necessidades. Vamos falar das que não tenho. Pois bem, não preciso de um notebook novo. Não preciso de um som novo nem de uma televisão mais moderna, praticamente todos os eletrodomésticos necessários ao meu bem-estar e lazer estão em plena condição de uso. Porém, isso não é o bastante. Talvez até seja, mas não sem uma profunda reflexão acerca do assunto.

Faz uma semana atrás, assistindo um Jornal no período da manhã, o apresentador, após uma matéria sobre a novidade dos tablets, vaticinou: “Não poderemos fugir deles!” Foi algo tão espontâneo que certamente não estava no script. Contudo, a sua sentença reflete a realidade das nossas vidas nesse tempo que alguns têm chamado de pós-moderno. Sendo sincero, quase fui convencido pelo jornalista. Sua fala soou certeira em minha mente, não fosse a pergunta que fiz a mim mesmo questionando a real necessidade dessa nova tecnologia, é possível que eu estivesse agora incomodado por não possuí-la.

Fico impressionado como tudo hoje é tão descartável. Celulares são trocados em questão de meses. As televisões, notebooks, carros, tudo é passível de ser “jogado fora” de ontem pra hoje. Espero que isso não se dê com as pessoas. Se é que já não ocorre...

Sinceramente, gosto da tecnologia. Porém tenho certo medo a respeito do nosso futuro. Para onde estamos indo desse jeito? Quanto mais tecnologia temos, mais queremos. Quanto mais avançada, mais atraente, mais funcional, maior o desejo! Não importa se de fato necessitamos de um novo aparelho, o que de fato importa é que o possuamos. E mais importante, que o exibamos. Afinal, se possuo um tablet, possuo também o reconhecimento de que faço parte desse “mundo” de céleres transformações. Talvez esteja próximo o dia em que não viveremos sem a intervenção dessas fantásticas máquinas.

No metrô, pouca gente segue conversando. Alguns estudando, outros jogando os joguinhos de celular, outros já com os videogames portáteis, e alguns ouvindo música. O relacionamento humano está cada vez mais restrito, o diálogo descomprometido, espontâneo, já não é tão comum como outrora. Nossos parceiros inseparáveis são os aparelhos. E ai de nós se não os tivermos em mãos. Sentimo-nos nus...

Não sou desses fatalistas, pessimistas ou coisa do tipo... Mas às vezes me passam à mente alguns questionamentos malucos. Que talvez não sejam tão malucos assim. Algo do tipo: e se um dia nossos aparelhos todos falharem? E se algum cataclismo ou desastre natural comprometer nossas fontes de energia de maneira que nossos aparelhos não ligassem mais? Bem, seria um desastre total. Um colapso. Teríamos que reaprender a nos relacionar com – e somente com – os seres vivos. Acho que muita gente acabaria se matando, ainda que o problema não fosse a fome e a dor. A ausência dos aparelhos eletrônicos e de bens de consumo como os que possuímos hoje certamente nos seria uma amputação.

E assim como algumas pessoas que sofreram com a amputação de membros de seus corpos careceram de tratamento terapêutico para suportar a perda, é possível que a gente também necessite desse tipo de ajuda caso nos faltem nossas mais preciosas ferramentas tecnológicas.

Tomara que não nos aconteça nada nesse sentido. Mas que, mesmo assim, a gente consiga distinguir a diferença entre necessidade e futilidade. E se porventura algo inesperado acontecer, boa sorte a todos!...

6 comentários:

NilmaBostonRio disse...

Voce nao esta sozinho neste seu pensamento... eu tambem ja pensei sobre isso: na possibilidade de um dia nos ficar escassa a energia eletrica - e com isso ter que se controlar os gastos para recarregar tantos devices.

Eu comprei um ( Samsung Galaxy Tab ), e fico a maior parte do tempo com ele em minhas maos, lendo, pesquisando, filmando, assistindo e acompanhando a blogosfera... enfim, foi um substituto das minhas leituras convencionais em livro por exemplo - tambem ne, o Android Marquet tem aplicacoes para quase tudo! rsrsrs.

Este teu texto, e para reflexcao nossa que somos quase que escravos dessa nova tecnologia.
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NilmaBostonRio
https://profiles.google.com/nilmabostonrio/about
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Humberto Ramos disse...

Nilma,

É muito bom saber que existe gente com essa consciência. Aliás, é mesmo salutar que possamos refletir e conduzir outras pessoas a refletirem acerca desse assunto.

Estando a alma preparada, a gente pode suportar as grandes intempéries da vida. Se alguma desse tipo vier... estejamos minimamente prontos!

Abraços!

Claudio Silva disse...

Compartilho da sua preocupação, a ciranda do consumo passa pelas grifes, automóveis e as quinquilharias eletrônicas que são úteis, porém o tempo de obsolecência das mesmos principalmente eletrônicos é cruel e a pergunta é para onde iremos com essa dependência, esses dias faltou energia e estava com o fogão a lenha aceso (uso essa relíquia ainda) a familia se reuniu em volta do calor do fogão e começou a conversar, lembrei de minha infância onde na casa de minha vó ao anoitecer brincávamos e conversávamos a luz de um lampião de querosene.
A questão além da dependência são os relacionamentos que se tornaram frios e cibernéticos onde não há tempo para sentar e conversar.
Charqueadas RS

Humberto Ramos disse...

Claudio,

Fogoão à lenha! Que maravilha rapaz, isso sim é que é qualidade de vida. Nada como um bom papo ao redor do fogão, com uma chaleirinha de café no fogo, um paozinho de queijo (acho que no seu caso seria um bom Mate e pedaços de bolo, neh rsrs).

Mas é isso, cara. Pra onde vamos? Temos que nos perguntar agora antes que seja tarde!

Claudio Silva disse...

Humberto!
Verdade, um fogão a lenha é td de bom, aconchegante, nostálgico, charmoso e se bem cuidado pode passar de uma geração para outra, o que não é o caso dos aparatos eletrônicos-consumistas tratados na postagem. Tenho um note que comprei em 2006 e agora está bem obsoleto em relação aos modelos do mercado, mas é útil para textos, planilhas, e-mails e internet, possui um hd de 70gb o que dá para guardar muita coisa e minha filha q usa ele. No mes passado o plug da fonte estragou e pasmem, não encontro o plug para substituir ou seja se vc não entrar na ciranda do consumismo o próprio fabricante se encarrega de retirar as peças de reposição para forçar a troca.
Enfim esse é a sociedade fútil que vivemos e o pior e alguns acharem que por terem acesso ao consumo de tais engenhocas se acham num status acima dos demais mortais, coisas são coisas, assim como tem valor num instante, no outro perdem valor, pessoas devem ser sempre valorizadas pelo que são.
Abração e eu curto muito um pão de queijo com café embora a preferência aqui ainda é o chimarrão.

Humberto Ramos disse...

Claudio,

Faço coro às suas palavras, especialmente quando diz que "coisas são coisas" e por isso mesmo podem ser descartadas, mas pessoas devem sempre ser valorizadas pelo que são.

Abraço fraterno. Fique sempre à vontade para comentar!

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